Levantamento feito pelo Sebrae apontou que a maioria dos empreendedores avalia que o fim da escala 6 x 1 será positiva ou que não haverá impacto no negócio. Entre os pesquisados, cerca de 32% apontaram que a medida será prejudicial para o próprio negócio, segundo a 9ª edição da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios.

+ Leia em IstoÉ: A guerra da escala 6×1

O levantamento mostrou que cerca de 32% dos empreendedores veem impactos negativos em suas atividades, especialmente entre os negócios de beleza, academias, logística, agronegócio e economia criativa.

A redução da jornada dos trabalhadores é um dos principais debates dos últimos meses, tanto entre a sociedade como na esfera política. O presidente da Câmara, Hugo Mota, disse na última semana que pretende votar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala de trabalho 6×1 até maio. Pelo calendário proposto por ele, o projeto seria aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa em março e por comissão especial, em abril.

O levantamento do Sebrae contrasta com o posicionamento de setores que representam o Comércio e os Serviços. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) emitiu um parecer técnico-econômico apontando que uma redução na jornada de trabalho para 36 horas semanais demandaria R$ 358,1 bilhões por ano em ajustes no atendimento ao público e contratação de pessoal adicional.

+ Fim da escala 6×1 deveria ser gradual e começar por setores menos impactados, diz CLP

Desse total, R$ 122,4 bilhões seriam gastos pelo comércio e outros R$ 235,7 bilhões pelo setor de serviços. Os valores seriam usados para que as empresas contratassem novos funcionários ou pagassem ajustes para manter o atendimento ao público funcionando com o quadro pessoal que existe hoje. Nos cálculos da CNC, o custo adicional provocaria um aumento imediato de 21% na folha de pagamento do setor.

Em entrevista à IstoÉ Dinheiro, o presidente do Sebrae nacional, Décio Lima, considera que a redução da jornada é uma modernização do mercado de trabalho brasileiro, e não deve ser vista apenas pelo ponto de vista do “custo momentâneo na planilha”, e que, “sempre que o Brasil procura se modernizar, há processos conservadores de resistências que trazem uma visão muito equivocada”.

Lima diz ainda “não ter dúvidas” de que essa mudança seria a eliminação de um atraso e de que traria impactos positivos à qualidade de vida e produtividade dos trabalhadores. “Quanto mais abelha, mais mel, a economia cresce”, argumenta.

E reforça que o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas está preparado para auxiliar as MPEs no processo de adaptação à nova jornada.

Veja os principais pontos da entrevista:

IstoÉ Dinheiro – De maneira geral, como o Sebrae avalia a proposta de redução de jornada com o fim da escala 6×1 – sem redução de salário – para o segmento das MPEs, que, juntas, respondem por quase 80% dos empregos no país?

Décio Lima – Vejo como um passo necessário de modernização. A escala 6×1 é um modelo arcaico, herdado do sistema fordiano de mais de 100 anos atrás, da fábrica da construção de cadeias produtivas e que induziu naquele momento a economia no mundo. Então, um processo produtivo com aquela visão antiga é inimaginável dentro de um contexto de uma economia moderna.

Além disso, é o  que o Brasil precisa para estabelecer um processo de inclusão e de valorização daqueles que constroem efetivamente a riqueza do nosso país, pulverizado em toda a complexidade econômica, que são os trabalhadores, e que hoje estão no grande universo que são as micros e pequenas empresas.

Não tenho a menor dúvida de que esse modelo precisa urgentemente ser estabelecido como um marco regulatório no Brasil para que nós possamos induzir uma economia humanizada que valorize o povo brasileiro e que permita que a gente esteja em sintonia com aquilo que é importante, que são os modelos hoje dos países de primeiro mundo que já há muito tempo tratam essa condição como fundamental, inclusive, para aumentar o próprio processo produtivo.

Falando em produtividade, recentemente foi divulgada uma pesquisa apontando que o trabalhador brasileiro é menos produtivo em relação aos de outros países. A divulgação desse resultado gerou uma onda de comentários nas redes, rebatendo o resultado do levantamento. Como o senhor avalia essa informação sobre a produtividade do brasileiro em meio ao debate da redução da jornada?

