14/11/2007 - 8:00
No século XVIII, o médico e economista francês François Quesnay defendia a tese de que o valor de um bem era resultado direto da demanda. Ou seja, quanto mais consumidores interessados em adquirir determinado serviço ou produto, mais o preço tende a subir. Uma das melhores demonstrações da força da chamada lei da oferta e da procura pôde ser observada na segunda-feira 5, na China. Nesse dia, as ações da PetroChina subiram 163% em relação ao preço-base definido no processo de abertura de capital (IPO). O suficiente para fazer com que a companhia atingisse a espetacular marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado e se tornasse a empresa mais valiosa do planeta, à frente de colossos como Exxon e General Electric. A PetroChina é uma estatal que atua na prospecção e distribuição de petróleo e gás. Não é um caso isolado no capitalismo chinês. Nada menos que metade das integrantes do ranking das dez principais corporações do mundo é ligada ao governo de Pequim (ver tabela).
Os analistas, no entanto, vêem com preocupação essa ?exuberância asiática?. Muitos enxergam semelhanças entre esses eventos e a bolha especulativa ocorrida nos Estados Unidos no final da década de 1990, no embalo da chamada Nova Economia. Essa teoria ganha mais corpo quando lembramos que a fantástica performance da PetroChina se restringiu às ações classe A, destinadas exclusivamente aos investidores domésticos e à Bolsa de Xangai. No pregão de Hong Kong, ao qual os estrangeiros têm acesso, os papéis da petrolífera são negociados desde 2000 e acumulam alta de 78% de janeiro a outubro.
?Em uma economia fechada e com forte viés de intervencionismo governamental é mais difícil calcular a taxa de retorno e a projeção de lucro, números essenciais para arbitrar o valor de uma empresa?, opina o economista Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. De fato. Quando comparada à americana Exxon, líder do setor, e até à brasileira Petrobras, o brilho da PetroChina não é tão intenso e reforça a tese de uma bolha especulativa. No quesito receita líquida, por exemplo, a Exxon ganha com larga margem. São US$ 335 bilhões ante US$ 95 bilhões da PetroChina e US$ 74 bilhões da estatal brasileira. No item reservas de óleo e gás, os americanos também lideram com 22,1 bilhões de barris. A PetroChina possui 20,5 bilhões de barris e a Petrobras, 19 bilhões, incluindo o Campo de Tupi (SP), cuja descoberta foi anunciada na quinta-feira 8. Mas isso não significa que a estatal chinesa seja um ?dragão sem dentes?. A China é um grande produtor de petróleo e possui reservas tanto na plataforma continental do Mar Amarelo quanto em poços terrestres. ?É um competidor que deve ser respeitado?, argumenta Giuseppe Bacoppoli, professor do Coppe-UFRJ.
A venda de ações adicionou US$ 8,9 bilhões ao capital da PetroChina. Os recursos serão utilizados para ampliar a capacidade de refino e de prospecção da estatal. Trata-se de uma operação estratégica, sobretudo em um país que incorpora anualmente uma massa de 50 milhões de consumidores. O crescimento da frota de veículos, por exemplo, é diretamente proporcional ao apetite consumista da gigantesca classe média chinesa. Um mercado que a PetroChina precisa ajudar a abastecer.