O estrago político está feito. A crise, que já dura dez meses, derrubou três pilares do governo Lula ? José Dirceu, Luiz Gushiken e Antônio Palocci ? e manchou de vez a imagem do PT. Na quarta-feira 29, depois de 159 reuniões, 233 depoimentos, 1,6 mil requerimentos e R$ 5 milhões em gastos, um dos capítulos finais dessa história começou a ser escrito. Por oito horas, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPMI dos Correios, leu as conclusões grafadas em 1.828 páginas. ?O mensalão existiu?, enfatizou, para dali a poucas horas propor o indiciamento de 118 pessoas. Além de inúmeros burocratas nomeados pelo PT, também constam da lista empresários de peso, como os banqueiros Ricardo Guimarães, do BMG, e Kátia Rabelo, do Rural, citados por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Além disso, foram mencionados diversos dirigentes de fundos de pensão estatais, que teriam sido responsáveis pelo desvio de milhões dos aposentados. Em seu relatório, Serraglio expôs ainda a ineficiência do Banco Central, que não fiscalizou adequadamente os bancos usados pelo publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza em seu esquema de financiamento político. Por fim, Serraglio citou até um episódio sobre a empresa do filho do presidente Lula, a Gamecorp, que teria sido ajudada pela Telemar, uma concessionária de telefonia. ?Eu não podia lavar as mãos nem silenciar sobre tantos ilícitos?, disse o relator à DINHEIRO. ?Espero que o relatório nos ajude a virar essa página triste da história?.

Apesar do bom trabalho do deputado Serraglio, que expôs as vísceras do financiamento de campanhas no País, nada garante que a história não vá se repetir nas próximas eleições. O ?mensalão? pode ter acabado. Mas e o caixa dois? A reforma política que reduziria os custos de campanha e criaria duras punições contra doadores de recursos não contabilizados atolou na Câmara dos Deputados. Enquanto isso, doze fundos de pensão de empresas estatais ? acionistas de grandes financiadores de campanha ? estão sob suspeita. Nove donos de corretoras, que operavam com esses fundos, também foram indiciados. ?A CPI deu só o primeiro passo e também criou propostas?, defende o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), subrelator de fundos de pensão. ?Mas o segundo passo é com o Congresso, que tem poder para alterar a legislação?. Bem, com a campanha eleitoral a pleno vapor, não há mais tempo para mudar.