23/11/2001 - 8:00
Não havia, naquele ano, um cinegrafista, um diretor ou mesmo um porteiro de Hollywood que não cochichasse nos bastidores: ?O homem está louco?. O ano era 1937. O homem, Walter Elias Disney. E a loucura era transformar uma fábula dos irmãos Grimm ? Branca de Neve e os Sete Anões ? em longa-metragem. O jovem Disney já havia se dado bem com alguns quadrinhos e um filme curto do camundongo Mickey, criado em 1928. Mas aquele projeto era grandioso. Começou orçado em US$ 150 mil e avançou para US$ 1,5 milhão, uma fortuna para a época. Nada menos que 750 desenhistas teriam de ser convocados para a tarefa e uma dezena de empresários e banqueiros convencidos a empregar seu rico dinheirinho no sonho de Disney. Houve quem apostasse alto no fracasso. Mas a ?insanidade? rendeu a primeira estatueta de animação dada pela academia, bilheterias lotadas e lucros fabulosos ? suficientes para saldar as dívidas com o mercado e ainda montar um moderno estúdio para o desenhista. Ali o esforçado empresário começava a caminhada para se transformar em um dos maiores empreendedores da história americana. Nesta quarta-feira 5, por ocasião do centésimo aniversário de Mr. Walt Disney, os executivos do império que ele criou iniciam homenagens que vão durar até 31 de dezembro de 2002. Entre elas, e não poderia faltar, está o lançamento de Branca de Neve em DVD. A fita entrou no mercado americano na semana passada e apenas no primeiro dia de comercialização vendeu 1 milhão de unidades.
Reverência. De Los Angeles a Tóquio, de São Paulo a Paris, as comemorações se multiplicam sob a sigla 100 anos de magia. Serão novas atrações nos parques de diversão, programas especiais na tevê, desfiles de personagens em resorts, museus interativos que contam a saga do mito. ?Faremos uma reverência jamais vista no mundo do entretenimento?, disse a DINHEIRO Emily Carreon, responsável pelo marketing da DisneyWorld. Não poderia ser diferente. Desde que mostrou ao mundo seu primeiro camundongo, Walt Disney não parou mais de criar. Hoje, seu império se espalha por áreas tão distintas como parques, hotéis, rádios, publicações, rede de televisão, produtoras de cinema, varejo. O empresário criou uma marca avaliada em US$ 32,5 bilhões e uma corporação cujas vendas em 2000 bateram a casa dos US$ 25,4 bilhões. A Disney tem negócios em todos os continentes. Somente a divisão de produtos ao consumidor controla 3 mil empresas que fabricam mais de 14 mil produtos licenciados em 50 países.
Até bem pouco tempo atrás, o grosso das receitas da empresa
vinha dos parques de diversão, área criada por Disney nos anos 50. A Disneylândia nasceu como um parque modesto em Los Angeles e foi crescendo à medida em que novos recursos entravam nos caixas da companhia. Em 1971, já famosa e batendo todos os recordes de público, a Disneylândia subsidiou outro sonho: um complexo Disney World, que mudou a cidade de Orlando, na Costa Leste. Daquele ano até 1990, a população cresceu de 450 mil para 1 milhão de habitantes e a mão-de-obra saltou de 185 mil trabalhadores para 600 mil. O número anual de visitantes na cidade mais que dobrou. Saiu de 23 milhões para 50 milhões. As empresas aéreas esfregaram as mãos, assim como os hotéis. Os 900 mil passageiros ao ano transformaram-se em 7 milhões e a oferta de quartos quintuplicou. O sucesso animou Walt a inventar filhotes dos parques temáticos. Vieram atrações inspiradas no cinema e parques foram criados em outras partes do mundo. Há a EuroDisney, em Paris, e outra versão em Tóquio. Tudo ia bem até os atentados de 11 de setembro. A partir dali, a área de parques e resorts, que já vinha perdendo espaço para divisões como cinema e mídia, sofreu um duro golpe. Somente em Orlando, o fluxo de turistas caiu 25%. Bin Laden
venceu Mickey.
O grupo foi obrigado a cortar custos, demitir 4 mil funcionários e reduzir os salários em cerca de 20%. Nas comemorações do centenário de Disney, também haverá espaço para descontos de até 50% em resorts e parques e outras promoções em atrações como o Cruise Disney, barcos de entretenimento da companhia. No Brasil, que há uma década era o terceiro país que mais enviava turistas a Orlando, o movimento caiu drasticamente. Em meados de 90, 25 mil brasileiros visitavam mensalmente a casa de Mickey. Hoje, este número não passa de 15 mil. Efeito imediato, as agências de viagem que fizeram fama e fortuna com a DisneyWorld, como a Stella Barros, estão migrando para o turismo nacional.
Maus tempos nos parques, boas notícias para a área de cinema e tevê. O crescimento da animação gráfica e a concorrência de empresas como Warner e DreamWorks fizeram a então soberana Disney rever sua estratégia na área de desenhos animados para a telona. A empresa demorou um pouco para descobrir que fadas e príncipes já não encantavam mais a criançada e tomou alguns tombos com as produções dos rivais, mais em sintonia com o gosto infantil atual. O chairman Michael Eisner contra-atacou: trouxe para seu lado a empresa Pixar, de Steve Jobs, da Apple, e lançou nas telas personagens como monstros medrosos e insetos atrapalhados. O trio Toy Story, Vida de Inseto e Monsters resgatou a força da Disney nesta área. Hoje, a divisão movimenta US$ 6 bilhões ao ano.
Rádio no Brasil. Outro pote de ouro da Disney é a divisão de MediaNetworks (tevê, rádio, publicações). São quase US$ 10 bilhões por ano nos cofres da companhia. Muito desse sucesso se deve a duas importantes aquisições: a rede de televisão ABC e a Fox Kids. Isto sem contar os ganhos com o Disney Channel, canal premium da companhia. ?A Fox nos trouxe uma base de 80 milhões de assinantes no mundo. No Brasil, agregamos algo como 3,5 milhões?, diz Marcos Rosset, presidente da filial brasileira. ?Dessa área de mídia, pretendemos ?importar? a rádio Disney. Estamos conversando com vários parceiros para montar uma emissora nacional?, revela. Nos planos brasileiros está ainda a montagem de um estúdio para produzir filmes nacionais. Trata-se de um mercado de US$ 380 milhões. Este é o mundo de Walt Disney.