26/04/2016

  • // Por: Luís Artur Nogueira

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Um comunista na festa das montadoras

O ministro Aldo Rebelo lembrou que, no século passado, possuir um carro era privilégio da elite, que se reunia em clubes automotivos exclusivos


Filiado ao PCdoB desde 1977, Rebelo tem no currículo discursos e projetos nacionalistas
Filiado ao PCdoB desde 1977, Rebelo tem no currículo discursos e projetos nacionalistas ( foto: Thiago Bernardes/Frame)

A cerimônia de posse da nova diretoria da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), na noite da segunda-feira 25, teve uma presença, digamos, inusitada. Quem estava escalado para representar a presidente Dilma Rousseff era o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro (o evento constava na agenda oficial do ministro). Ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Monteiro estaria “em casa” ao lado dos representantes das montadoras. Porém, um imprevisto impediu a sua participação e o seu substituto foi o ministro da Defesa, Aldo Rebelo.

Filiado ao PCdoB desde 1977, Rebelo tem no currículo discursos e projetos nacionalistas, incluindo o combate ao uso de estrangeirismos na língua portuguesa e a substituição do Halloween (Dias das Bruxas) pelo Dia Nacional do Saci-pererê, em 31 de outubro. Com esse perfil, não é difícil imaginar que um ambiente empresarial dominado por multinacionais não seja o local em que o ministro se sinta mais confortável. 

Para quebrar o gelo, Luiz Moan, que encerrou o seu mandato na Anfavea e passou o bastão para Antonio Megale, brincou com o fato de o time de coração do ministro, o Palmeiras, ter sido eliminado do Campeonato Paulista, no fim de semana. E seguida, lembrou que Rebelo, ao ocupar a pasta da Ciência e Tecnologia no ano passado, já havia debatido o futuro do setor automotivo em diversas reuniões. Moan tentou assim passar a imagem de que Rebelo não era exatamente um estranho naquele ninho. Mas era. 

No seu discurso, o ministro até fez uma ponte entre a inovação e o setor automotivo. Porém, a sua veia comunista ficou evidente quando ele destacou que, no século passado, possuir um carro era privilégio da elite, que se reunia em clubes automotivos exclusivos. Sem mencionar a palavra “burguesia”, ele salientou que, atualmente, o quadro mudou e boa parte da população tem acesso a crédito para comprar um carro. Encerrada a cerimônia, no Clube Monte Líbano, em São Paulo, Rebelo saiu rapidamente sem ser assediado pelos executivos presentes.

É preciso reconhecer que o ministro não falou nenhuma mentira, mas teria sido mais útil se o discurso abordasse o futuro econômico do País. Em meio à maior recessão da história brasileira, as montadoras trabalham com níveis elevados de ociosidade. Dentre os representantes das montadoras que estavam no evento, o sentimento geral era de que o governo Dilma já acabou. Em pouco tempo, Rebelo não terá mais função executiva em Brasília. Talvez, por isso, o ministro comunista não tivesse muito mais a acrescentar na festa das montadoras.      


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Luis Artur Nogueira
Luís Artur Nogueira, jornalista e economista, é editor de Economia da DINHEIRO e palestrante. Está no mercado há 20 anos