O baixo rendimento é fruto de um modelo “caquético”. A economia brasileira precisa se modernizar. Como dizia o Daniel Kahneman (autor de ‘Rápido e Devagar’, entre outras obras de economia), Nobel de Economia, mas que também é psicólogo, ‘a economia é comportamento‘.

Se o trabalhador atua sob um regime que beira o conceito escravocrata, a produtividade sofre. Quando as pessoas trabalham com entusiasmo e paixão, e não por mera obrigação cruel entre capital e trabalho, o resultado é superior. Por fim à escala 6×1 trará esse fôlego novo para as cadeias produtivas.

Setores como o de bares, restaurantes e comércio em geral alegam que o custo do serviço vai subir e o consumidor pagará a conta. 

Olhar apenas para a planilha de custos momentânea é uma visão perversa e equivocada. Esse custo deve ser comparado ao crescimento econômico e à acumulação de riqueza das grandes cadeias. Estamos falando de modernizar relações. Esse debate tem que trazer justamente isso. A economia é para quê? É para acumular riqueza, tão somente? Ou a economia é para dar dignidade humana a todos aqueles que são pertencentes? Dos empresários e aos trabalhadores.

Na medida que você estabelece ao ser humano uma condição menos agressiva naquilo que é a exigência do processo produtivo com a sua jornada de trabalho, naturalmente você vai trazer um ambiente muito mais humanizado, uma economia saudável, uma economia que nós vamos poder com certeza também garantir o aumento da renda do povo brasileiro naquilo que é a base sólida do protagonismo econômico, que são os trabalhadores.

Então, eu não tenho a menor dúvida de que, inclusive, o Brasil está atrasado nesse contexto. Nós não podemos ficar com aquela continha: Olha, se reduzir a jornada de trabalho, vai ter um aumento do custo. Né? Eu quero saber da vida. Vai melhorar a vida? Que custo nós temos que relacionar isso, né?

Bares e restaurantes tiveram 20% de seu quadro de funcionários afastados por sintomas de Covid e gripe

 

Se tiver custo, nós temos que relacionar também com a acumulação absurda de riqueza que muitas cadeias produtivas têm hoje no modelo econômico brasileiro. Então, nós não podemos fazer um comparativo apenas dizendo assim: “Olha, isso vai aumentar 1% ao custo do processo produtivo”.

Mas você compara isso à acumulação daquilo que é a riqueza no processo produtivo, principalmente, que faz escala. Então temos que ter com clareza que todos vamos ganhar. Uma economia humanizada, uma economia que vai permitir uma distribuição de renda melhor e naturalmente isso vai gerar um processo de um crescimento econômico.

E o Sebrae tem feito um trabalho de aproximação e debate com essas associações e representantes de setores como o de comércios e serviços para alinhar esse debate?

Trabalhamos com o debate de que nós não podemos ficar com essa cultura apenas na perversidade de olhar uma planilha momentânea de custos, né? Por isso que eu sempre digo, essa planilha de custos, ela tem que ser comparada com o crescimento econômico. Eu acredito que isso traz resultados fantásticos para as cadeias produtivas e para os setores. É uma questão de adaptação. Sempre que o Brasil procura se modernizar, há processos conservadores de resistências que trazem uma visão muito equivocada.

Então, as dificuldades setoriais, como as citadas por você, têm tempo para se adaptar, têm o Sebrae para prepará-las. Nós, no ano passado, atendemos 65 milhões de brasileiros e brasileiras. Nós estamos preparados para protegê-las.

+ 67% da população no Sudeste apoia fim da escala 6×1, aponta pesquisa

Eu tenho certeza de que os negócios – inclusive os setores citados – vão ter uma expansão extraordinária, porque eles vão ter ali tranquilamente uma melhora na sua qualificação, porque traz ali uma intuição apaixonante da atividade econômica.

Uma coisa é alguém que está prestando um serviço com obrigação, com cara feia, com cansaço, com sentimento de que o que ele faz é apenas para obter a renda do seu sustento, a outra coisa é nós termos um processo em que os trabalhadores pulverizados nos vários aspectos da economia estão ali apaixonados para fazer a entrega daquilo que sabem fazer. Então, eu não tenho a menor dúvida, de que o fim da escala 6×1 é eliminar um atraso que ainda o Brasil convive.

Como o Sebrae trabalha para lidar com esse eventual efeito de custo entre as MPEs?

