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DESDE DEZEMBRO, UM FENÔMENO RAro tem ocorrido com frequência na economia brasileira: a queda de preços. Nos últimos cinco meses, foram quatro deflações do IGP-M, índice medido pela Fundação Getulio Vargas e composto por uma cesta de outros índices, como o IPA (preços no atacado), INCC (custos da construção civil) e IPCA (a inflação oficial, que mede custos no varejo). Neste ano, ele está negativo em 1,58% e, ao que tudo indica, continuará no vermelho. Parece pouco, mas não é. No ano passado, esse mesmo indicador – utilizado para calcular o reajuste de contratos como o de aluguel e de tarifas públicas – fechou em 9,81%, a maior alta em quatro anos, e comprimiu o poder de compra do assalariado. Em outras palavras, a atual marcha à ré dos preços, não vista há mais de dez anos, tornou-se um atrativo ao consumo e criou um horizonte positivo para a economia.

 

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A tese de que a deflação pode ser uma bênção para a economia brasileira recebeu recentemente o endosso do Banco Central. Em ata assinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), o BC afirmou que o cenário de preços estáveis ou em queda abre caminho para a redução dos juros. “Nesse ambiente, a política monetária pode ser flexibilizada sem colocar em risco a convergência da inflação para a trajetória de metas”, disse o BC na ata. O economista Alcides Leite compartilha dessa opinião. “A inflação deixou de ser uma preocupação do governo. Há espaço para uma queda mais agressiva dos juros. Assim fica mais fácil administrar a economia”, afirmou.

Não só fica mais fácil como cria oportunidades. “Ao contrário de outras deflações, que no passado eram sintoma de economias doentes e sinônimo de recessão, essa é até boa. Afinal, os preços estão menores ao consumidor porque os custos produtivos também baixaram”, disse o economista da FGV Salomão Quadros. A explicação para essa descida sincronizada dos custos está em uma combinação de fatores. Entre eles se destacam as quedas nas cotações internacionais das matérias-primas – principalmente petróleo, alimentos e minérios -, as desonerações fiscais, a trajetória de corte dos juros e a revalorização do real. Durante toda a semana, negociada próximo de R$ 2, a moeda brasileira estava na menor cotação desde setembro. Neste ano, a desvalorização supera 15%. Tudo isso abriu caminho para o achatamento generalizado dos preços, desde as gôndolas dos supermercados até os shoppings ou nos custos de produção da indústria.

Mas a festa da deflação tem prazo de validade. Se o esperado reaquecimento da economia brasileira se concretizar no segundo semestre, inevitavelmente os preços voltarão a subir. “A deflação só é saudável se for curta. Caso contrário, causa efeitos colaterais como o desemprego e a queda na renda”, explicou Leite. O último Boletim Focus, relatório de inflação do Banco Central, projeta que o IGP-M ficará neste ano próximo a uma alta de 2%, bem longe dos 10% de 2008. A inflação oficial, o IPCA, deve encerrar o ano entre 4% e 4,2%, abaixo do centro da meta, de 4,5%.

Como um autêntico fenômeno raro, essa deflação benigna tem sido bem recebida. Nos supermercados, as vendas de janeiro a abril subiram mais de 6%, em comparação com a mesma época de 2008, impulsionadas por uma queda de até 18% nos preços dos alimentos. Não foi uma exceção. As vendas de veículos – que ficaram mais baratos após o corte do IPI – subiram 0,13% no ano, segundo a Fenabrave, e estão no mesmo patamar elevado do período anterior à crise. “O susto passou e o mercado reagiu bem”, disse seu presidente, Sérgio Reze. Enquanto os brasileiros, que preservam uma boa memória inflacionária, experimentam os benefícios da deflação, a economia vai reagindo. Afinal, a queda de preços tem soado como um convite às compras.

 

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