27/12/2006 - 8:00
Se fosse olhado com uma grande angular, em
vez de uma lupa, o mercado de trabalho brasileiro mostraria um ambiente um pouco esquizofrênico. De um lado, mais de dois milhões de brasileiros buscam por trabalho nas regiões metropolitanas do País, segundo o IBGE. De outro, empresas das mais variadas áreas investem quantias consideráveis em busca e qualificação de mão-de-obra para preencher suas vagas. ?O problema não diz respeito à quantidade de trabalhadores educados, já que nunca se teve no País tanta mão-de-obra formada?, afirma o professor e pesquisador da Unicamp Marcio Pochmann. ?A dificuldade diz respeito à qualidade da educação desses trabalhadores.?
Na verdade, mais do que criar os tão falados dez milhões de vagas, prometidas pelo presidente Lula no início de sua primeira gestão, o principal desafio nesse segundo mandato será formar trabalhadores qualificados, que atendam às novas demandas do mercado. ?Falta no Brasil uma integração entre a demanda do setor produtivo com os trabalhadores entregues pelas universidades?, afirma Patrick Hollard, presidente da Michael Page no Brasil, a maior empresa de recrutamento e seleção do País. ?Em muitos países, o lado acadêmico é mais fraco do que no Brasil, mas, como há essa integração, os profissionais já entram no mercado empregados.?
A Michael Page, por exemplo, tem encontrado dificuldade em preencher vagas em diversas áreas, como nas de energia, tecnologia e algumas posições em indústrias. Não faltam casos nessa linha. A empresa de serviços de tecnologia da informação BRQ emprega hoje 1,6 mil pessoas e tem a expectativa de oferecer nove mil vagas até 2010. Serão vagas para técnicos, em sua maioria formados no ensino médio. Para driblar a falta de mão-de-obra, a empresa está abrindo quatro centros de desenvolvimento, em que pretende formar e contratar 200 pessoas por semestre. ?Temos constantemente 300 vagas em aberto e levamos de dois a três meses para preenchê-las?, diz Benjamin Quadros, presidente da BRQ. ?Não podemos comprometer nosso crescimento nem a rentabilidade por escassez de mão-de-obra.?
Ao mesmo tempo em que trabalhadores e vagas se desencontram, os ministérios do Trabalho, da Educação e da Ciência e Tecnologia desenvolvem planos extensos de qualificação de trabalhadores. O problema é que cada um deles segue sua própria linha, praticamente sem interlocução entre si. ?Há escassez de inteligência na montagem de um sistema público de educação profissionalizante?, diz Pochmann. ?Cada um dos programas de governo tem seus clientes, um tenta roubar o público do outro, mas não há uma política pública, integrada e matricial de formação de mão-de-obra.? Pochmann cita como exemplo a ser seguido o governo japonês que, periodicamente, realiza uma grande pesquisa com empresas, tentando descobrir a demanda do mercado de trabalho no médio prazo. A partir daí, as políticas educacionais são orientadas. Poderia se tornar uma bússola para o Brasil, na difícil travessia pelo emprego. ![]()