21/01/2009 - 8:00

CANAVIAL SEM CORTE: no interior de São Paulo, a cana está deixando até de ser colhida
NESSA MESMA ÉPOCA DO ano passado, o etanol impulsionava o agronegócio e levava ao campo uma onda inédita de riqueza. Alimentado pelo fenômeno dos carros flex, pelo preço recorde do petróleo – a US$ 150 o barril – e pelo maior volume de investimentos da história, o setor sucroalcooleiro tornou- se também um dos principais cartões de visita do Brasil no Exterior. Tudo ia bem. Mais de 90% das cerca de 350 usinas em atividade captaram US$ 22 bilhões e expandiram a produção. Ao mesmo tempo, US$ 33 bilhões foram anunciados em investimentos até 2011. De olho no potencial energético da cana, diversos grupos estrangeiros desembarcaram no País e construíram 22 usinas e outros 53 projetos aguardavam licenças do governo.
De repente, tudo mudou. Hoje, o setor está em crise e a recessão global fez o petróleo despencar para menos de US$ 40. O preço da gasolina nos Estados Unidos, por exemplo, recuou de quase US$ 4 o galão (3,785 litros) para US$ 1,5. Com isso, em Chicago, um litro de etanol já custa o dobro da gasolina – o que fecha as portas do mercado internacional. E os problemas do etanol não se limitam à concorrência com o petróleo. As usinas brasileiras superestimaram o mercado, tomaram empréstimos em dólares antes da disparada da moeda americana e não têm mais a perspectiva de levantar recursos nas bolsas de valores. E o quadro ainda pode piorar se o governo reduzir o preço da gasolina. “Se isso acontecer, será um desastre”, diz o presidente da União da Indústria de Canade- Açúcar (Unica), Marcos Jank.

MARCOS JANK: lobby contra a redução dos preços da gasolina
A equação é delicada porque hoje o Brasil tem uma das gasolinas mais caras do mundo – ela está 158% acima da cotação de varejo nos Estados Unidos. Com isso, em algum momento, o governo terá de ajustar os preços no mercado interno. “Se a gasolina cair a R$ 2, nosso setor ficará inviável”, diz o diretor industrial das usinas São Francisco e Santo Antônio, Jairo Balbo. Nesse cenário, muitas usinas já não estão pagando fornecedores. “O setor se descapitalizou de maneira brutal”, acrescenta o coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV e exministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Os reflexos do colapso do etanol estão claros nos balanços das empresas, mas podem ser vistos também nas estradas de São Paulo, que detém 60% da produção do País. Sem dinheiro, com dificuldades de tomar empréstimos e com a possibilidade de perder competitividade diante da gasolina, cerca de 40 milhões de toneladas de cana (10% do total) deixaram de ser cortadas – e estão há quatro meses em ponto de colheita, em terra.