Ninguém está livre. Mesmo um investidor experiente, de olho numa empresa para apostar na bolsa, pode se confundir diante dos resultados financeiros apresentados por uma companhia. O caso da multinacional Parmalat, que exibia aparente sucesso nas contas, trouxe à tona uma situação comum ao cotidiano dos profissionais de finanças. Um indicador promissor pode, muitas vezes, esconder rombos. Diante da perigosa confusão das cifras, DINHEIRO pediu a Eduardo Farhat, diretor da KPMG no Brasil, um roteiro com cinco pontos fundamentais aos quais é preciso prestar atenção para descobrir se o sinal vermelho acendeu ou não.

RENTABILIDADE vs GERAÇÃO DE CAIXA

Rentabilidade positiva é informação animadora, mas apenas ela não indica saúde financeira de uma empresa. É fundamental analisar um item: a geração de caixa. As empresas do setor de telecomunicações, por exemplo, têm esse perigoso descompasso. Registram lucro, mas têm uma baixa geração de caixa. Em outros termos: o ganho é reinvestido e não fica nas mãos do acionista.

CAPITAL DE GIRO vs EMPRÉSTIMOS

O capital de giro é o montante de dinheiro que faz uma empresa funcionar. É o resultado das contas a receber menos as contas a pagar. Se a equação ficar positiva, não se preocupe muito com o endividamento. Nesse cenário, um empréstimo naturalmente financiará um pedaço de produção que já está vendida. É retorno garantido, sinal de crescimento. Porém, se o capital de giro estiver negativo e a companhia continuar a contrair novos empréstimos, muito cuidado.

ENDIVIDAMENTO vs PRAZO

A divulgação apenas do valor do endividamen-
to total de uma companhia não significa muita coisa. É preciso analisar uma série histórica. Apenas assim é possível perceber se há uma tendência de crescimento das dívidas e, sobretudo, qual é o percentual de comprome-
timento no total das cifras. O setor de energia é um exemplo de alto endividamento, sem grandes sustos ? trabalha em cenários mais previsíveis. O desempenho das elétricas acompanha diretamente a macroeconomia. Já em negócios mais instáveis, a dívida é um sério risco. Por isso, as empresas de varejo bem-sucedidas ? como Casas Bahia ? têm baixo índice de endividamento.

INVESTIMENTOS vs
CAPACIDADE DE PRODUÇÃO

Nem sempre novos investimentos são garantias de crescimento e lucros. Nos últimos anos, o setor de cerâmica aplicou milhões para expandir a capacidade de produção. No final, a demanda não correspondeu à expectativa. Empresas como Cecrisa e Portobello tiveram que estocar. Para complicar ainda mais a situação, em casos assim não existe a possibilidade de apenas desligar um forno da linha de produção. Com o aumento do estoque a rentabilidade despencou.

CREDIBILIDADE DA MARCA

O peso do nome dos executivos não é medido nos balanços, mas pode causar estragos, derrubando cotações. Basta um boato sobre um escândalo administrativo para a empresa perder o crédito no mercado financeiro e ouvir um não dos fornecedores. É inexorável: os minoritários são os primeiros a entrar no prejuízo.