01/05/2002 - 7:00
O candidato que vier a vestir a faixa presidencial no dia 1º de janeiro de 2003 herdará uma economia com características contraditórias. De um lado, receberá um País relativamente estável, com uma inflação entre 4,5% e 5%, se as previsões do Banco Central se confirmarem. Mas ao mesmo tempo terá desafios colossais pela frente. O primeiro é administrar o endividamento interno que, segundo projeções da consultoria LCA, chegará a 57,5% do PIB ao final de 2002 ? algo
como R$ 729 bilhões. É uma dívida que, só neste ano, vem crescendo ao ritmo de
R$ 365 milhões por dia, sob o peso dos juros altos da dupla Pedro Malan e Armínio Fraga. Lado a lado com esse problema, o novo presidente herdará um rombo nas transações internacionais de US$ 22 bilhões em 2002 e um passivo externo acumulado em
US$ 400 bilhões. Essa situação é aquela que os economistas costumam chamar de déficits gêmeos, ou seja, um quadro econômico com fragilidades tanto no campo interno quanto no front externo. É por isso que, na reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, no último fim de semana em Washington, técnicos das duas instituições disseram que a gestão das duas dívidas no Brasil é cada vez mais delicada. ?O alto grau de endividamento foi a contrapartida da estabilização?, avalia Marcelo Mesquita, economista-chefe do banco suíço UBS Warburg.
Até aí, não há muita novidade. Desde o início do Plano Real, quando a dívida interna era da ordem de R$ 85 bilhões, o salto vem sendo vertiginoso a cada ano. Só não foi maior em razão da política de aperto nos gastos públicos colocada em prática pelo governo. ?Mas lentamente o Brasil vai caminhando para um abismo?, afirma o economista Paulo Rabello de Castro, do Instituto Atlântico e dono da empresa de classificação de riscos SR Rating. Castro aponta ainda um terceiro problema, não menos importante, que também irá estourar no colo do próximo presidente: a bomba demográfica. Os próximos anos, especialmente 2005, serão aqueles em que mais jovens entrarão no mercado de trabalho. O Brasil terá, dentro de três anos, 50 milhões de pessoas na faixa entre 15 e 29 anos. ?É essa a geração que mais pressiona o mercado de trabalho.?
A necessidade de superar esses três desafios provocou uma reviravolta na agenda política. Em vez de estabilidade, a prioridade passou a ser o crescimento, que ajudaria a estabilizar o endividamento e a criar empregos. É esse o discurso dos candidatos, apoiado por analistas de todas as colorações ideológicas. ?Uma estabilidade econômica ancorada em juros altos é insustentável?, diz Horacio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. ?Crescer 5% ao ano é a única forma de absorver os jovens que estão entrando no mercado de trabalho?, afirma Márcio Pochmann, economista da Unicamp e secretário do governo petista da prefeita Marta Suplicy em São Paulo.
Crescimento. Com o consenso pró-crescimento consolidado,
muitos analistas passaram a fazer previsões mais otimistas para o próximo governo. ?Se a questão externa for efetivamente atacada, como todos os candidatos têm prometido, o Brasil tem como voltar a crescer entre 4% e 5% no próximo governo?, diz Bernardo Macedo, um dos sócios da LCA. No cenário traçado pela consultoria, que contempla duas crises internacionais, o PIB brasileiro saltaria de
R$ 1,3 trilhão para R$ 2,2 trilhões em oito anos, período dos possíveis dois mandatos do próximo presidente, com a taxa de juros caindo de 18% para 9%. A premissa para que isso ocorra é a redução agressiva do déficit externo, hoje em 4% do PIB, que obriga o País a atrair capitais externos para fechar suas contas. Francisco Lopes, ex-presidente do Banco Central e sócio da Macrométrica, pinta um quadro ainda melhor. Na sua bola de cristal, o Brasil crescerá 4,7% ao ano entre 2003 e 2008, com uma inflação média de 3%. ?As condições para a volta do desenvolvimento estão criadas?, afirma. ?A única variável de incerteza é a eleição.? Lopes acredita que o novo presidente, seja ele qual for, será testado pelo mercado financeiro nos seus primeiros meses, mas terá condições de colocar o País na trilha do crescimento desde que se comprometa com uma política econômica sólida. No governo, o cenário elaborado pelo Ministério do Planejamento que será enviado nesta segunda-feira 29 ao Congresso, contempla um crescimento médio de 3,75% ao ano entre 2003 e 2010. Seria o bastante, por exemplo, para equacionar o déficit da Previdência. ?Ficou claro que a única alternativa para o Brasil é voltar a crescer?, diz Piva, da Fiesp.