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Steinbruch: “Vamos dobrar o tamanho da companhia nos próximos três anos”

 

 

Benjamin Steinbruch tem duas grandes lembranças de sua vida de empresário. A primeira delas está emoldurada numa placa de vidro, acomodada na estante de seu escritório em São Paulo. É o cheque de
R$ 3,5 bilhões que serviu para comprar a Vale do Rio Doce, mais tarde transferida ao Bradesco. A segunda recordação é um encontro que teve com mil funcionários num galpão da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda (RJ). Dono da CSN desde 1993, ele havia acabado de assumir a presidência da empresa em maio de 2002 e estava sendo atacado por todos os lados: ações em baixa, prejuízo de R$ 219 milhões, o fracasso de sua tentativa de fusão com a empresa inglesa Corus, críticas públicas de seus desafetos e dúvidas sobre sua capacidade de honrarébitos de US$ 2,1 bilhões. Microfone em punho, Steinbruch só disse seus desafetos e dúvidas sobre sua capacidade de honrar débitos de
US$ 2,1 bilhões. Microfone em punho, Steinbruch só disse uma frase: ?Os números vão falar pela CSN?. Falaram.

Em 18 meses, a CSN tem outra história para contar. O valor das ações foi multiplicado por quatro. O prejuízo virou lucro recorde, de estimados R$ 1 bilhão. ?Se for menos que isso, eu demito a diretoria?, brinca Steinbruch. As dívidas caíram para US$ 1,8 bilhão e deixaram de ser preocupação. Isto porque a CSN vai chegar ao fim do ano com US$ 1 bilhão em caixa e com novos planos de investimento. Até 2007, também pretende aplicar US$ 1,5 bilhão em aumento de produção. Além disso, planeja comprar siderúrgicas na Europa. ?Vamos dobrar nosso valor de mercado em três anos?, promete Steinbruch.

A virada da CSN está baseada numa característica imbatível, que lhe dá grande vantagem no setor. ?Ela tem o menor custo de produção em todo o mundo?, afirma Beatriz Fortunato, analista de siderurgia do banco Opportunity. Hoje, para cada US$ 100 vendidos em aço (já descontados os impostos) US$ 50 pagam os custos de produção. Outros US$ 50 sobram para o caixa da empresa. Pela mesma conta, as concorrentes brasileiras embolsam US$ 35; as européias, US$ 20 e as americanas têm prejuízo para fabricar o aço. Steinbruch é um obcecado por corte de custos. Ele é capaz de checar a conta de celular e os gastos de viagens de seus executivos. Apesar do crescimento da companhia, mantém ou reduz o tamanho do quadro de funcionários. ?Meu pai me ensinava a dificuldade do dinheiro?, diz Steinbruch. ?Mesmo na casa do bilhão eu valorizo cada tostão.?

 

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CSN: Em Volta Redonda, o menor custo do mundo

A austeridade de Steinbruch casou perfeitamente com a estrutura da CSN. A vantagem da empresa está no sistema integrado de produção. É a única siderúrgica do mundo com mina própria (minério de ferro, a matéria-prima do aço), tem ferrovias, gera 100% de sua energia e é dona de um porto exclusivo em Sepetiba, no Rio de Janeiro. Parte dessa estrutura foi herança dos tempos da criação da empresa, com Getúlio Vargas. Mas Steinbruch também contribuiu. Na sua gestão, a empresa investiu US$ 3,3 bilhões em modernização das linhas de produção. Também teve sorte. ?Em 2002, houve forte recuperação do preço do aço no mercado internacional, aumentando as exportações da empresa?, diz a ex-presidente da CSN e a atual consultora, Maria Sílvia Bastos Marques.

No último ano, o empresário também tratou de blindar o caixa. Hoje, 100% de suas dívidas em dólar estão protegidas com operações no mercado financeiro (hedge). No ano passado, a CSN estava desguarnecida, o que causou boa parte do prejuízo de R$ 219 milhões. Em 2003, o dólar jogou a favor das empresas com dívida em moeda estrangeira, mas Steinbruch não quer mais dar chance para o azar: ?Estamos preparados até para terremotos?. Outra preocupação é reduzir ainda mais o endividamento do grupo, reflexo das dificuldades que enfrentou no ano passado quando os bancos internacionais cortaram crédito para as empresas do Brasil. ?Prometi a mim mesmo: nunca mais vou dever um real além do que já devia?, afirma. Nada na vida vale tanto quanto a independência.? Foi por isso que alongou o prazo médio das dívidas do grupo, de 1 para 4 anos, e forrou o caixa com US$ 1 bilhão.

