07/12/2005 - 8:00
DINHEIRO ? Quando o sexo substituiu o dinheiro nas patologias psicológicas?
Capriles ? Pode-se dizer que desde a metade do século XX, com o deslocamento do capitalismo industrial para a sociedade de consumo. Isso implicou mudanças substanciais na forma como construímos nossas identidades individuais e coletivas. O dinheiro se converteu em portador de personalidade.
Então, o sexo não é mais o protagonista nas doenças psicológicas modernas?
No século passado, ocorreu uma intensa exploração da vida sexual das pessoas, o que trouxe à tona diversos complexos sexuais reprimidos, causadores de doenças tratadas pela psicanálise. Já os complexos monetários afloram no segmento mais consciente da personalidade, aquele que busca adaptação. Assim, o dinheiro se desdobra em outros complexos históricos, como a culpa.
O que gera as patologias monetárias?
O desequilíbrio entre os aspectos positivos e negativos do dinheiro. O equilíbrio vem da avaliação consciente do que o dinheiro é. As doenças ocorrem quando se confunde dinheiro com amor, fama e poder. Os psicoterapeutas indagam sobre a mãe, o pai, a sexualidade. Mas pouco perguntam sobre a história monetária de seus pacientes.
Quais os principais símbolos ligados ao dinheiro?
Quando Cristo disse ?dá a César o que é de César e a Deus o que é de Deus?, dividiu: o dinheiro nos amarra ao mundo material e nos separa do espiritual. Ele é símbolo de todos os desejos carnais. Há quem o ligue com o sombrio, o diabólico e com o tesouro ganho com o desenvolvimento pessoal.
Quem precisa mais de dinheiro lida pior com ele?
A carência e a abundância geram problemas diferentes. Quanto mais dinheiro se tem, mais ele toma significados que abrem a porta para a patologia. Se temos poucos recursos, o complexo do dinheiro se desenvolve em torno da sobrevivência. Muito dinheiro pode nos fazer perder o contato com a realidade.
Se o dinheiro não existisse, seríamos mais felizes?
A felicidade nada tem a ver com o dinheiro. Há pessoas que recebem pouco dinheiro, mas sentem um crescimento em suas vidas e há aquelas que ganham bem e se sentem estagnadas. No plano filosófico, grande parte dos discursos toma partido do desprendimento. Aristóteles, ao contrário, considerava que a felicidade era impossível sem boas fontes de renda.
E o senhor?
Eu sou mais aristotélico. Se a felicidade está ligada a sucessos do espírito, ter dinheiro suficiente para nos assegurar a subsistência nos dá liberdade para entrar em níveis superiores da existência.
Quando o dinheiro deixará de causar doenças?
Quando houver mudança de valores. Se continuamos inconscientes do complexo de dinheiro, vamos continuar avaliando o sucesso em função de quanto ganhamos.
Qual seria um possível substituto para o dinheiro nas doenças psicológicas?
A fama. Ainda que vinculada ao dinheiro, não é exatamente o mesmo papel. A celebridade é o centro de muitos distúrbios narcisistas característicos do nosso tempo.
Acabar com o peso que o dinheiro tem na sanidade das pessoas seria acabar com o capitalismo em si? Isto não é utópico?
É utópico pensar em acabar com o dinheiro. Mas os sofisticados instrumentos financeiros estão desfigurando a noção habitual de dinheiro. Hoje, o conhecimento é mais importante que o capital. O poder, a sexualidade e a fama sempre existirão como paixões humanas. O importante é analisar o lugar que elas ocupam nas nossas vidas.