Cotadas a R$ 3,00 na quinta-feira 4, as ações preferenciais da Bombril são uma espécie de papel moribundo no pregão da Bovespa. Movimento em torno da companhia, hoje, só mesmo nas raias dos tribunais. É neles que o ex-controlador, Ronaldo Sampaio Ferreira, tenta há dois anos receber cerca de US$ 120 milhões referentes à venda de suas ações ordinárias da Bombril ao polêmico empresário italiano Sergio Cragnotti. ?Não existe disputa acionária?, afirmou Ferreira à DINHEIRO. ?Ele comprou e não pagou. Quero o meu dinheiro?, disse ele, numa rara entrevista. Nos anos em que ficou sob o controle italiano, a Bombril foi envolvida em operações financeiras nebulosas e teve seu valor dilapidado. Ferreira agora luta para que ela se reerga. Seus advogados já conseguiram afastar o grupo de Cragnotti ? preso na Itália sob acusação de fraudar o sistema financeiro ? e obtiveram a nomeação de um administrador judicial para a companhia. Também foi decretada a penhora das ações que estavam sob controle do italiano, assim como dos seus outros bens no Brasil ? a Cirio Brasil, que produz atomatados com a marca Peixe, e da Tevere Empreendimentos Imobiliários. Ainda é pouco para Ferreira, economista de 57 anos que divide seu tempo entre seus outros negócios ? a companhia de telecomunicações Atrium Telecom, em que tem como sócios gigantes como o banco JP Morgan e GE Capital, uma carteira de mais de 300 imóveis e duas fazendas para criação de gado nelore ? e hobbies como corridas de automóveis, golfe e paisagismo.

DINHEIRO ? A prisão de Ségio Cragnotti na Itália afeta de alguma forma o processo aqui no Brasil?
RONALDO SAMPAIO FERREIRA ? Não diretamente. A pessoa física Sergio Cragnotti não é parte do processo, mas sim empresas controladas por ele. Mas serve para provar o que nós sempre falamos sobre o comportamento dele.

Intimamente, o sr. sente satisfação ao vê-lo preso?
Não gosto de ver ninguém na cadeia. Para mim, era muito melhor se ele estivesse solto e eu com meu dinheiro no bolso. Eu quero receber o que ele me deve, não vê-lo na cadeia.

Quando começou sua rixa com ele?
Tudo começou quando meus irmãos resolveram vender a participação deles na Bombril para o italiano. Porém, pelo acordo de acionistas, eu tinha direito de preferência para comprá-la. Fiquei esperando que viessem me procurar para exercer esse direito, mas isso não ocorreu. Além disso, o preço que eles acertaram era o pior do mundo, um quarto do que realmente valia.

O sr. não queria vender também a sua parte?
Sempre fui contra a venda. Quando eles vieram me comunicar que o negócio estava fechado, eu disse que não poderia impedi-los de vender, mas que no dia seguinte estaria nos tribunais exigindo meu direito de preferência. Foi o que eu fiz. Isso forçou o Cragnotti a me procurar, quase que um ano depois.

O que ele lhe disse?
Ele veio prepotente, muito vaidoso, grande empresário internacional que estava comprando o mundo inteiro. E me propôs uma esmola para que vendesse minhas ações da Bombril para ele. Eu respondi: ?Sérgio, eu não vivo da Bombril. Eu gosto da Bombril. Mas eu tenho muito mais coisa. Você ofereceu esmola para a pessoa errada.? Ele então disse que eu poderia perder a ação na Justiça. Mas eu repliquei dizendo que sim, mas ele também poderia perder. Meus 33,3% continuariam meus enquanto eu quisesse. Ele, se perdesse, ficaria sem nada. Cragnotti ficou louco.