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Produção: mais 2,2 milhões de toneladas de aço até 2007

Esse dinheiro é o ponto de partida para um novo ciclo de investimentos. A CSN vai se expandir no Brasil e no exterior. Do total de recursos, US$ 500 milhões vão para a Casa de Pedra, mina que abastece os fornos da companhia. A Casa de Pedra se tornou um grande negócio não apenas como fornecedora da CSN, mas como exportadora de minério de ferro. Ela pode multiplicar por quatro sua produção, hoje de dez milhões de toneladas, e se tornar uma nova competidora internacional. Atualmente, o mercado mundial é dominado por três companhias, entre elas duas australianas e a Vale do Rio Doce. ?O melhor uso da mina vai levar a CSN a novos recordes de lucro no ano que vem?, diz o analista de siderurgia da corretora Itaú, Paolo Di Sora. Outra parte do investimento será destinada à construção de um novo alto forno na Usina de Volta Redonda, que deverá aumentar a produção atual da empresa de 5,8 milhões de toneladas de aço para 8 milhões. Além disso, a prioridade é se expandir para o exterior. ?O que nos falta é ganhar escala internacional?, afirma Marcelo Araújo, diretor executivo da CSN.

Os primeiros passos já foram dados. Recentemente, a empresa pagou US$ 175 milhões pela americana Heartland Steel e criou a CSN LLC em Indiana. Em agosto, comprou a portuguesa Lusosider, dona de reservas de 350 mil toneladas de aço e receita de 350 milhões de euros. Também está na disputa pela húngara Dunafer, que produz 1,5 milhão de toneladas. ?O dólar está favorável para aquisições. Quero fechar um novo negócio até o final do ano?, promete Steinbruch. ?Esse é o caminho mais curto para aumentar suas vendas no exterior?, avalia Leonardo Messer, analista da Investidor Profissional. ?A internacionalização agrega valor à produção brasileira?, diz Maria Sílvia. E também ajuda a valorizar ainda mais as ações. Desde 2000, a cotação da companhia foi multiplicada por cinco (em dólares). A CSN é uma das três empresas que mais distribuem dividendos no País.

A atual situação da CSN está inaugurando uma nova fase na vida de Steinbruch. No início da década de 90, sua família era dona do grupo têxtil Vicunha e decidiu participar do processo de privatização da CSN mesmo sem ter recursos em caixa. ?Meu pai dizia que privatização era uma grande oportunidade para os grupos nacionais darem um salto?, lembra Steinbruch. A família pegou dinheiro emprestado com o governo e entrou na siderurgia. Gostou do jogo e anos depois comprou a Vale do Rio Doce também com dinheiro dos outros, desta vez do Nations Bank. Por conta da ousadia nessas operações, o empresário foi classificado de aventureiro e atacado pelos concorrentes. A engenharia financeira que montou para comprar as empresas inquietou o governo, que o obrigou a escolher entre a Vale e a CSN. Ficou com o aço. ?Recebi ofertas pela CSN, mas não considero a palavra vender?, conta o industrial.

Steinbruch chega aos 50 anos nitidamente aliviado, embora garanta que nunca teve dúvidas quanto ao sucesso de seus lances. ?É muito bom olhar para trás e perceber que aproveitei minha juventude e fiz alguma coisa?, comenta. ?Quem passa a vida sem fazer nada não viveu.? Para quem o classifica como atrevido, agressivo, Steinbruch tem uma resposta: ?O que move o mundo é ousadia?. Rancor? ?Não. Cada vez que me criticavam eu saía mais forte.? Sua maior preocupação é com a família. A ponto de levar os filhos pequenos a reuniões de negócios, inclusive com ministros ? um hábito que herdou do pai, Mendel. A intenção é ficar mais tempo com eles e prepará-los para a vida. ?Ele sempre foi workaholic. Um dia vai se livrar dessa doença, como eu me livrei?, afirma o sócio Jacques Rabinovitch. Para agradar as crianças, Steinbruch, grande criador de cavalos, decidiu comprar animais da raça Hafling, menores e mais dóceis. Foi a uma fazenda em Minas Gerais disposto a levar quatro cavalos. Voltou com o Haras completo. No melhor estilo Steinbruch de fazer negócio.

 

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Sala de controle: Tela de plasma para comandar produção de 5,8 milhões de ton

 

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Custos baixos: Apesar do crescimento, quadro de funcionários ficou estável