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Henrique Meirelles, presidente do BC: esforço para conter a euforia em torno da redução de 1,5 ponto da Selic, que pode não vir já na próxima reunião do Copom

 

Primeiro, foi o grau de investimento concedido pelas agências de avaliação de crédito. Logo depois, os US$ 200 bilhões em reservas internacionais. Em breve, o Brasil deve alcançar um novo marco em seus indicadores econômicos: pela primeira vez terá o valor nominal da taxa oficial de juros (Selic) fixada em números de apenas um dígito ? abaixo, portanto, dos 10% ao ano. Nna prática, o feito pode ser alcançado já nesta semana, caso os integrantes do Copom decidam por uma redução de 1,5 ponto percentual na taxa atual (de 11,25% ao ano) na reunião dos dias 27 e 28. Ddado o histórico conservador da diretoria do Banco Central, o mais provável é que anunciem um corte menor, adiando o momento histórico um pouco mais. Ainda assim, nos ambientes econômicos e corporativos já se começa a projetar a vida a um dígito ? e algumas mudanças previstas podem ser significativas.

A torcida pelo rompimento da barreira dos 10% se instalou como nunca nos gabinetes próximos ao do presidente Lula. Talvez por isso mesmo, o sempre contido Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, deixou de lado a habitual discrição que antecede as reuniões do Copom para jogar água fria nas expectativas imediatas do Planalto. Nna semana passada, alertou contra o que chamou de ?otimismo exagerado? e advertiu que é ?prematuro? cogitar juros interbancários de apenas um dígito neste momento. ?não há dúvida de que há sinais importantes de recuperação de alguns setores da economia. mas não se pode confundir sinais de melhora com a superação do problema. Vamos devagar. otimismo exagerado pode levar a novas decepções?, disse. Como meirelles nunca foi de desperdiçar palavras, o mercado entendeu que um corte de 1,5 ponto percentual na Selic é praticamente carta fora do baralho. o presidente Lula também recebeu o mesmo recado. Meirelles lembrou a Lula que é melhor ir com calma agora para que o Copom não seja obrigado a elevar a taxa em 2010, ano de eleição presidencial. E deixou uma mensagem que agradou ao presidente: mesmo uma redução mínima esta semana levará a taxa básica ao menor patamar da história. uma menção ao fato em discurso presidencial está até mesmo programada. a Selic atual, de 11,25%, já foi praticada por cinco meses entre final de 2007 e início de 2008, antes de uma nova escalada dos juros quando os preços internacionais das coModities estavam em alta e ameaçavam a inflação.

O principal efeito será a expansão do consumo

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Expectativa: redução da Selic irrigaria a economia e estimularia as vendas

 

 Na contagem regressiva do mercado, a estimativa é de que os juros de um dígito sejam anunciados no segundo semestre deste ano. a pesquisa focus, do BC, com 100 analistas de instituições financeiras, aponta para uma Selic de 9,25% no final deste ano. Com ela, viria uma cascata de efeitos positivos provenientes da redução do custo dos empréstimos e a liberação de mais recursos para o consumo. a mudança é benéfica para a economia como um todo. mas, num cenário em que empresas e indivíduos se acostumaram a ganhar dinheiro fácil aplicando em títulos do governo, exige um esforço de adaptação. ?Quando o juro cair, outras oportunidades de investimento vão surgir?, analisa o economista da Confederação nacional da indústria (Cni), flávio Castelo Branco. ?a tendência de longo prazo é aumentar os investimentos na produção, mas isso não vai acontecer da noite para o dia?, afirmou à dinheiro. Parte dos recursos aplicados em renda fixa nos bancos deve migrar para ações de empresas e imóveis, à medida que for desaparecendo, nos investidores, os traumas sofridos com as perdas nas bolsas durante a última crise internacional. ainda assim, é possível prever, a médio e longo prazo, um aumento no número de empresas interessadas em abrir o capital, atendendo à maior demanda por investimentos no setor produtivo. ?a redução dos juros libera mais recursos para a economia, nossos clientes vendem mais e compram mais de nós?, diz o vice-presidente e diretor financeiro da Totvs, empresa de software, José rogério Luiz.

