16/12/2009 - 8:00

O cenário não poderia ser melhor. Pequena para uma capital, Copenhague tem pouco mais de um milhão de habitantes e foi escolhida por turistas a cidade mais limpa da Europa. Também foi considerada a melhor cidade para se viver. Na semana passada, a agradável capital da Dinamarca foi tomada por uma multidão preocupada com o futuro do planeta. Milhares de representantes de governos, cientistas, lobistas e homens de negócios de 192 países discutem como salvar o mundo do aquecimento global. Se até pouco tempo atrás parecia que a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a Cop15, estava fadada ao fracasso, agora essa possibilidade já não é mais aceitável.
Embora os negociadores estejam longe de um consenso sobre como chegar lá, pelo menos já concordam que é preciso evitar que a ação do homem piore as condições de vida no planeta. É uma meta grandiosa, que não vai custar pouco. Cálculos do Project Catalyst, financiado por uma entidade europeia e uma americana, apontam que seriam necessários US$ 100 bilhões até 2020 para financiar programas ligados ao clima nos países em desenvolvimento.
Mas a Agência Internacional de Energia (AIE) alerta que o custo de ficar parado pode ser bem maior: se nada for feito imediatamente, será preciso investir US$ 500 bilhões ao ano para recuperar o tempo perdido. O Brasil foi a Copenhague com uma proposta de redução voluntária na bagagem – de até 38,9% sobre o volume estimado para 2020 – e a intenção de desviar a atenção do desmatamento na Amazônia para o efeito positivo dos biocombustíveis no meio ambiente.
Um evento paralelo na terça-feira, 8, organizado em conjunto pelo Itamaraty e pela Unica, a associação dos usineiros, despertou o interesse dos participantes da reunião e mostrou o potencial das parcerias entre empresas e governo. O Brasil também quer o dinheiro dos países desenvolvidos. “Vamos manter a nossa meta, que depende de recursos públicos, privados e externos. Vamos brigar por esses recursos”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva só chega para os dois últimos dias, 17 e 18, quinta-feira e sexta-feira desta semana. O presidente Obama desembarca na sexta-feira.
Enquanto as estrelas da conferência não chegam, as discussões estão concentradas nas empresas. “Cuidar do meio ambiente se tornou um fator de competitividade. E isso vale tanto para produtos de consumo como para as commodities”, afirma Antonio Carlos Porto Araujo, especialista em energia renovável e sustentabilidade da Trevisan Consultoria. Se os presidentes vão assinar os tratados, que darão origem a leis nacionais para definir as novas regras de emissões de gases que causam o efeito estufa, são as empresas que vão colocar esses novos parâmetros em prática.
No castelo de Kronborg, em Helsinque, perto de Copenhague, representantes do mundo corporativo se reúnem desde sábado para discutir a sua participação na nova economia. O presidente da Coca-Cola, Muhtar Kent, que no mês passado inaugurou uma fábrica “verde” no Brasil é um dos palestrantes do encontro, que reúne dirigentes de empresas como Duke Energy, Lockheed, Microsoft e Accenture. No Brasil, o governo e o setor produtivo estão empenhados em trabalhar juntos.
O diretor de infraestrutura da Fiesp, Carlos Cavalcanti, diz que as medidas propostas pelo governo brasileiro são factíveis e não afetarão a competitividade das empresas. “A entidade apoia de forma irrestrita essa proposta”, afirma. Assim como os produtores de etanol, os fabricantes de papel e celulose também querem ser incluídos no lado sustentável da economia. Em Copenhague, eles vão lutar para incluir as florestas plantadas no MDL (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo), que serve de base para a venda de créditos de carbono. Hoje, apenas projetos de substituição de tecnologia, como a mudança da matriz energética, são beneficiados. Desde sua criação, em 1998, o MDL já rendeu cerca de R$ 1,3 bilhão para as empresas brasileiras.
O consultor Ernesto Moeri, presidente do Grupo Ecogeo, acredita que este volume pode crescer de forma exponencial, mesmo se não houver mudanças nas regras do MDL. “Trata-se de um setor que poderá arrecadar cerca de R$ 160 milhões por ano, levando-se em conta a cotação atual do crédito de carbono”, aposta. Com ou sem acordo em Copenhague, fica cada vez mais claro que está diminuindo o espaço no mercado para empresas e produtos sem compromissos ambientais. Um estudo recémdivulgado pelo banco alemão Deutsche Bank, mostra o Brasil ao lado de Alemanha, China, França, Austrália e Japão como o local de menor risco para se investir em negócios verdes. A seguir, alguns casos selecionados por DINHEIRO sobre experiências de sustentabilidade no meio corporativo.