Em pleno século 21, quando a rede das finanças globais nunca esteve tão desenvolvida, ainda existem investidores deixando seus recursos guardados debaixo do colchão. Essa medida não está sendo tomada em nenhum rincão de um país periférico, mas em Wall Street, o centro do capitalismo mundial. Pesquisa divulgada na semana passada pela corretora Merrill Lynch revelou que 33% dos grandes investidores americanos, que administram US$ 714 bilhões em ativos, estão mantendo pelo menos 8% de seus capitais em dinheiro vivo. Há um mês, num levantamento parecido, esse índice era inexpressivo. ?Hoje, mais do que nunca, ter dinheiro em caixa é o que conta?, observou David Bowers, estrategista de investimentos da Merrill Lynch. Ao menos duas conclusões podem ser tiradas desse estudo. A primeira é que os investidores nunca estiveram tão alheios ao risco quanto agora, como a caça que sempre foge do caçador. ?O número de gerentes adotando uma estratégia de baixo risco é a maior em toda a história da nossa pesquisa?, disse Bowers. A segunda constatação é que, embora pareça acuado, o mercado financeiro está, na verdade, hibernando, à espera de uma boa oportunidade de investimento que garanta bons retornos. Nesse caso, os investidores estão longe de serem a caça, mas caçadores famintos por lucros.

Os fundamentos para uma reação dos mercados mundiais existem, dizem os analistas. As taxas de juros estão baixas nos Estados Unidos e na Europa e uma retomada de crescimento econômico seria apenas questão de tempo. O problema maior, no momento, é a guerra no Iraque. Mas caso o conflito contra Saddam Hussein seja breve, como desejam dez entre dez executivos, a recuperação das finanças globais pode se dar mais cedo do que se imagina. ?O cenário atual é parecido com o de 1992, logo depois da primeira guerra do Golfo, que impulsionou todo o crescimento econômico da década?, avalia Paulo Clini, gestor do Citigroup Asset Management. Em agosto de 1990, quando o presidente George Bush pai ordenou o ataque ao Iraque, o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, estava em 2.600 pontos. Nove anos depois, o DJ rompia a marca dos 11 mil pontos, embalado pelo crescimento da produtividade da economia americana e pela bolha das empresas de tecnologia. Um fenômeno semelhante poderia acontecer com o fim do conflito tão desejado por George W. Bush. ?A guerra não vai acabar com o mercado. Ele vai renascer das cinzas como uma Fênix?, afirma Gilberto Braga, diretor do CVC Opportunity e professor de Finanças do Ibmec no Rio de Janeiro.

Braga é daqueles que acreditam que são nos momentos de
crise que surgem as grandes chances de lucro, principalmente no mercado de ações. ?As boas oportunidades estão aí, basta garimpar?, defende o professor. Entre suas apostas estão os papéis de empresas de tecnologia com aplicações militares, como comunicações e previsões meteorológicas. Para Clini, do Citigroup, as ações com maior possibilidade de ganho são as de empresas que produzem commodities minerais, como cobre, aço e minério de ferro, base para a reativação de qualquer economia. Papéis de empresas petrolíferas, obviamente, também poderiam subir com a Guerra do Golfo. Entretanto, essas aplicações seriam prejudicadas caso o conflito se encerrasse rapidamente. ?Hoje, o preço do barril de petróleo está oscilando entre US$ 32 e US$ 35. Mas já há estudos indicando que, com o fim da guerra, o preço pode cair imediatamente para US$ 25?, pondera Clini.

As recomendações para os investidores brasileiros não são muito diferentes das apostas globais. Relatório da consultoria Global Invest sugere ações da Vale do Rio Doce e da Gerdau, além dos bancos e de empresas exportadoras com papéis no mercado americano, as chamadas ADRs. Já o analista Sandro Longo, da StockPicker, indica os papéis de empresas que sofreram com a alta do dólar, como Tele Celular Sul e Telemig Celular, todas empresas do setor de infra-estrutura. ?Todas essas ações estão com os preços defasados?, observa Longo. ?Depois de uma guerra, o setor de telecomunicações é sempre o primeiro no qual se nota uma recuperação, pois é onde os estrangeiros entram comprando e o preço sobe?. O analista ressalta, porém, que bolsa é sempre um investimento de risco, principalmente em tempos de guerra. ?O investidor tem que estar sempre preparado para o pior?, aconselha Longo. Na bolsa de valores, um dia também é da caça e outro, do caçador.

NA ESPERA POR DIAS MELHORES
No Colchão: Os investidores americanos estão evitando fazer grandes aplicações. Segundo a Merryll Lynch, 33% estão mantendo pelo menos 8% de seus recursos em dinheiro vivo
Apostas Globais: Ações de companhias de tecnologia militar, siderúrgicas, mineradoras e, obviamente, petrolíferas são consideradas boas opções de investimento
No Brasil: Os papéis de empresas de telecomunicações,
bancos e exportadoras têm boas possibilidades de ganho