13/11/2002 - 8:00
O Itaú agiu quando menos se esperava. Com o mercado financeiro retraído, em plena ressaca eleitoral, o banco assinou um cheque de R$ 3,3 bilhões e levou o controle do BBA, instituição especializada em negócios com empresas e operações internacionais. Ao anunciar a compra, na semana passada, o presidente do Itaú estava eufórico. ?Vamos somar um mais um e chegar a três?, brincou Roberto Setubal. Ele apresentou números superlativos. Com a aquisição, o Itaú se aproximou do rival Bradesco na disputa pelo primeiro lugar do ranking do sistema financeiro nacional. E, ao unir suas operações dedicadas a empresas com o BBA, criou o maior banco de atacado do País. O terceiro trunfo é mais difícil de calcular. Ficou acertado que os atuais sócios do BBA permanecem na instituição. Com isso, o Itaú trouxe para os seus quadros banqueiros experientes como Fernão Bracher, ex-presidente do Banco Central, e Antônio Beltran Martinez. Ambos foram vice-presidentes do Bradesco.
Esse foi um ponto chave da negociação. Há mais de dois anos, os diretores do BBA planejavam uma mudança societária. Seu plano era vender ações no mercado nacional ou no exterior e obter dinheiro para financiar o crescimento mais agressivo do banco. Ao mesmo tempo, ocorreram trocas de comando entre os sócios estrangeiros do BBA. Cerca de metade do capital do banco pertencia aos austríacos do Creditanstalt, que foi incorporado pelo alemão HVB. Ao visitar o Brasil, os dirigentes do HVB deram a entender que gostariam de acabar com a parceria. ?Eles disseram que estavam satisfeitos com os resultados do BBA, mas o foco deles sempre foi a Alemanha e regiões da Europa?, conta Bracher.
Como as bolsas de valores caíram muito nos últimos tempos, os sócios brasileiros perderam a chance de vender as ações no mercado. Segundo fontes ligadas aos bancos, a alternativa foi negociar diretamente com outras instituições financeiras e a primeira conversa foi com o Bradesco. Mas as negociações teriam fracassado porque o Bradesco não teria aceitado deixar os atuais sócios no comando do BBA. Bracher nega a negociação. ?A única conversa que tive com o Bradesco foi na época da privatização do Banespa, quando pensamos em comprar o banco juntos?, afirma. Já a conversa com o Itaú demorou um ano e meio, entre idas e vindas, até acertar os termos finais do contrato. Toda a costura foi feita pelo economista Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central. Arida é consultor e membro do conselho de administração do banco da família Setubal. Além disso, Arida é amigo íntimo de Bracher e foi um dos fundadores e sócio do BBA.
Ao bater o martelo, o Itaú e BBA fizeram um bom negócio, segundo analistas financeiros. O Itaú soma agora R$ 119,8 bilhões em ativos, com R$ 21 bilhões a menos do que o Bradesco. Se confirmar a compra do Sudameris, marcada para o final do ano, o Itaú poderá passar o rival. Segundo os analistas, o novo banco de atacado, Itaú-BBA, nasce com força dobrada. ?O BBA tem expertise no negócio e o Itaú tem muitos recursos?, diz Cristiana Casaes, da consultoria RiskBank. O Itaú-BBA também impõe respeito entre os concorrentes. ?O BBA é bom na concessão de crédito e o Itaú na distribuição para o atacado?, diz Alfredo Moraes, vice-presidente do ABC Brasil. Para Moraes, a jogada do Itaú não deixa margem à dúvida sobre o futuro do mercado. ?Certamente a competição ficará mais difícil daqui para a frente.? ![]()
Colaborou Leonardo Attuch