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Reside justamente no aumento do consumo a maior expectativa das empresas em relação à Selic de um dígito, mais do que numa diminuição nas taxas oferecidas a elas pelos bancos. ?As empresas trabalham com capital de giro dos bancos e os bancos não vão reduzir o spread?, diz o presidente do Conselho de administração do instituto Brasileiro dos executivos de finanças (ibef-SP), Walter machado de Barros. ?a irrigação da economia com juros menores é muito importante. o governo tem vários instrumentos que pode acionar?, reforça armando Valle, diretor de relações institucionais da fabricante de produtos de linha branca Whirlpool.

As calculadoras dos economistas não conseguem medir o impacto psicológico que uma taxa inferior a 10% pode gerar no aumento da disposição ao consumo. Otto Nnogami, professor de ambiente econômico global do Ibmec-SP, não tem dúvida de que ele ocorrerá. Mas prevê que, ao fazer as contas, o governo pode ter dificuldade em financiar sua dívida se seus títulos não forem suficientemente atrativos. ?Pode ser um tiro no pé?, afirma. A menor atratividade das aplicações financeiras já é uma das preocupações do governo, que estuda mudanças na remuneração das cadernetas de poupança para evitar uma migração dos recursos investidos em títulos do Tesouro para a poupança. A maioria dos bancos já paga menos pelo CDB do que o rendimento da poupança ? de 8,86%. E este é um dos fatores que podem atrasar um corte mais acentuado da Selic na reunião desta semana. Em público, Meirelles disse na semana passada que a discussão sobre a mudança de cálculo da poupança deve levar em conta a preocupação com o rendimento da população menos favorecida. Aos bancos, no entanto, o discurso é outro. DINHEIROdinheiro apurou que emissários das maiores instituições do País mantiveram reuniões com a diretoria do BC. Eles pressionaram para que a queda espere a solução para o problema da poupança.

h á várias opções em estudo no Ministério da Fazenda. A primeira é a de manter o rendimento integral para os saldos até R$ 5 mil. Entre R$5 mil e R$100 mil, o rendimento seria menor, em faixas. Acima de R$ 100 mil, haveria ainda cobrança de Imposto de Renda. Outra proposta é o lançamento de títulos públicos com remuneração vinculada ao rendimento da poupança. Esse mecanismo agradaria aos bancos, sem precisar alterar o rendimento. Apesar do medo do governo de migração de recursos, isso ainda não aconteceu. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a redução da Selic para 9,75% no fim deste ano levaria a uma economia de R$ 22,9 bilhões com o pagamento de juros. É mais um bom motivo a favor da economia de um dígito.

 

Meirelles paz e amor

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Dizem que o Brasil é o porto seguro entre os emergentes. Vamos devagar.

 

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está ganhando a fama de encantador de plateias. Durante o 8º Fórum Empresarial de Comandatuba, na semana passada, conseguiu a proeza de dar recados embalados por uma pitada de otimismo que agradou a todos. Meirelles concedeu: ?Há sinais importantes de recuperação da economia e é justo comemorá-los.? Meirelles alertou: ?O que não se pode é confundir sinais de melhora com superação do problema.? Meirelles esbanjava bom humor: ?Dizem que o Brasil é o porto seguro entre os emergentes. Vamos devagar!? Com a sua linha absolutamente técnica, baseada nos quadros de estatísticas recentes do BC, ele fez o dever de casa ao levantar bandeiras simpáticas ao governo Lula. Pediu pela queda do spread bancário. Pediu pela aprovação do cadastro positivo de clientes. Desconversou quando o assunto foi meta de juros. Mas não deixou de sinalizar que a tendência é de queda. Meirelles estava conservador como sempre nas previsões monetárias e conquistador como em poucas ocasiões em temas políticos. Chegou a pregar uma maior participação do Estado na condução da crise. Como homem de mercado, a bandeira do aumento do Estado na economia deveria soar como heresia. Não para o novo Meirelles. A interpretação é de que seu pendor por uma candidatura política está mais forte do que nunca. Ele, claro, afasta a hipótese. ?No momento não tenho nenhuma precisão de sair do BC. Tenho o compromisso com o presidente Lula e com o povo. Minha prioridade absoluta é a luta pelo enfrentamento da crise.? Parece ou não parece fala de candidato? Eleito deputado federal pelo PSDB em 2002, vaga que não assumiu para poder ocupar o BC no início de 2003, ele transpira saudades dos velhos tempos e, por via das dúvidas, adotou um estilo ?Meirelles paz e amor?.