Jeffrey Sachs é uma estrela do capitalismo global. No início dos anos 90, com pouco mais de 30 anos, ele concebeu os planos de estabilização que ajudaram a eliminar a inflação em países tão distintos quanto a Bolívia e a Polônia. Em seguida, assessorou governos como da Argentina, da Eslovênia e da Mongólia. Associado ao Fórum Econômico Mundial, elaborou um ranking global de competitividade. Mas depois de rodar o mundo como um globe-trotter da ortodoxia econômica, Sachs decidiu abraçar causas sociais. À frente do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia, o economista se dedica a temas como pobreza, fome, educação e desigualdade social. Embora sua agenda de prioridades tenha mudado, ele continua com o pé na estrada. Acaba de voltar de um tour pelo Sul da Ásia, Índia, Bangladesh e Sri Lanka. ?A situação é dramática?, diz Sachs. ?Milhões de pessoas estão morrendo desnecessariamente porque não recebem ajuda humanitária e isso, para mim, é a maior vergonha do planeta?, diz o economista e ex-professor de Harvard, que nos próximos meses deve seguir para a África.

Muitos dos dados e impressões que Sachs recolhe ao redor do mundo são repassados ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, de quem é conselheiro. Na ONU, o economista também participa do projeto Millenium, que pretende reduzir a pobreza mundial pela metade até 2015. Envolvido em tantos projetos sociais, é natural que Sachs volte suas críticas aos países mais desenvolvidos. ?É inacreditável o quão pouco os países ricos estão fazendo para ajudar os mais pobres.? De acordo com dados levantados pela equipe de Sachs, se o grupo de nações mais prósperas reservasse dez centavos de cada US$ 100,00 que produzem, seria possível destinar US$ 25 bilhões aos países pobres. Isso salvaria a vida 8 milhões de pessoas por ano.

Atento observador da economia brasileira, Sachs não poupa elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ?Ele está no  caminho certo?, diz. ?Acho que Lula será capaz de implementar uma agenda inovadora tanto econômica quanto social.? Para ele, é emblemático o fato de Lula ter escolhido o combate à fome como prioridade de seu primeiro ano de governo ? já que ?é um presidente que conheceu a fome pessoalmente?. Mas nem por isso, o programa Fome Zero fica livre de algumas críticas. ?Programas muito direcionados, como distribuição de alimentos e cestas básicas, ajudam a combater apenas a fome crônica. Parte da solução definitiva passa por melhorias na agricultura, na educação e no aumento das oportunidades de trabalho em áreas pobres?, diz. Palavras do novo guru do social, que, no dia em que retornou ao seu escritório em Nova York, falou à DINHEIRO.

?LULA É A GRANDE ESTRELA
DO FÓRUM DE DAVOS”

DINHEIRO ? O que significa a presença de Lula em Davos?
JEFFREY SACHS ? É muito bom que ele esteja lá. Lula mostrou ao mercado financeiro e à comunidade internacional que o Brasil é uma economia sólida. Estou convencido de que a mensagem dele em Davos será muito importante.

Foi Lula quem mudou ou foi o Fórum?
É claro que Davos está tentando mudar porque eles reconheceram que as questões relativas à pobreza e ao desenvolvimento são cruciais para o sucesso dos negócios internacionais. E por muitos anos, não houve espaço para uma agenda social. Lula é o porta-voz dessa nova agenda. Ele é o grande acontecimento do Fórum de Davos.

O que a platéia de Davos espera ouvir de Lula?
O que eles querem ouvir são boas notícias, que as políticas econômicas vão continuar a ser moderadas e que o Brasil continuará a pagar o serviço de sua dívida. Mas nós não devemos olhar para o mercado financeiro para achar as soluções de um país. O presidente Lula precisa falar para eles que há uma visão responsável do Brasil. E eu tenho certeza que ele vai fazer isso.

Durante a campanha, os mercados estavam pessimistas. Hoje estão em lua-de-mel. Por quê?
Eu acho que o presidente vem dizendo uma série de coisas corretas. Além disso, ele nomeou uma forte equipe econômica. Lula também tem demonstrado interesse em negociar a Alca e já falou em ser responsável na administração da dívida externa. Não me surpreende que haja uma mudança no humor do mercado. Em geral, ondas pessimistas não duram.

O programa Fome Zero é a prioridade de Lula.
É um bom começo?
É um ponto de partida impressionante. Esse é um presidente que conheceu a fome pessoalmente. Ele sabe que crianças mal alimentadas não conseguem estudar e não vão se tornar adultos produtivos. Então, focar na luta contra a fome é um bom começo. É claro que a agenda social do Brasil vai além da fome. É preciso dar educação adequada e um sistema de saúde melhor para os pobres no Brasil.

Qual é a melhor maneira de erradicar a fome?
Não há uma solução única. É preciso programas de nutrição
para crianças, mães e comunidades pobres. O Brasil também
tem o problema da seca nas regiões pobres do Nordeste.
Isso exige estratégias científicas. Além disso, as crianças
que receberam boa educação crescem com perspectivas
melhores de ganhar mais dinheiro e sustentar suas famílias.
Por isso, programas muito direcionados, como distribuição de alimentos, ajudam a combater apenas a fome crônica. Parte da solução definitiva passa por melhorias na agricultura, na educação,
e nas oportunidades de trabalho.

Como o sr. compara o Brasil com a África?
A diferença é que o Brasil é uma potência industrial. Há uma economia vibrante. A proporção de pessoas passando fome é muito, muito menor do que na África. Então, é mais fácil resolver.

O tema de Davos este ano é ?restaurar a confiança?. É possível?
Hoje, o risco de guerra é a maior fonte de desconfiança. E infelizmente, eu não vejo o governo americano fazendo muita
coisa para reconstruir esse tipo de confiança. Acho que
o anseio de guerra vindo de Washington é o principal adversário
para a economia global.

Aparentemente, questões sociais estão ganhando espaço na agenda do Fórum…
Eu vou a Davos há quase 20 anos e muita coisa mudou. No começo, os países pobres estavam fora da discussão. Era uma reunião sobre negócios dos mercados mais ricos. E lentamente foi se percebendo que a maior parte do mundo é pobre. A maioria das pessoas no mundo não vive em países ricos. E os países ricos não podem olhar para o seu próprio umbigo. O ponto positivo é que essa mudança é maior a cada ano.