07/09/2001 - 7:00
Se algum lugar na face da Terra podia ser descrito como uma cidadela a prova de terroristas, este era o Pentágono. Porém, a fortaleza caiu. No mais poderoso complexo militar do planeta, o prédio que abriga o comando do sofisticado sistema de defesa dos Estados Unidos, alarmes começaram a soar por toda a parte na manhã da terça-feira 11, anunciando que um avião não identificado estava em rota de colisão. Antes convictos de sua segurança, milhares de funcionários civis e militares se viram, repentinamente, totalmente indefesos. Em poucos segundos, o ruído dos alarmes deu lugar a um estrondo ensurdecedor. Um Boeing 757 da American Airlines, seqüestrado por terroristas, foi lançado sobre a ala sudoeste do edifício, destruindo um de seus famosos cinco lados e provocando a morte de cerca de 250 pessoas.
O atentado derrubava também um grande mito do povo americano, que sempre acreditou na invencibilidade de seu poderio militar, construído durante décadas à base de orçamentos bilionários. O céu sobre o prédio, localizado às margens do Rio Potomac, nas proximidades de Washington, é um corredor de tráfego aéreo altamente restrito no qual aviões civis não podem circular. Muitos acreditavam que qualquer avião que tentasse se aproximar do local seria automaticamente abatido. ?Não é possível! A CIA tem 800 agentes de espionagem espalhados pelo mundo e nós fomos os últimos a saber?, vociferou Tom Clancy, autor de romances com temática militar, como A Caça ao Outubro Vermelho.
O ataque ao Pentágono destruiu a parte oposta ao gabinete do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld. Erguido durante a Segunda Guerra, a um custo de US$ 83 milhões, o Pentágono foi desenhado por uma equipe de mil arquitetos, que tinham a missão de projetar um prédio inteligente. Ocupando um espaço de 2,4 quilômetros quadrados, três vezes maior do que área total do Empire State Building, o Pentágono abriga 23 mil funcionários e uma série de números impressionantes. São 13 elevadores, 131 escadas e 160 mil quilômetros de cabos telefônicos por onde passam 200 mil chamadas por dia. Apesar das distâncias, o prédio foi projetado de forma que a locomoção de um ponto a outro leve no máximo sete minutos.
Com o ataque, a grande questão que se coloca é que, apesar de contar com um orçamento anual de US$ 300 bilhões ? mais da metade do PIB brasileiro ?, a Defesa Americana, com todas as suas agências de inteligência e redes de informação, além da mais moderna Forças Armadas do planeta, pode estar preparada para uma guerra entre países mas não para ataques terroristas. E o futuro dos conflitos, prevêem os analistas, é mais parecido com uma cruzada medieval do que com uma obra de ficção científica. ?Nos preparamos para o ataque errado?, afirma o analista Bruce Hoffman, diretor do Rand Corporation, instituto de estudos estratégicos de Washington. ?Nos concentramos nas ameaças mais simples, como o carro-bomba, e nas mais avançadas, como um ataque biológico, mas negligenciamos o campo intermediário.?
Com seu estilo linha dura conservador, o presidente George W. Bush anunciou a intenção de fazer uma reforma profunda no Pentágono. Solicitou um incremento orçamentário de US$ 25 bilhões junto ao Congresso para custear, durante sete anos, um programa nacional de defesa antimísseis. À época, a medida foi rechaçada como uma concessão ao poderoso lobby da indústria de armas, que embolsaria pelo menos US$ 100 bilhões para desenvolver e construir tal sistema. O Congresso torceu o nariz, pregando o rigor fiscal das contas públicas. Agora que o inimigo se aproxima, aumentam as chances de Bush conseguir incrementar o orçamento militar. ?O povo americano irá demandar mais proteção do que nunca?, diz Christopher Coker, professor de Assuntos Estratégicos da London School of Economics, em entrevista à DINHEIRO.
Para Coker, o ataque de terça-feira mostrou ?claramente? que nenhum sistema de defesa é capaz de deter esse tipo de ameaça terrorista. Isso não significa, no entanto, que seja a hora de baixar a guarda e interromper programas de defesa antimísseis. ?A ameaça de um ataque de mísseis ainda persiste, ainda que seja menos grave e certamente menos imediata do que ataques do tipo carro-bomba?, afirmou Coker. Segundo ele, mesmo que a CIA e os demais serviços de investigação e inteligência recebam mais verba, o terrorismo está deixando os governos sem ação. ?Um serviço de inteligência mais eficaz pode reduzir o número de incidentes, mas não vai acabar com a grande ameaça do uso de armas de destruição maciça, como armas químicas, biológicas e nucleares?, diz Coker. ?Veja o ataque de gás sarin no metrô de Tóquio em 1995. Não há meios de prevenir ou deter esse tipo de ataque e me espanta que as armas de destruição maciça ainda não tenham sido utilizadas. Mas serão, e bem mais cedo do que se imagina.?