E como, apesar de inimigos, vocês ficaram sócios?
Fiquei amigo dele porque tive de ficar. Fizemos uma sociedade. Anos depois ele me confessou que só um italiano louco, como ele, compraria a Bombril. Um alemão não compraria uma empresa com briga entre sócios. Ele me falou: ?Sabe por que comprei? Era tão barata que achei que valia a pena. Corri o risco?.

Por que a amizade durou pouco?
Em 1992, fizemos um acordo. Eu teria dois anos para decidir se eu ficaria sócio dele de vez ou cairia fora. Se eu decidisse sair, o preço já estaria fixado. Mas eu não tinha sido alertado de que o Cragnotti, como majoritário, poderia vender, sem me consultar, até 49% das ações ordinárias. Um ano depois ele vendeu 25% do controle para a Henkel. Passei a temer que ele fosse vendendo mais e minha participação fosse diluída, até que não tivesse mais massa crítica do controle da empresa. Aí eu decidi sair. Saí numa boa. Ficamos amigos anos e anos até que ele deixou de me pagar.

Quanto ele lhe deve?
Ele pagou cerca de US$ 5 milhões de um total de US$ 120 milhões, sem contar multas.

Quer a Bombril de volta?
Estou cobrando dinheiro. Não estou cobrando a Bombril, a empresa de molho de tomate, nada. Caso ele não tenha dinheiro para pagar, virão coisas. No Brasil ele tem a Bombril, a Tevere e a Cirio Brasil. Se isso tudo não pagar o que ele me deve, aí iremos à Itália atrás dos bens deles lá.

Qual é a defesa dele no processo?
Trata-se uma dívida confessa. Ele não tem como vencer. Ele alega que venderam para a Clorox, mas, como ela desistiu do negócio, não tem condições de pagar. Só que uma coisa não está vinculada à outra. É a defesa mais fraca do mundo.

Que garantias o sr. tinha?
As ações ordinárias ficaram em garantia. Quando eu vendi, o Cragnotti não conseguiu, como era praxe em negócios desse tipo, uma carta de crédito de bancos internacionais de primeira linha. Então, fizemos como se faz no mercado de automóveis, em que os financiamentos são feitos com alienação fiduciária. Se o sujeito não pagar, o guincho encosta na casa dele e leva o carro de volta.

A garantia é insuficiente.
Era boa na ocasião. Hoje, é insuficiente. Com 15 anos de má administração, a empresa evidentemente retrocedeu. Se voltar a ser bem administrada, em um ano e meio ela volta a ser o que era.

O fato de Cragnotti não ter conseguido crédito não era indicativo de que o sr.poderia ter problemas futuros?
Pode-se até dizer que eu fui ingênuo. Quando me deram a idéia de que as ações ficassem em garantia eu pensei: ?Poxa, a empresa é maravilhosa. Se ele não pagar, me devolve.? O que não me disseram na época é que eu não assumiria a empresa a partir do dia em que ele deixou de me pagar.

Como está a Bombril hoje?
Ela era um Titanic. Vinha afundando, mas agora já dá sinais de recuperação. As vendas já aumentaram bastante, assim como a relação com os fornecedores, o que é muito importante.

E quanto valem os bens que foram penhorados?
A Bombril tem o valor de mercado baseado na cotação de suas ações. Não conhecemos, no entanto, a situação financeira dos outros bens e empresas. Ainda não houve nem a posse desses bens. Além disso, há o risco de haver esqueletos.

Há grupos interessados em comprar a Bombril?
Temos lido muito nos jornais empresas se dizendo interessadas. A Bombril é uma empresa ímpar. Com tudo que já aconteceu, ela não ter ido à falência é um milagre.

O sr. tem interesse em retomar a gestão?
Mais dia, menos dia, a empresa vai a leilão. Aí vamos ver se nos interessa ou não. Vai depender muito da situação da empresa quando isso ocorrer. Chega uma hora que o milagre deixa de acontecer.
Mas se estiver indo bem, há a hipótese de que eu tente
arrematar. Para a empresa, o fundamental é que essa pendenga termine com urgência.