O empresário Juan Espeche tem um pepinão para resolver dentro de casa. Sua mulher está uma fera porque empregada doméstica nenhuma pára no serviço. E a culpa é dele. Espeche sofre de um impulso incontrolável de assustar as moças a todo momento. Na última vez, escondeu-se ao lado da geladeira e ficou esperando a empregada entrar na cozinha. Uma careta bem feita bastou para ela sair em disparada, pedindo socorro e as contas. Um divertimento de gosto duvidoso? Mais do que isso: aterrorizar pessoas é o ganha-pão desse argentino de 38 anos, dono da Indiana Mistery, empresa que fatura R$ 2,5 milhões ao ano desenvolvendo, instalando e administrando atrações mal-assombradas em parques de diversões. A mais bem- sucedida delas é o Castelo dos Horrores do Playcenter de São Paulo, que já recebeu 3 milhões de visitantes em oito anos de atividade. E a mais nova, o Katakumb, recentemente inaugurado no Hopi Hari.

Réplica do templo do faraó egípcio Ramsés II, o Katakumb abre uma nova frente de negócios para Espeche: a das atrações ?patrocináveis?. Há anos ele tenta convencer executivos de marketing que pode ser interessante colocar suas marcas e produtos nas criações da Indiana Mistery. Ninguém acredita, é claro. Já pensou a Perdigão fazendo publicidade de salsicha na sala de Jack, o Estripador? Ou a Unilever pagando para pendurar um banner do Close-up ao lado da tumba do Conde Drácula? Mas Espeche resolveu esse contratempo. ?O Katakumb é mais do que um castelo do medo. É um evento cultural?, diz ele. O visitante tem duas opções de passeio nos labirintos do brinquedo. Uma diurna, acompanhada de um guia treinado que conta a história do Império Egípcio. E outra noturna, com atores fantasiados e outras surpresas feitas para assustar. A diferença é que dessa vez não há sangue, cabeças decepadas, olhos arrancados, demônios, etc. Os monstros, em versão ?light?, foram pensados para não espantar eventuais patrocinadores. ?Um empresa já se interessou em associar seu nome ao do Katakumb?, conta Espeche. Seria um contrato de R$ 500 mil anuais.

O fato de alguns parques apresentarem balancetes de dar medo não preocupa o empresário. As atrações da Indiana Mistery são cobradas à parte e sempre têm público. No Katakumb, por exemplo, foram investidos R$ 3 milhões. Das receitas geradas, 55% voltarão para a empresa, que cuidará da manutenção do brinquedo, incluindo cachê dos atores e solução de problemas técnicos. O Hopi Hari fica com os 45% restantes. ?Com a parte que lhe cabe da bilheteria do Castelo dos Horrores, o Playcenter garante toda a sua folha de pagamento?, exemplifica Espeche. A previsão é que 400 mil pessoas visitem a atração todos os anos, possibilitando que os investidores parceiros da Indiana Mistery tripliquem o seu capital em três anos. ?Não tem mistério, é um bom negócio para todo mundo.?

Seita misteriosa. Que o diga o carioca Gladson Dutra, que em 2002 largou 25 anos de mercado financeiro para se tornar sócio de Espeche. ?A situação nos bancos está desumana?, afirma. Dutra chegou para tocar a parte administrativa da companhia, e ainda está se acostumando ao novo escritório, recheado de gárgulas, múmias, franksteins e outros monstros nada simpáticos. ?Meu filho de seis anos me liga toda hora no celular querendo saber se os ?bichos? me pegaram, se eu estou machucado?, diz. Na primeira vez que foi ao Katakumb, sua mulher perdeu o sapato e pediu para ele ir buscar. ?Entrar ali de novo? Nem pensar!?, respondeu o único empresário do mundo que tem pavor de seus produtos.

Já o amigo argentino se diverte. Espeche está no ramo desde 1987, quando botou uma mochila nas costas e deixou Buenos Aires para tentar a vida em Madri. Foi pedreiro, garçom, motorista, detetive particular (investigou o envolvimento da mulher de um milionário com uma estranha seita religiosa) e ator de casas mal-assombradas. Em 1995, veio explorar o mercado brasileiro. Montou o Castelo dos Horrores do Playcenter e assumiu as Noites do Terror, cuja próxima edição começa em agosto e deve faturar R$ 3 milhões nos seus dois meses de duração. Em breve ele inaugura em São Paulo a primeira Mistery Shop, loja que vai misturar venda de máscaras e cicatrizes falsas com consultas a cartomantes, bruxas e esotéricos em geral. A idéia é abrir franquias por todo o Brasil. Ele também já está trabalhando num novo castelo, no estilo futurista baseado nos filmes Aliens e Predador. Espeche conta que quando criança era difícil encontrar amigos para brincar de carrinho com ele. ?Só porque eu gostava de simular acidentes e fazia caixões para enterrar os bonecos mortos?, diverte-se. Hoje, enquanto Dutra cuida dos números, ele escreve os textos para seus atores, cria personagens, imagina maquiagens e esboça a planta baixa dos castelos. Entre uma coisa e outra, dá um susto na empregada só para manter a forma.