Quando foi eleita para gerir a maior cidade do País, com um orçamento anual de R$ 8 bilhões e uma dívida duas vezes maior, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, parecia ser a maior promessa de renovação da administração pública brasileira. Sua chegada ao Palácio das Indústrias simbolizava a ascensão da mulher, a repulsa à corrupção e a perspectiva de mais criatividade e imaginação no poder. Hoje, passados quase cinco meses de governo, os métodos de administração de Marta Suplicy, pelo menos na área tributária, não parecem muito diferentes daqueles que sempre foram atacados pelo PT. Na gestão financeira, a prefeita tem mostrado a sua obsessão fiscal e já anunciou medidas para ampliar a arrecadação municipal em R$ 1 bilhão. Pensou em Pedro Malan? O fato é que a realidade econômica de São Paulo levou a prefeita a seguir uma lógica semelhante à dos ajustes do governo federal: aumentos de impostos, de contribuições e pouco ou quase nada em corte de despesas. Tudo para salvar um cofre vazio. Há críticos e simpatizantes desse estilo, mas a gestão de caixa vem dando resultados.

No campo do marketing, Marta Suplicy também tem apelado a toda sorte de factóides para ocupar espaços na mídia. A prefeita de São Paulo é do tipo que põe o pé na lama, recolhe o lixo em mutirões de limpeza e corre com crianças em bairros da periferia. Nada muito diferente do que já fizeram outros administradores no passado. Além da pirotecnia, a prefeita também tem dedicado grande parte de seu tempo a viagens internacionais, em busca de uma imagem positiva com líderes globais, já de olho em um salto político maior.

Até agora, essa estratégia funcionou. Entre os últimos prefeitos de São Paulo, Marta Suplicy foi quem obteve o melhor índice de aprovação depois de 100 dias de governo, com 34% de avaliações ótimas ou boas. A busca de um ajuste fiscal também tem rendido alguns elogios, que partem de grandes empresários. ?A postura de responsabilidade fiscal é louvável e reduz o medo que alguns empresários teriam de um eventual governo do PT?, diz o banqueiro Fernão Bracher, presidente do BBA. É importante lembrar que, em março deste ano, Marta assinou, juntamente com outros prefeitos de oposição, um manifesto contra pontos da Lei de Responsabilidade Fiscal. Hoje, sempre que tem a oportunidade, o ministro Malan aproveita seus discursos para também destacar a nova postura da prefeita.

Mas essa lógica de tocar a administração de São Paulo na base do arrocho fiscal e do marketing pessoal também envolve alguns riscos. As medidas de ajuste já anunciadas são muito impopulares e podem afastar a prefeita da sua base de sustentação política. Uma delas é o aumento das passagens de ônibus para R$ 1,40, quando estudos da Fipe, a fundação de pesquisas econômicas da Universidade de São Paulo, apontavam que, mesmo sem os subsídios antes dados pela Prefeitura, os preços poderiam variar entre R$ 1,27 e R$ 1,32. O reajuste, de 21,7%, supera em 50% a inflação dos últimos dois anos, período em que as empresas ficaram sem aumento. É também por esse motivo que a medida está sendo contestada na Justiça pelo Sindicato dos Metalúrgicos e pela Força Sindical. Não bastasse isso, a Prefeitura ainda quer avançar no bolso dos contribuintes com outras medidas, como o aumento do IPTU para os imóveis de maior valor, a ampliação das multas de trânsito, uma nova taxa do lixo e a elevação dos preços da Zona Azul, a tarifa para quem estaciona nas vias públicas. A prefeita anunciou também uma taxa adicional de R$ 37,00 para os motoristas que quisessem se livrar do rodízio de veículos, mas acabou recuando.

Mesmo que as medidas anunciadas produzam os resultados esperados, todo esse esforço pode ser prejudicado pela perspectiva de queda da arrecadação municipal com a freada esperada para a economia após o racionamento. ?No começo do ano, prevíamos um crescimento de 3% da arrecadação, mas hoje já trabalhamos com um cenário de estabilidade, na melhor das hipóteses?, diz o economista Fernando Haddad, chefe de gabinete da Secretaria das Finanças.

Em grande parte, o crédito que ainda vem sendo dado à prefeita de São Paulo é fruto do reconhecimento de uma herança muito pesada. Marta recebeu uma cidade arrasada por administrações desastrosas, marcadas pela incompetência administrativa e por escândalos de corrupção. Mas as críticas à gestão municipal são cada vez mais comuns. ?Esses aumentos de impostos não eram exatamente o que o eleitor esperava da prefeita?, diz o economista e deputado federal Marcos Cintra (PFL-SP), que no fim de junho lança o governo paralelo em São Paulo. Cintra avalia que tem faltado criatividade na Prefeitura e condena ainda o aumento de 40% dado aos secretários municipais. ?É um programa de renda mínima às avessas?, afirma. Uma das propostas do governo paralelo será a criação de um novo mecanismo de financiamento dos investimentos públicos, por meio de títulos que garantiriam o direito de construção em áreas com grande potencial de valorização imobiliária. Mesmo dentro do governo petista surgem vozes de insatisfação. O administrador responsável por uma das principais regiões de São Paulo diz que falta um plano claro de governo à prefeita. Pelo jeito, a lua-de-mel com Marta está chegando ao fim e o eleitor começará em breve a cobrar resultados.