O Sebrae está preparado para apoiar os pequenos negócios nessa adaptação. Temos crédito assistido e fundos garantidores para ajudar as empresas a superarem eventuais lapsos de dificuldade durante a transição. O Estado precisa tutelar e proteger a pequena economia da voracidade do mercado. O Sebrae atuará fortemente na capacitação e no suporte para que essas empresas deem um salto de qualidade. No fim das contas, teremos mais postos de trabalho, melhor distribuição de renda e uma economia girando com mais força.

Vamos dar toda a assistência de capacitação para superação de eventuais dívidas, mas a visão que nós temos é que isso vai significar um salto de qualidade, inclusive para aqueles que não compreendem nesse momento.

O pequeno empreendedor, ele precisa sempre dos processos protetivos. Por isso, lá no primeiro governo do presidente Lula, ele criou o Super Simples. Depois, no segundo mandato, criou o MEI (Microempreendedor Individual). E por isso, hoje nós temos esse retrato extraordinário em que 95% das empresas brasileiras são micro e pequenas empresas e que têm um processo de proteção do Estado e são aquelas que mais estão induzindo a empregabilidade.

Nós temos hoje um crédito com o fundo garantidor para poder oferecer às pequenas economias, para que esse crédito seja assistido, para que essa empresa possa eventualmente superar um lapso temporal de dificuldades, inclusive para fazer escala e melhorar o seu protagonismo econômico.

Falando mais especificamente da Pesquisa Pulso dos Pequenos Negócios, em que a maioria dos empreendedores vê como positivo o impacto ou até mesmo que não haverá impacto, ainda que a mudança de jornada signifique um eventual aumento de custo. Como vocês avaliam essa visão do empreendedor?

Porque o pequeno empreendedor brasileiro, em sua maioria, é um ex-trabalhador que se libertou do modelo fordista. Ele busca qualidade de vida e sabe o valor da saúde mental. Então, é essa parcela que nós representamos, do espírito empreendedor do povo brasileiro, dos quais no ano passado, olha só o número extraordinário, de 1,8 milhão de novos empregos, um pouco mais, 1,3 milhão são originários da micro e da pequena empresa. Olha que número impactante. Ano passado foram formalizadas 4,9 milhões de micro e pequenas empresas.

O significado que tem isso (redução da jornada) para a vida desses empreendedores, qualidade de vida e para o aumento da sua renda. A humanização disso com o fim da escala 6×1, o próprio sentimento de quem empreende sabe que é bom. Sabe que as pessoas, como ele já sentiu, elas vão estar com mais paixão, com mais alegria, com mais disposição, com mais saúde para poder entregar a sua produção e garantir a sua renda.

Mas ele tem essa visão, entende que talvez essa mudança possa impactar no lucro, pode reduzir o lucro, vai ter que contratar mais, vai custar mais. Entende essa dinâmica? Pois um discurso comum aos empreendedores é de que, como dono de negócio, ele não para, é escala 7×7, porque justamente é o investimento de vida. Então, por que ele não vê como negativa a proposta que pode afetar as margens, já apertadas, de seus negócios?

A pequena economia é solidária e aglutinativa; muitas vezes começa com a família e amigos. Esse empresário entende que, se o colaborador estiver feliz e descansado, a entrega será melhor. Ele não trabalha apenas pela “gula do mercado”, mas pela sobrevivência e bem-estar coletivo.

Ela [a pequena economia] trabalha também com valores que são importantes, que é o valor da solidariedade, do carinho, do afeto. Então, com o fim da escala 6×1, ela vai dizer assim: ‘Olha, eu vou trazer mais alguém para trabalhar comigo. Eu vou dar mais uma oportunidade’. E isso mostra aquilo que é verdadeiro dentro de um conceito. Quanto mais abelha, mais mel, a economia cresce.

É por isso que abriram-se tantas padarias no Brasil, tantos salões de beleza no Brasil, porque a economia prosperou, por isso que no ano passado nós tivemos o maior aumento da renda média dos trabalhadores brasileiros.

Isso é reflexo de um Estado social e do aumento da renda média. Com o fim da escala 6×1, eliminamos um atraso histórico. O Brasil ganha dignidade humana e, consequentemente, ganha vigor econômico.