29/02/2016

  • // Por: Clayton Melo

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Oscar 2016: Spotlight mostra a importância social da reportagem

O  jornalismo pode ajudar a determinar o tipo de sociedade conectada que somos, e informar com precisão e profundidade é parte fundamental nesse processo


Seria ironia do destino “Spotlight” ter vencido o Oscar justamente quando o bom jornalismo agoniza?
Seria ironia do destino “Spotlight” ter vencido o Oscar justamente quando o bom jornalismo agoniza? ( foto: Divulgação)

Quem pagará pelo bom jornalismo que inspirou “Spotlight”, filme vencedor do Oscar 2016? Colocando de outra forma: como garantir o futuro da reportagem – especialmente a de fôlego, investigativa, como retratada pelo longa-metragem? 

Viveremos na era digital apenas de opiniões, por um lado, e de notícias produzidas por um punhado de grandes agências nacionais ou internacionais, que têm uma visão macro da sociedade?

Como manter a sobrevivência do jornalismo local, o mesmo que o Boston Globe fez com Spotlight ao cobrir os casos de pedofilia praticados por padres na cidade de Boston? 

Quando assisti ao bom filme de Tom McCarthy, saí do cinema com essas perguntas na cabeça – já penso nisso há muito tempo, mas o longa aguçou essa preocupação. 

Importância social 

O que o caso Spotlight relembra é que a figura do repórter, a essência da profissão, é imprescindível, ainda mais da era digital, marcada pela abundância e por ruídos de todos os lados. Emitir pareceres, contar com a visão qualificada de especialistas em colunas ou blogs é importante, mas não basta. Precisamos ter claro de que o jornalismo fica desequilibrado sem a boa reportagem. Quem perde com isso é a sociedade.

Esse me parece o ponto central quando pensamos na sobrevivência do jornalismo na era da internet. Isso porque, com a ruptura no modelo de negócios clássico da mídia, o que avança é o jornalismo de opinião ou de “curadoria”, para usar um eufemismo. 

É fácil entender a razão: por uma questão financeira, as novas empresas ou projetos jornalísticos são, na maioria, conduzidos por um núcleo restrito de pessoas e que conta com o apoio de um grupo de blogueiros, geralmente pessoas versadas em diferentes áreas. É o que caminho possível que muitos encontram para continuar na estrada. 

Empresas como essas, no entanto, dificilmente têm condições de, regularmente, contar com um repórter profissional para apurar e redigir boas reportagens. Dinheiro para apuração em locais distantes? Para cobrir custos com advogados caso alguma reportagem incomode poderosos? Esquece.       

O assunto se desdobra em vários pontos, todos interligados: o modelo de negócios baseado na publicidade ruiu, o novo não nasceu e ainda estamos aturdidos à espera de uma luz no final do túnel.  

Ainda não há respostas a essas perguntas. Há tentativas – paywall, micropagamentos e financiamento coletivo, só para citar algumas pontuais -, mas nenhum caminho que se mostre sustentável no longo prazo, especialmente quando o foco é a reportagem de fôlego, como a de Spotlight e a que Alan Pakula levou ao cinema, em 1976, com “Todos os homens do presidente”, sobre o escândalo Watergate. 

Cobertura local em xeque

Na era da internet, há menos notícias e muito mais ruídos, conforme observou James Harding, da BBC, num texto do ano passado em que explicava a visão de jornalismo da empresa inglesa para o futuro. “A internet provocou um rombo no modelo de negócios de muitas das grandes organizações de mídia”, escreveu. “E, como resultado, amplos segmentos da vida moderna são cada vez mais esquecidos ou estão submonitorados pela imprensa”.

Ele acredita que a internet mudou a notícia para melhor – concordo com ele. Há uma série de recursos de multimídia à disposição contar uma história de forma interessante, capaz de atrair audiências mais jovens, isso sem falar no maior acesso a boas histórias. 

“Para quem estiver interessado em relatar o mundo – encontrando histórias, contando histórias, compartilhando histórias – tudo isso se tornou muito mais possível. Estamos vivendo o momento mais emocionante para o jornalismo desde o advento da televisão.”

Sociedade conectada

O reverso da moeda, no entanto, serve de alerta. 

“Esta é uma época irregular. Vemos, em alguns lugares, decadente entusiasmo com a democracia, polarização de opiniões, desengajamento social e uma crise de cidadania. Esses problemas não são culpa da mídia”, diz. “Mas o jornalismo – particularmente o de serviço público – tem a responsabilidade de apontar soluções. A indústria de notícias pode ajudar a determinar o tipo de sociedade conectada que somos.”

Mais: 

“O trabalho com o noticiário é manter todos informados – uma ação que nos permita melhorar como cidadãos, monitorados com o que precisamos saber. Na emocionante, desigual e agitada era da internet, a necessidade de notícias – precisas e justas, perspicazes e independentes – é maior do que nunca.” 

Voz aos sobreviventes

Seria ironia do destino “Spotlight” ter vencido o Oscar justamente quando o bom jornalismo agoniza? Pode ser sido isso ou uma maneira de a Academia dar um recado.

Fico feliz pela vitória desse bom filme, o que talvez sirva para nos dar ânimo para seguir adiante, ainda que o momento seja extremamente desafiador.

Por isso mesmo as palavras do diretor Tom McCarthy, na cerimônia do Oscar, não poderiam ser mais adequadas. “Este filme deu voz aos sobreviventes".  


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Claynton Melo
Jornalista com passagem por veículos como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil, IDG e Meio & Mensagem, Clayton Melo acompanha o mercado digital desde 1999. Como empreendedor, foi sócio da holding de comunicação digital Grupo IB e atualmente se dedica à criação de projetos de mídia interativa