09/11/2016

  • // Por: Cláudio Gradilone

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Trump x Trump, o candidato e o presidente

O que o discurso da vitória indica, e o que muda para o Brasil 


Em discurso apaziguador, Trump disse que vai \"governar para todos os americanos\"
Em discurso apaziguador, Trump disse que vai "governar para todos os americanos"

Ao discursar para seus correligionários em Nova York na madrugada da quarta-feira (9), o candidato Donald Trump mostrou haver desaparecido. O 45º presidente eleito dos Estados Unidos falou em um tom totalmente diferente. Começando pelo tom de voz, mais calmo, e o discurso, apaziguador, Trump fez o possível para reduzir as tensões. Cumprimentou Hillary Clinton, a quem havia atacado duramente durante a campanha, e falou em "governar para todos os americanos".

Trump foi bastante eficaz durante a campanha em se distanciar da imagem de um político tradicional para atrair um eleitor que, em geral, está muito desencantado com os políticos em geral. Os números mostram isso: apesar de a economia americana estar se recuperando e o desemprego vir caindo sistematicamente, o americano médio, empregado em uma companhia ou pequeno empresário, vem se ressentindo de uma concentração de renda cada vez maior.

Enquanto o governo mantém os juros baixos e os bancos lucram cada vez mais, o americano médio vem tendo mais problemas para pagar as contas do médico e mandar os filhos para a faculdade. Nesse cenário, o discurso de ganhos com a globalização já não empolga. Apesar de inegáveis, esses ganhos são distribuídos de maneira muito irregular. E essa desigualdade foi o grande cabo eleitoral de Trump.

O que esperar? Na avaliação dos economistas, haverá uma grande turbulência na abertura dos mercados no Brasil nesta quarta-feira. "Trump representa uma indefinição, principalmente em pontos críticos da condução da política econômica, como a política fiscal e a política monetária", diz Roberto Indech, analista da Rico Corretora. Não por acaso, ao longo da madrugada, índices de ações na Ásia e na Europa chegaram a cair mais de 4% e o peso mexicano atingiu seu nível mais fraco em relação ao dólar nos últimos oito anos. No sentido oposto, ativos tradicionalmente ligados à proteção, como o ouro, chegaram a subir mais de 2%.

Os prognósticos para a abertura dos negócios hoje no mercado brasileiro são semelhantes. O dólar poderá subir até algo como R$ 3,50 ou R$ 3,60, e  as ações poderão recuar bastante, pelo menos na abertura dos negócios, mandando o Índice Bovespa para baixo de 59 mil pontos. No entanto, na avaliação do economista Roberto Luiz Troster, especializado no sistema bancário, essa turbulência será de curta duração.

Para Troster, os fundamentos da economia brasileira não serão muito afetados pela mudança, e isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que, independente da retórica, os presidentes americanos têm poderes rigidamente delimitados. "Não nos esqueçamos que, mesmo em dois mandatos, o presidente Barack Obama não conseguiu fechar a base de Guantánamo", diz ele. O segundo motivo é que o discurso protecionista de Trump terá pouco impacto sobre o Brasil, que ainda é deficitário nas relações comerciais com os Estados Unidos. "Em termos de comércio exterior, os Estados Unidos dependem mais do Brasil do que o Brasil dos Estados Unidos", diz Troster. 


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Claudio Gradilone
Cláudio Gradilone é editor de Finanças da DINHEIRO desde 2010. Escreve sobre investimentos há cinco moedas e há oito planos econômicos.