15/06/2004 - 7:00
Há uma Guerra Fria entre países ricos e pobres. Trata-se de saber quem pagará a conta para evitar que o aquecimento global do planeta e o derretimento das camadas polares, resultado do chamado efeito estufa, leve a Terra a uma nova Era Glacial. As cifras deste combate são impressionantes. Estima-se em US$ 300 bilhões o custo da assinatura do Protocolo de Kyoto, o tratado que rege o controle ambiental. Até 2012, o mundo deve poupar US$ 150 trilhões, caso Kyoto seja adotado com a participação dos Estados Unidos. Os americanos, contudo, calculam perder até US$ 400 bilhões se forem obrigados a reduzir o ritmo da indústria e da emissão de poluentes. É uma discussão que agita todos os encontros de nações. Há quatro semanas, o lançamento do filme O Dia Depois de Amanhã, com bilheteria de US$ 160 milhões apenas nos EUA, esquentou essa disputa. O longa, uma superprodução do mesmo diretor de Independence Day, mostra o mundo destruído pela Era Glacial.
Os ativistas do verde o transformaram em documento de batalha contra o governo de George W. Bush, contrário a qualquer decisão que reduza os estragos no planeta. Afinal, o cenário tétrico exibido ao longo de duas horas é ficção ou realidade? O aquecimento global, apontam os cientistas, é real. Nos últimos 100 anos, a temperatura da Terra aumentou em 0,56 grau Celsius. Todos são unânimes, porém, em dizer que uma imagem como a que encerra essa legítima obra de Hollywood, com a repetição da Era Glacial que ocorreu há 13 mil anos, é exagerada, quase impossível. Pouco importa. A polêmica em torno de O Dia Depois de Amanhã ajuda a entender como funcionam a indústria e a economia ao redor do medo ecológico.
A neve cai em Nova Délhi, na Índia. O cientista Jack Hall (Dennis Quaid) faz um alerta diante de diplomatas do mundo inteiro na Convenção da ONU sobre Mudanças de Clima. O alerta: o planeta está à beira de uma tragédia glacial. O representante dos EUA pede a palavra para justificar a negativa americana em assinar o Protocolo de Kyoto: ?Não vamos gastar bilhões com esse tratado. Nossa economia é tão frágil quanto o meio ambiente?.
O Protocolo de Kyoto, desenhado em 1997, estabelece que os países industrializados, do chamado Anexo I, têm a obrigação de reduzir as emissões de gases que geram o efeito estufa, em especial o dióxido de carbono (CO2), em 5,2% abaixo dos patamares anotados em 1990. A redução deve ocorrer até 2012. Até agora, contudo, o tratado é apenas um pedaço de papel. Isso porque é necessário que pelo menos 55 países digam sim, representando 55% do total de gases. Já aderiram 122 países ? mas eles respondem por apenas 44,2% do total de CO2 emitido na atmosfera. Para que Kyoto entre em vigor, EUA ou Rússia precisam adotá-lo. Como os americanos já disseram não, a pressão agora vai para cima dos russos. Mas por que os EUA alegam fragilidade econômica, como no filme, numa postura evidentemente arrogante, de um gigante com supostos pés de barro? Na ponta do lápis, estima-se que a entrada em funcionamento do protocolo resulte no sumiço de 2,4 milhões de empregos nos EUA até 2012. A perda é resultado da queda na toada da economia, sem investimentos em tecnologia.
Há um outro problema para o naco de Bush filho. O tamanho do corte foi calculado com as estatísticas de 1990, quando os EUA viviam uma tremenda recessão. Hoje, para atingirem a meta ecológica, teriam que pôr o pé no freio da economia. Bush não quer isso. É matematicamente compreensível, mas democraticamente inaceitável. ?Para crescer, os americanos terão que poluir mais?, diz Marco Aurélio Busch Ziliotto, presidente do Instituto Ecoplan, respeitada entidade ambientalista de Curitiba, no Paraná. ?Isso não significa que eles possam remar contra todo o restante do planeta, virando as costas para os países em desenvolvimento.?
A Nova York do filme já está debaixo de camadas de gelo. Vê-se apenas uma ponta do Empire State Building coberto de branco até os últimos andares. Los Angeles já desapareceu do mapa. Os Estados Unidos são um deserto alvo, devastado por tempestades de gelo. A esta altura, é como se O Dia Depois de Amanhã fosse dirigido por Osama Bin Laden, dada a destruição. O presidente dos Estados Unidos, ilhado em Washington, a caminho do exílio, pergunta a Jack Hall: ?E as pessoas do Norte??. A resposta: ?É tarde demais para eles?.
O ?tarde demais? do filme tem um tom hollywoodiano, por já não haver mais tempo para salvar vidas, mas também de irônica realidade: é tarde demais, para os países ricos do Norte, porque eles já devastaram suas fontes naturais. Os EUA, hoje, são responsáveis por cerca de 35% das emissões mundiais de CO2. A Rússia responde por 17% do total. Os americanos põem no ar, anualmente, 5,5 toneladas de carbono per capita. No Brasil, essa taxa é de 0,48 tonelada para cada cidadão. Diante dessa constatação, da vasta diferença de estragos provocados pelas nações mais pujantes em comparação às pobres, deu-se um fosso econômico. Para compensar esse cenário, do Golias industrializado ante o Davi pobre, criou-se dentro do Protocolo de Kyoto um recurso destinado aos chamados países em desenvolvimento, como o Brasil, a China e a Índia. É o MDL, as iniciais de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. O MDL consiste no princípio que cada tonelada de CO2 deixada de ser emitida ou retirada da atmosfera, por um país em desenvolvimento, poderá ser negociada no mercado mundial, criando assim um atrativo mercado para a redução das emissões globais. Em outros termos: as nações poluidoras comprariam créditos de carbono das que não poluem tanto.
