12/11/2008 - 8:00
NA SEGUNDA-FEIRA 3, assim que a Votorantim Novos Negócios (VNN), incubadora do Grupo Votorantim, anunciou a venda de duas de suas empresas, a CanaVialis e a Alellyx, para a Monsanto, uma pergunta começou a circular nos meios corporativos. A transação tinha algo a ver com o prejuízo de US$ 2,2 bilhões que o grupo amargou no mercado de derivativos? Ou tratavase apenas de se desfazer de negócios já maduros e aferir o lucro? ?A data é pura coincidência?, disse o diretor-executivo da VNN, Fernando Reinach, que se reporta diretamente a Luiz Ermírio de Moraes, um dos herdeiros do grupo. Segundo ele, as duas companhias tinham atingido seu ponto de maturação e, por isso, era hora de vendê- las. Reinach viu a CanaVialis e a Alellyx surgirem do nada. Por isso, considera a transação ?triste como a partida de um filho?, embora desde o início a intenção da incubadora fosse passar adiante as duas companhias do setor de biotecnologia.
Na opinião de alguns analistas, a venda faz todo sentido. O economista José Góes, da corretora Win Trade, acredita que as perdas com derivativos possam ter acelerado o fechamento do negócio, mas não foram o motivo principal. ?A Votorantim está saudável e um prejuízo de US$ 2,2 bilhões, embora tenha impacto, também não é motivo para que ela saia vendendo ativos?, afirma ele. O alto custo de manutenção e o horizonte de longo prazo para se colher resultados, típicos do setor de biotecnologia, tiveram, para Góes, influência na decisão da VNN. Além disso, são operações sem relação direta com as atividades principais do grupo. ?Devido ao momento econômico, acredito que, se encontrasse interessados, ela venderia todas as companhias da VNN que não estejam em setores estratégicos para o grupo?, afirma Góes. Esses são os dois primeiros filhotes que a VNN vende desde que foi criada, em 2002. A VNN tinha oito companhias em sua carteira. As remanescentes, diz Reinach, são negócios que ainda não atingiram seu ?ponto de maturação?. O executivo não revela quanto investiu nas duas companhias. O único número público a esse respeito é uma linha de financiamento da Finep no valor de R$ 49,4 milhões, dos quais a VNN utilizou apenas R$ 6,4 milhões na Cana- Vialis e na Alellyx. Vendeu-as por US$ 290 milhões. Ou seja, independentemente do volume de recursos próprios investidos, provavelmente amealhou um bom lucro.
A Monsanto era uma candidata natural à compra ? algo ?previsível?, como afirma Reinach. As duas empresas têm parcerias desde o início de 2007 e, para a VNN, a venda da Cana- Vialis e da Alellyx para a multinacional significa o próximo passo natural dessa relação. Já para a Monsanto, a compra abre efetivamente as portas do mercado de cana-de-açúcar, cada vez mais aquecido com a febre dos biocombustíveis. O retorno financeiro, porém, ainda deve demorar, o que parece não incomodar a multinacional. ?Vemos isso como uma oportunidade significativa para o longo prazo?, diz o novo presidente da companhia no País, André Dias, no posto há apenas dois meses. A estratégia é considerada válida por Góes, da Win Trade. ?Do ponto de vista de mercado, acho que essas empresas de biotecnologia fazem muito mais sentido na Monsanto do que na Votorantim?, diz ele. A CanaVialis é, hoje, a maior empresa em desenvolvimento de novas variedades de cana-de-açúcar do mundo, e foi criada do zero pela própria Votorantim. A Alellyx, fundada pela VNN, é uma companhia dedicada ao estudo de genomas vegetais para alimentar áreas de pesquisa e desenvolvimento da indústria de biotecnologia. Independentemente da motivação do Grupo Votorantim, elas hoje estão debaixo do guarda-chuva da Monsanto.