Ficaram definitivamente para trás os tempos em que moeda forte era sinônimo inequívoco de dólares americanos. Na semana passada, o euro atingiu sua valorização recorde, chegando à marca histórica de US$ 1,30 durante o pregão da quarta-feira 10 e deixando o Banco Central Europeu (BCE) dividido entre o orgulho disfarçado e a preocupação explícita. Orgulho pela verdadeira surra que sua moeda vem dando no dólar na arena das finanças globais. Preocupação pelo temor de que o euro mais forte diminua a competitividade das exportações européias e pelo risco da desvalorização do dólar desencadear uma recessão mundial. ?Estes movimentos não são bem-vindos do ponto de vista do BCE?, disse o presidente do banco, Jean-Claude Trichet, durante o encontro dos diretores de bancos centrais associados ao Banco de Compensações Internacionais (BIS), na cidade suíça da Basiléia. Pelo menos por enquanto, a força da moeda da União Européia não afeta o Brasil. Mas um tombo mais brusco do dólar, que force Alan Greenspan, o presidente do FED, a puxar o gatilho dos juros americanos com mais vigor do que o demonstrado na semana passada (aumento de 0,25 ponto percentual, levando o juro básico a 2% na quarta elevação consecutiva da taxa) pode jogar água fria no crescimento econômico sustentado do País nos últimos meses.

?Por ora, não há motivo para alarme?, acredita Luiz Suzigan, economista da LCA Consultores. Para ele, a alta do euro nos últimos dias é o resíduo de um movimento de desvalorização do dólar que já dura dois anos. De lá para cá, a cotação da moeda européia saiu do patamar de US$ 0,80 para o de US$ 1,20 e, agora, repicou em US$ 1,30. Motivos? Principalmente o aprofundamento do déficit comercial dos Estados Unidos (acelerado por causa da alta do preço do petróleo) e a perda do apetite dos investidores asiáticos por ativos em dólares. ?São dois fatores importantes, mas que não devem se agravar?, pondera o consultor. Ao contrário, o resultado da balança comercial americana divulgado quarta-feira mostrou uma redução do déficit de US$ 53,5 bilhões em agosto para US$ 51,6 bilhões em setembro. Além disso, as intervenções dos bancos centrais europeus e asiáticos para conter uma desvalorização brusca do dólar devem permitir um ajuste coordenado da paridade entre as principais moedas. Até o final feliz, porém, emoção não vai faltar.