18/02/2004 - 7:00
Lá vem a sorridente Maria de Lourdes Feitosa de Franco para mais um almoço na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP). Faltam 30 passos para a entrada do refeitório e o pessoal já quer saber: ?E então Lourdes, o que tem de rango hoje?? Metida no seu jaleco branco, mãos no bolso, ela inclina a cabeça para trás, dá duas ou três fungadas, e decreta: ?Bife acebolado e brócolis na manteiga?. Não se trata de conhecer de trás para frente o cardápio da empresa onde trabalha há 22 anos. Tampouco um jogo de adivinhação. Tem muita ciência nesse negócio. Aos 43 anos, a química Lourdes é o nariz mais afiado da indústria automobilística nacional. Seu trabalho consiste em garantir a qualidade de um ?item de série? do qual consumidor nenhum abre mão na hora de comprar um zero-quilômetro ? o famoso cheirinho de carro novo. Ofício curioso, não é?
Curioso e de muita responsabilidade. O tal cheiro de carro novo vem de um coquetel potencialmente tóxico exalado por peças do acabamento interno. Basicamente borracha, plástico, cola e solventes, que, em doses exageradas, podem causar dor de cabeça, ardência nos olhos e até câncer. Na Europa o consumidor já clama por automóveis inodoros. ?Mas no Brasil ninguém dispensa esse brinde?, brinca Lourdes, que comanda uma equipe de vinte pessoas e teve o olfato calibrado e aferido em um curso na Volks alemã. ?Minha missão é analisar peças e materiais e não deixar passar aromas desagradáveis ou prejudiciais à saúde?, conta ela.
Isso é feito em duas etapas. Inicialmente, Lourdes cheira de forma isolada os materiais que chegam dos fornecedores ? à temperatura ambiente e também depois de aquecidos numa estufa. Mas é no pátio da montadora, de prancheta em punho e fungando o conjunto da obra ? ou seja, o carro pronto ? que ela mostra todo o seu talento. Uma aspirada no volante aqui, outra no porta-malas acolá e Lourdes dá o seu o veredicto. As notas vão de 1 a 6, partindo do utópico ?sem cheiro? e chegando aos reprováveis ?incomoda muito? e ?insuportável?. O mais comum é o meio-termo, mas certa vez alguns Gol levaram nota 5 porque cheiravam a banheiro. Culpa de uma resina utilizada no assoalho que, sob sol forte, exalava cheiro de uréia. ?Isso pode comprometer um lote inteiro de exportações?, diz Lourdes.
A empresa coreana Biomist Aromasys, que desenvolve fragrâncias para ambientes comerciais, promete lançar em breve um aroma artificial de carro novo. ?A idéia é usá-lo em revendas de automóveis e estimular o consumidor a comprar?, não esconde Cristina Carnelós, assistente de marketing da filial brasileira da Biomist. De fato, estudos da agência Point of Purchase Advertising International mostram que cheiros agradáveis podem aumentar em 20% as vendas de uma loja. Enquanto isso, Lourdes, a faro-fino da Volks, vai provocando pequenas rusgas conjugais por causa de seu olfato supersensível. Outro dia zangou-se com o marido, que tem o hábito de assaltar a geladeira no meio da noite. Ele nem precisou abrir a boca para Lourdes farejar o delito: ?Mas você foi comer azeitona de novo, Miro?!?