14/12/2005 - 8:00
Quando a Braskem foi criada em 2002, havia duas versões do que seria aquela empresa. Uma delas existia na cabeça dos acionistas: uma companhia com larga escala industrial, verticalizada e financeiramente robusta. A outra circulava na boca de analistas e executivos do setor. Tratava-se de uma organização endividada, carente de investimentos e dividida por disputas entre seus sócios: os grupos Odebrecht e Mariani e a Petroquisa. Era uma encruzilhada e foi com a missão de definir qual rumo tomar que o executivo José Carlos Grubisich assumiu o comando da Braskem naquele momento. Desde então, a maior companhia petroquímica da América Latina multiplicou suas receitas por dois, para R$ 14,5 bilhões, e reduziu drasticamente o endividamento para R$ 3,8 bilhões, contra R$ 6,8 bilhões em 2002. A geração de caixa dobrou, de R$ 1,3 bilhão para R$ 2,5 bilhão, e a produção cresceu 20%, só com a melhoria de eficiência. O valor de mercado saltou de US$ 200 milhões para os atuais US$ 3,5 bilhões neste ano. Foram essas conquistas que levaram Grubisich a ser escolhido o Empreendedor do Ano na Indústria. ?Enquanto muitos olhavam a metade vazia do copo, consegui vislumbrar a metade cheia?, afirma ele. ?Isso me levou a aceitar o desafio.?
Na ocasião, Grubisich, hoje com 49 anos, fez uma aposta arriscada. Para assumir a presidência da Braskem, deixou para trás uma carreira de 24 anos na Rhodia, que o levara ao board mundial do grupo francês. Trocou o escritório em Paris, de onde podia apreciar a vista do Sena e passou a despachar no terceiro andar de um moderno espigão às margens do rio Pinheiros, em São Paulo. A partir dali, imprimiu um estilo moderno a um setor, o petroquímico, historicamente conservador e voltado para si mesmo. Em suas freqüentes aparições na imprensa, passou a cultivar uma linguagem mais palatável para a maioria dos mortais. Em vez de falar em uma ?nova aplicação de polipropileno visando a substituição de materiais?, como seria comum entre seus pares, ele prefere se referir ao ?novo copo de requeijão feito de plástico especial que dispensa o uso do copo de vidro?. Dentro do escritório, Grubisich optou pela quase total ausência de paredes. Os funcionários abrigam-se em ?células? divididas por baias baixas, encostadas umas nas outras. ?Aqui, queremos incentivar o trabalho em equipe, a facilidade de comunicação?, diz ele com um gesto amplo, enquanto caminha pelos corredores estreitos do andar onde funciona a companhia.
Grubisich esforça-se para evitar personalismo. Entre uma frase e outra, ressalta o conjunto dos colaboradores, o espírito de equipe. Parte desses conceitos, Grubisich retira dos livros de administração, sua companhia permanente. Em sua cabeceira, sempre estão Vantagem Competitiva, obra do americano Michael Porter, e um clássico da literatura de negócios, o livro Feitas para Durar, de James Collins. As leituras consomem parte de seus finais de semana em Itatinga, interior de São Paulo, onde possui uma fazenda com criação de gado. Mesmo a distância de São Paulo não o impede de acompanhar os jogos do Palmeiras, seu time de coração.
Nos últimos anos, sobrou pouco tempo para se dedicar aos hobbies. Afinal, Grubisich desenhou e conduziu o processo de integração das diversas empresas que, hoje, compõem a Braskem. ?Nosso objetivo era erguer uma organização competitiva, de classe mundial e alta tecnologia?, afirma ele. Desde a criação da Braskem, programas de produtividade geraram economias de R$ 700 milhões. A melhoria dentro das fábricas trouxe ganhos inesperados e permitiu um incremento de 20% na capacidade produtiva. Uma ampliação desse volume no parque industrial exigiria investimentos de até US$ 1 bilhão. ?Criamos valor a partir da eficiência?, diz Grubisich.
Com a casa arrumada, a Braskem girou o foco na direção do mercado, tanto interno como externo. No exterior, a empresa já colhe 20% de seu faturamento. Para os próximos anos, a presença internacional será mais concreta. Até o final de 2006, Grubisich concluirá os estudos para lançar um complexo gás-químico em parceria com o governo da Bolívia e a Petrobrás. Coisa de US$ 1,2 bilhão a US$ 1,5 bilhão. Outro pé será fincado na Venezuela, em associação com a petrolífera local, a PDVSA. Será uma planta de polipropileno (?o plástico que mais cresce no mundo?, segundo Grubisich), que consumirá US$ 300 milhões. Aqui dentro, o principal investimento já tem nome e endereço definidos: a Petroquímica Paulínia, localizada em Paulínia (SP), em mais uma iniciativa com a Petrobrás, cujo investimento somará US$ 240 milhões.
Mas Grubisich pretende extrair a maior parte do crescimento dos laboratórios da companhia. No Centro Tecnológico em Triunfo (RS), trabalham 170 técnicos e engenheiros, empenhados em desenvolver novos usos para os plásticos da Braskem. De lá, saíram novidades como o copo de plástico para requeijão, além de um material que substitui o amianto. A equipe de cientistas também criou um tal polietileno metaloceno (bem, às vezes, nem Grubisich consegue escapar do jargão), próprio para embalagens de alta resistência e transparência. Em sua curta existência, a Braskem já registrou 130 patentes de novos produtos. No forno, há novidades suficientes para gerar negócios de US$ 250 milhões. A soma do bom desempenho da empresa com as perspectivas positivas permitiram que a Braskem lançasse os chamados títulos perpétuos no mercado internacional, papéis no valor total de US$ 300 milhões com prazo de 100 anos para pagamento. ?Essa confiança do investidor é resultado de nosso contínuo desenvolvimento?, diz Grubisich. ?Não passamos um trimestre sem um anúncio estratégico.? Isso ajuda nos negócios ? e também ajuda a deixar o setor petroquímico mais divertido.