09/04/2003 - 7:00
Em 1943, Franklin Roosevelt começava seu terceiro mandato presidencial na Casa Branca. Convocou a imprensa para informar que, diante dos combates na Europa, substituíra o ?New Deal pelo Dr. Win the War?. Trocara as bases do novo contrato, o pacote de medidas que tirara os Estados Unidos da depressão, pelo ?ganha guerra?. Na prática, significava destinar mais da metade do orçamento do país para a indústria bélica. A economia cresceria ancorada nas tropas. Pouco antes de morrer, Roosevelt admitiu que a guerra o salvara. O fortalecimento da indústria em tempos de bombas é um componente clássico das relações internacionais ? foi assim com a Inglaterra durante a I Guerra Mundial e com a planta química alemã nos primeiros anos da II Guerra. A estrutura militar muitas vezes reanimou finanças fragilizadas e pôs no mercado produtos que deram oxigênio à economia civil. A Marinha americana utilizou um dos primeiros computadores para calcular a trajetória de mísseis, em 1941. A internet é filha do Arpanet ? a rede de pesquisa construída pelo Pentágono pouco antes da Guerra do Vietnã. Os sistemas de GPS também brotaram nos primeiros anos da loucura asiática. O atual conflito no Iraque traz uma novidade nesse campo: pela primeira vez na história a estrutura militar vem a reboque da civil. As tropas do exército americano usam tecnologias que nasceram nas pequenas empresas do Vale do Silício ? e ajudam a dar oxigênio a um setor ferido com a implosão da bolha criada em 1999. ?É uma revolução?, diz o consultor americano Frank Cevasco. ?Os empresários não estão abandonando seus negócios regulares, e ainda assim começam a lucrar com a guerra.?
O Pentágono, hoje, ocupa o espaço que há cinco anos era dos venture capitalists, investidores que punham seu capital de risco em pequenas empresas de fundo de garagem do Vale do Silício. Com orçamento anual de US$ 2,7 bilhões destinados à Defesa, a Darpa, a principal agência americana de pesquisas militares, tem apostado nas chamadas starts ups companies. Estima-se que, depois da guerra, o investimento em tecnologia de ponta terá crescido 12%, chegando a US$ 59 bilhões. Os gastos exclusivos com sistemas de comunicação devem crescer 19%, atingindo US$ 27,8 bilhões.
Abrem-se as portas para os nanicos, numa espécie de varejão tecnológico que cresce à medida que as forças especiais avançam, guiadas por computador. Nomes como L-3 Communications, Crossbow Technology e Trimble Navigation são os futuros gigantes apoiados numa mudança de postura do Exército. Em meados dos anos 90, o Exército americano decidiu transformar os soldados em guerreiros high-tech, amparados em rifles teleguiados a laser e capacetes acoplados a sistemas de GPS. Os protótipos, desenvolvidos pela Raytheon, custavam mais de US$ 90 mil por unidade e pesavam 400 gramas. Um escritório de consultoria de Menlo Park, na Califórnia, ligado a uma série de diminutos industriais, foi convocado a estudar um modo de tornar o produto mais barato. A solução: a aquisição de processadores de segunda mão, comprados em lojas populares como a Fry?s. Os novos capacetes montados por esse time custam, hoje, US$ 10 mil e pesam apenas 280 gramas. As unidades serão entregues ao Pentágono em 2005. O avanço da guerra tecnológica, o cerne do que se convencionou chamar de ?doutrina Rumsfeld?, numa referência ao secretário de Estado americano, pode não ter evitado a morte de civis, e pouco tem de cirúrgica ? mas ajudou a fazer do Vale do Silício agora também um arsenal bélico.