Para o Brasil, é uma excelente oportunidade, por abrigar imensas áreas próprias para reflorestamento capazes de reter o carbono ? e portanto aptas a serem transformadas em créditos de carbono. Estima-se, hoje, que o País possa participar deste mercado removendo cerca de 109 milhões de toneladas de carbono, num total de US$ 300 milhões de 2008 a 2012 (levando-se em conta o atual preço da tonelada de carbono, de US$ 3). Como ele pode chegar a US$ 10, o Brasil pode vir a receber cerca de US$ 1 bilhão em 5 anos. Mundialmente, o MDL poderá girar até US$ 9 bilhões. ?Numa simplificação, é como se os países ricos comprassem dos pobres o direito de poluir o ar?, diz Ziliotto. ?É uma economia à base de Robin Hood, que tira de quem tem para dar aos que pouco possuem?. De olho nesse movimento, que será deflagrado apenas depois da ratificação do Protocolo, já existem vários países, entre eles os EUA, que comercializam esses créditos. Cidadãos americanos compram por apenas US$ 1 papéis que agora são mero sonho mas podem virar ouro, quando de fato os EUA precisarem trocar sujeira no ar por dinheiro. Essas transações são realizadas por meio de uma Bolsa de Chicago, a Chicago Climate Exchange (CCX). De dezembro de 2003 a maio de 2004 foram comercializadas 886 mil toneladas de carbono nessa bolsa.
As bases deste tipo de troca, entre os países que têm meta de redução de emissões e os que não têm, nasceram de uma idéia do Brasil em 1997. Um dos pais dessa iniciativa foi José Domingos Miguez, secretário-executivo da Comissão Interministerial de Mudanças Globais de Clima, um dos grandes especialistas em todo o mundo. ?O que importa, em termos ecológicos, é a redução global de emissão de gases, que deve cair dos atuais 7 bilhões de toneladas de CO2 para 3 bilhões?, diz Miguez. ?De qualquer modo, a imposição de cotas mais rígidas para quem sempre poluiu mais, desde o início da Revolução Industrial, é um sinal positivo para os países em desenvolvimento, como o Brasil.? A crise ecológica, por direito e justiça, pode resultar em fortalecimento social de quem atravessou os séculos mais limpo. ?Os países industrializados agora terão que comprar o perdão, por não terem respeitado as normas ambientais preventivamente?, diz Miguez.
Na televisão, diante de um mundo arrasado, a repórter explica o que as imagens mostram, levas de americanos buscando exílio no México, na contramão do que ocorre hoje. Diz a repórter, microfone em punho: ?O tráfego voltou a fluir dos Estados Unidos para o México, porque o presidente americano admitiu perdoar a dívida externa dos países do Terceiro Mundo?
É mais fácil a Era Glacial começar já, amanhã, e não depois de amanhã, do que os EUA perdoarem a dívida do Terceiro Mundo. Os americanos, e o FMI, continuam a impor a países como o Brasil, em troca de empréstimos e redução de juros, um superávit primário doloroso. Essa intenção de perdoar talvez seja o instante de maior ficção do filme. Bush filho não perde chance de colar o nome de seu país a estudos de cientistas sérios, mas cujas informações podem interessar à sua visão de mundo. Um deles é Bjorn Lomborg, estatístico dinamarquês, um iconoclasta da ecologia, para quem exagera-se na defesa do meio ambiente. Em alguns de seus textos, ele diz que Kyoto custará entre US$ 150 bilhões a US$ 300 bilhões por ano para a economia mundial. Para efeito de comparação, o total de ajuda dada ao Terceiro Mundo é de US$ 60 bilhões por ano. Lomborg indaga: ?Estamos falando de gastar 3 a 6 vezes a ajuda total do Terceiro Mundo por ano. Se vamos realmente gastar tudo isso, por que não fazê-lo de modo mais inteligente?. Ele propõe, por exemplo, desembolsar US$ 200 bilhões para fornecer água limpa e condições básicas de saneamento para todas as pessoas do globo. Os relatórios do Pentágono americano usam essas informações para justificar a fuga do Protocolo. Lomborg irrita-se. ?Bush parece ter lido outro documento.? O governo americano ampara-se em gente inteligente para negar o tratado mas tampouco põe a mão no bolso para compensar essa desistência. Nesse aspecto, o final de O Dia Depois de Amanhã soa ridículo diante do que ocorre no atual jogo das relações internacionais entre o único império do planeta e o restante.
Na televisão, ligada no Weather Channel, o vice-presidente dos Estados Unidos, Becker (Kenneth Welsh), que assumira o comando do país com a morte do titular, começa a falar. Tem os olhos marejados quando fecha o discurso: ?Peço desculpas… somos hóspedes de nações que chamávamos de Terceiro Mundo. Sou grato pela hospitalidade?.
Nesse momento, ninguém mais tem dúvida: o cinema-catástrofe de O Dia Depois
de Amanhã é ficção-científica. ![]()
US$ 150 trilhões é quanto o mundo poupará, até 2012, caso o Protocolo de Kyoto seja adotado com a participação dos EUA |
US$ 300 bilhões é o valor estimado para a adoção do Tratado de Kyoto pelos 55 países obrigados a controlar a emissão de gases na atmosfera |
US$ 145 bilhões é a quantia estimada, em dez anos, com seguros contratados para desastres naturais provocados pelo aquecimento global |