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Imagine uma fusão entre a Volks e a Fiat, as duas maiores montadoras de automóveis instaladas no Brasil. Ou adicione todas as empresas de telefonia fixa do País, como Oi e Telefônica, e inclua ainda a Embratel. Numa terceira experiência, coloque no mesmo bolo as três maiores redes de supermercados ? Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour. Em qualquer alternativa, a soma dos faturamentos será menor do que o tamanho do grupo JBS Friboi, comandado pelo empresário Joesley Batista. Na semana passada, com duas aquisições, a do rival Bertin e a da empresa americana Pilgrim’s Pride, ele criou a maior empresa privada do Brasil, com 125 mil funcionários e uma receita bruta estimada em R$ 60,6 bilhões. Os números dos primeiros seis meses deste ano já a colocam até à frente da Vale, que foi afetada pela queda dos preços do minério de ferro. Hoje, à frente do grupo JBS, há apenas a estatal Petrobras. ?E isso é só o começo?, disse Joesley à DINHEIRO. ?Não vamos parar e estamos de olho em várias empresas em dificuldade.?

Tacada nos EUA: Pilgrim’s Pride, que estava em concordata e é o segundo maior grupo do frango no mercado americano, agora é do JBS

O que surpreende, na história do JBS, é a velocidade exponencial de crescimento. Em apenas quatro anos, entre 2006 e 2009, o grupo terá crescido inacreditáveis 1.900%. E o foguete não foi o único do agronegócio brasileiro. Apenas um dia antes das aquisições anunciadas por Joesley, o grupo Marfrig, comandado por Marcos Molina, adquiriu, das mãos da americana Cargill, a Seara, uma grande processadora de aves e carnes suínas. Com isso, o Marfrig encostou na Brasil Foods ? a companhia resultante da megafusão entre Sadia e Perdigão. Seu crescimento em quatro anos foi de 650% ? mais modesto do que o do JBS, mas não menos surpreendente.?Agora a gente tem uma marca nacional para competir com eles?, disse Molina, aos analistas dos bancos de investimentos.

Os dois movimentos evidenciam a fantástica mudança do capitalismo nacional e também a nova posição do Brasil no contexto global. Até recentemente, o que se discutia era quando grandes empresas americanas de alimentos, como Tyson e Cargill, desembarcariam no Brasil, adquirindo marcas líderes, como Sadia ou Perdigão. E o que aconteceu foi o inverso ? tendo como protagonistas atores improváveis. ?O Brasil está cumprindo sua vocação histórica de ser o maior fornecedor de alimentos do mundo?, disse à DINHEIRO o economista Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e membro do conselho do Marfrig. ?E não se trata apenas de exportar commodities, mas, cada vez mais, produtos industrializados.?


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Aquisições realizadas nos últimos quatro anos garantiram ao JBS Friboi salto de 1.900% no faturamento, o que é inédito na história dos grandes grupos empresariais brasileiros

A transformação teve início em 1999, quando a desvalorização do real abriu espaço para que os frigoríficos nacionais se tornassem exportadores. As empresas, que vinham de um setor marcado pela informalidade, conseguiram se capitalizar. E as vendas externas, que eram incipientes, chegaram a quase US$ 5 bilhões, dando ao Brasil a liderança do mercado mundial de carnes bovinas, à frente da Austrália e dos Estados Unidos. No meio do caminho, dois agentes importantes ? governo e mercado ? enxergaram o enorme potencial desse setor. De um lado, o BNDES entrou no capital de vários frigoríficos, incluindo o JBS e o Marfrig, dando a eles musculatura para aquisições internacionais. De outro, os bancos de investimento apostaram no lançamento de ações dessas empresas. Bem cotadas na Bovespa, as duas passaram a financiar suas operações de forma saudável ? com trocas de ações e não por meio de endividamento. Para concluir a compra da Pilgrim’s Pride, o JBS fará um IPO na bolsa de Nova York. E o Marfrig pretende bancar a compra da Seara com a venda de mais um lote de ações na Bovespa.

FREDERIC JEAN

Família Bertin: eles serão minoritários no desenho da nova holding que controlará o grupo JBS Friboi

Uma das peças centrais nessa odisseia dos frigoríficos nacionais tem sido o ex-ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes. Enquanto esteve em Brasília, no governo Fernando Henrique, ele foi responsável pela expansão da agropecuária brasileira. Depois disso, passou a atuar como mascate, à frente da Abiec, a associação dos exportadores. E após colocar o Brasil na liderança do ranking global, ele foi chamado pelo JBS Friboi para assumir a presidência do conselho de estratégia do grupo, onde passou a vender a ideia de que, cada vez mais, o mundo precisará do Brasil para se alimentar. ?Aquele sonho que eu tinha se realizou?, disse Pratini à DINHEIRO na semana passada, falando pelo celular num trem que ia de Liverpool a Londres. ?A produção em massa, com escala global, será feita por empresas gigantes, e muitas delas brasileiras.? Hoje, entre as dez maiores empresas mundiais de alimentos, nada menos que três ? JBS, Brasil Foods e Marfrig ? são verde-amarelas.