É A ECONOMIA, ESTÚPIDO. ESTA FRASE, QUE ficou famosa na primeira eleição do ex-presidente Bill Clinton, voltou a valer agora, na reta final da eleição americana. Com o fracasso da guerra do Iraque e a vitória democrata nas eleições legislativas de 2006, já era esperado que o próximo presidente americano não seria republicano. Mas a demora na escolha do candidato e a divisão inicial do partido entre os grupos de Barack Obama e Hillary Clinton deixaram a situação indefinida por um bom tempo. Com a crise imobiliária ainda em banho-maria, o foco dos primeiros meses de campanha estava na política externa, o ponto mais fraco do democrata, considerado inexperiente nesta área. Mas veio setembro e a crise, com uma mistura de nacionalização e quebra de bancos americanos, e Obama não deixou passar a oportunidade. Embora McCain tenha feito o possível para se distanciar do presidente George W. Bush, Obama foi rápido em apoiar o pacote bilionário de ajuda aos bancos – que, afinal, não foi suficiente para conter a crise – e em vender aos americanos a sua plataforma de “mudança”. Na semana passada, Obama liderava as pesquisas de intenção de voto, com uma média de 50,1%, enquanto McCain amargava 42,7%. Em algumas pesquisas, a diferença chega a 14%. E as projeções do colégio eleitoral já garantem a vitória democrata. A recessão será um fardo para o próximo presidente, mas deve ajudar os democratas a voltar à Casa Branca depois de oito anos.

Analistas políticos dizem que o acirramento da crise rendeu votos a Barack Obama, que já lidera com folga as pesquisas eleitorais

A intensidade da crise financeira e suas conseqüências na economia real caíram como um presente no colo de Obama. Embora os dois candidatos façam um diagnóstico parecido da economia e falem da necessidade de aumentar o controle sobre Wall Street, as palavras ganham mais credibilidade na boca do candidato de oposição. “A crise mudou a eleição em favor de Obama, embora eu ache que ele iria ganhar de qualquer maneira”, disse à DINHEIRO o economista Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisas em Economia e Políticas, um think-tank de Washington. “Ninguém quer saber de outros temas, como casamento gay, quando pode perder o emprego.” Antes da crise, a campanha era dominada pelo cronograma de retirada das tropas americanas do Iraque e detalhes sobre redução de impostos. Além disso, os democratas também parecem mais confortáveis com a tendência mundial de socorro governamental ao sistema financeiro. Primeiro, porque são menos dogmáticos sobre a presença do Estado na economia. Segundo, porque podem dizer que estão arrumando a bagunça que não ajudaram a criar.

Nesta semana, a campanha de McCain tentou colar a imagem de “socialista” – a palavra S – em Obama por sua afirmação de que era preciso distribuir melhor a riqueza do país, mas o assunto durou pouco. Foi logo substituído por outro factóide, este desfavorável aos republicanos: a notícia de que a vice Sarah Palin gastou US$ 150 mil do partido em roupas para a campanha. Além do repique de queda nas bolsas, a semana foi recheada de notícias ruins na economia real. O número de 478 mil pedidos de auxílio-desemprego é um novo recorde. O desemprego de 6,1% só é comparável a setembro de 2003, como conseqüência da curta recessão do ano anterior. Outra notícia negativa é a retomada de mais de 80 mil casas por falta de pagamento dos financiamentos em setembro.

Bush, que ficou calado nas últimas semanas, convocou uma reunião do G-20, grupo das maiores economias do mundo, Brasil incluído, para meados de novembro. O presidente Lula já confirmou presença. Até lá, os Estados Unidos já terão um novo presidente, que certamente será convidado por Bush a participar das discussões. Será o primeiro teste do que o espera nos próximos anos, quando os Estados Unidos vão viver o que os analistas já consideram a pior recessão desde a Grande Depressão dos anos 30. Se será longa ou curta, vai depender bastante da capacidade de liderança do candidato que sair vencedor das urnas no dia 4.