Há 40 anos, o agricultor Manuel Pereira Filho segue a mesma rotina. Todo dia 5, ele veste sua melhor roupa ? ?a de ir para a cidade? ?, tira o Passat ano 80 da garagem e põe o pé na estrada. Seu Manuel, de 72 anos, vive em Zacarias, a 630 km de São Paulo, e precisa ir até a cidade vizinha, Planalto, para receber a aposentadoria num banco. A viagem, de 20 quilômetros, vai ficar mais curta. Acaba de ser inaugurada uma agência do Bradesco a 20 metros de sua casa. ?Vou dar paz para o meu Passat, ele está precisando?, diz o agricultor.

Com uma pensão de R$ 180 por mês, seu Manuel é um personagem cada vez mais importante para os bancos. As instituições estão apertando o passo na disputa pelos 40 milhões de brasileiros sem-banco. Para chegar a essa clientela, o Bradesco pagou R$ 200 milhões aos Correios. Em troca, poderá usar os 5.320 postos dos Correios como agências bancárias. O Bradesco já abriu 100 agências como essa. ?O potencial é enorme?, diz Arnaldo Vieira, vice-presidente do Bradesco.

Concorrentes de peso, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, estão correndo para serem os pioneiros em 1,6 mil municípios que não são atendidos pelos bancos. Eles estão treinando até caixas de supermercado para executar serviços bancários em lugarejos no interior. Mas a disputa inclui também os grandes centros, onde os bancos estão lançando novos produtos e serviços. ?Os bancos descobriram que dá para ganhar dinheiro nas classes C, D e E?, diz Fernando Coelho, da ABM Consulting.

No Banco Panamericano, do grupo Silvio Santos, a ordem é multiplicar a freguesia. Seu alvo são pessoas de baixa renda, pouco atendidas pela concorrência. Até o ano passado, o Panamericano havia emitido 80 mil cartões de crédito. Hoje, sua carteira de clientes subiu para um milhão e os planos são para chegar a 16 milhões de unidades em 2006. ?Queremos estar entre os três
maiores emissores de cartões em cinco anos?, afirma Miguel Coin, diretor do Panamericano.

O Unibanco, conhecido por atender a classe média e a alta, está em campanha para conquistar os mais pobres. No final de abril, lançou o cartão de crédito Pelé Unibanco MasterCard, para pessoas com renda mínima de R$ 400. O banco desenvolveu uma alternativa até para quem ganha menos do que os R$ 400. São os cartões de crédito pré-pagos, em que o cliente compra o direito a um determinado limite de crédito.

A lógica desse interesse dos bancos pelos mais pobres é a tendência de queda de juros. Quanto mais cair a taxa paga pelo governo, mais crédito os bancos terão que conceder para manter seus lucros. E, para isso, é preciso aumentar a clientela, em massa. ?Cerca de 65% dos brasileiros não têm conta em banco?, diz Vieira, do Bradesco. ?Vamos em busca desse pessoal.?