14/12/2005 - 8:00
Até o fim de 2004, o BNDES, maior banco de fomento da América Latina, vinha sendo um foco de permanente tensão para o governo Lula. De um lado, os empresários criticavam a demora na aprovação dos financiamentos. De outro, a instituição era palco da guerra particular entre seu então presidente, Carlos Lessa, e o superior imediato, o ministro Luiz Fernando Furlan. Para piorar, Lessa ainda dava freqüentes caneladas na política econômica do ministro Antônio Palocci. Foi por isso que, em novembro daquele ano, o presidente Lula convocou Guido Mantega, um tímido economista que ajudou a elaborar seu programa de governo, para arrumar a casa. Mantega chegou discretamente, evitou polemizar com os outros ministros e foi visto até com certa desconfiança pelo empresariado ? muitos temiam que ele se tornasse uma figura apagada diante do poder quase hegemônico de Palocci na área econômica. Pois bem: um ano depois, o BNDES é um raro caso de sucesso no governo Lula. Neste ano, Mantega fechará o balanço do banco com empréstimos da ordem de R$ 46 bilhões, um volume 20% acima do realizado no ano passado, e com um lucro superior a R$ 3 bilhões, o maior da história da instituição. ?Reduzimos o prazo para liberação dos empréstimos em 40%?, disse Mantega, o Empreendedor do Ano no Desenvolvimento, à DINHEIRO. ?E a inadimplência do BNDES hoje é de 0,6%, muito inferior à média dos bancos privados?.
O bom desempenho de 2005 teria sido ainda melhor, não fosse a crise que se abateu sobre o agronegócio, um setor cujas empresas reduziram em 43% seus pedidos no BNDES. ?Foi um ano em que os preços internacionais das commodities caíram, a seca devastou boa parte do Brasil e o câmbio reduziu a renda do produtor?, lamenta Mantega. ?Sem esses acidentes de percurso no campo, teríamos fechado o ano com um volume de empréstimos da ordem de R$ 50 bilhões?, diz o presidente do BNDES. Outros setores, porém, comprovam o dinamismo do BNDES. Na indústria, por exemplo, os financiamentos cresceram 41% entre janeiro e outubro e houve segmentos com resultados bem mais expressivos, como o mecânico, com alta de 246%, e o químico e petroquímico, com expansão de 113%. Um exemplo notável da agilidade do BNDES foi a linha criada no fim deste ano para financiar a exportação de veículos. ?Já conseguimos aprovar quase R$ 1 bilhão?, diz Mantega. No setor de comércio e serviços, a expansão foi de mais 21%. ?O BNDES atendeu toda a demanda existente?, diz Mantega. Logo que assumiu o comando do banco, Mantega fixou a meta de emprestar R$ 60 bilhões. Isso poderia ter ocorrido, desde que o crescimento da economia tivesse sido mantido na casa de 4%. No entanto, a política de juros do Banco Central reduziu a expansão do PIB para algo em torno de 2,5%. ?O excesso de conservadorismo na área monetária tem sido o ponto fora da curva da política econômica?, diz Mantega, no seu discreto modo de criticar outras áreas do governo Lula.
De qualquer forma, Mantega também conseguiu livrar o BNDES de alguns abacaxis. Na sua gestão, o principal problema que se colocava era o da Brasil Ferrovias. O BNDES tinha um crédito de R$ 1,5 bilhão, decorrente de empréstimos feitos no passado ao empreiteiro Olacyr de Moraes, que dificilmente seria recuperado. Mantega conseguiu articular um programa de capitalização, com a participação dos principais fundos de pensão nacionais, e o impasse foi resolvido. Agora, a Brasil Ferrovias será colocada à venda e vários grupos privados, como Vale do Rio Doce, ALL e Mitsui, estão interessados no negócio. ?O que parecia um problema insolúvel virou uma empresa cobiçada?, diz Mantega. Outro caso semelhante é o da Light, que é controlada pela francesa EDF e, apesar do endividamento junto ao BNDES, também está sendo vendida. ?Não há mais grandes pepinos aqui dentro?, garante Mantega.
Além de arrumar a casa, Mantega também conseguiu dinamizar uma área estratégica para o BNDES: a de mercado de capitais. No fim deste ano, o banco vendeu uma carteira de ações de R$ 1 bilhão, através do fundo PIBB (Papéis Índice Brasil Bovespa). A idéia de Mantega é disseminar a cultura de investimentos em empresas abertas e também estimular as principais companhias a migrar para o Novo Mercado da Bolsa de Valores, onde as regras que protegem os acionistas minoritários são mais sólidas. ?Nós fizemos uma operação com a Light, em que uma das exigências era que a empresa fosse para o Nível 2 de governança corporativa da Bovespa?, diz Mantega. O banco também criou alguns fundos de investimento, que capitalizam empresas emergentes até que elas estejam prontas para vender ações no mercado de capitais. E é na Bovespa que o BNDES pretende recuperar o capital investido. Hoje, a questão que mais fascina o presidente do BNDES diz respeito à produtividade. Mantega tem um quadro que revela que, nos últimos dez anos, a relação entre produção industrial e emprego no Brasil cresceu 94% ? nos países ricos, a expansão foi de 49%, enquanto nos tigres asiáticos chegou a 86%. ?É isso que prova que estamos prontos para dar um salto de crescimento?, diz Mantega. Os dados mais recentes mostram que, em 2003 e 2004, a produtividade avançou outros 20% no Brasil. ?A diferença é que, agora, ela está crescendo junto com o emprego formal na indústria?.