30/08/2006 - 7:00
Em duas semanas, Amir Slama estará sobre a passarela do Bryant Park, palco da semana da moda em Nova York. Vai mostrar na capital do mundo a nova coleção de biquínis, roupas de banho e acessórios de sua Rosa Chá. Em breve, a próxima coleção estará nas vitrines de 42 pontos-de-venda nos EUA e de outras centenas de lojas na Ásia, África e Europa. Slama nem sabe dizer ao certo onde sua marca não está presente. ?Talvez em alguns países do leste europeu?, arrisca. Hoje, de sua produção de 500 mil peças anuais, 18% seguem para o mercado externo. Mas o número deve aumentar. Nos planos do estilista estão a abertura de 32 franquias em três anos.
Amir Slama, 41 anos, virou referência para os aspirantes a exportador. Em 18 anos de atividades na indústria da moda, conseguiu transformar a Rosa Chá em sinônimo de Brasil no Exterior. E o fez com produtos de alto valor agregado – uma conquista e tanto num país com vocação para vendedor de commodities. Slama ainda guarda a pasta com as primeiras fotos de seus modelitos. Foi com ela debaixo do braço que ele começou sua jornada pelo mundo. A história começa assim:
Fevereiro de 1991
A Rosa Chá tinha três anos de vida. Os biquínis criados por Slama e sua mulher, Riva, causaram boa impressão no mercado interno, principalmente em virtude do desenho e das cores. Mas Slama queria mais. Era preciso adotar uma nova textura nos produtos e criar novos tons. Ele procurou as tecelagens brasileiras, acostumadas a produções padronizadas e em larga escala. Nenhuma delas estava disposta a alterar máquinas e turnos para a demanda de Slama. Em fevereiro de 1991, nosso personagem raspa as economias e embarca para Paris. Era o mês da Première Vision, feira da indústria têxtil européia. ?O dinheiro era curto. Eu e Riva nos hospedamos em hotéis econômicos e compramos comida em supermercados para não gastar com restaurante?, lembra Slama. A dupla entrou na Première Vision com a cara, a coragem e uma pasta com recortes de revistas de moda brasileiras que mostravam seus produtos. Slama visitou vários estandes. Foi bem recebido e malsucedido na maioria deles. Até que a Billon Frères, uma tecelagem de Lyon, achou interessante a proposta do brasileiro. LIÇÃO UM: ouse, mesmo sem recursos. A ousadia sempre rende bons dividendos.
Março de 1991
A proposta era a seguinte: fazer uma nova textura, mais propícia para roupas de banho, e misturas de cores mais ousadas. Seria importante, ainda, que os tecidos estivessem nas mãos de Slama a tempo de o estilista apresentar sua coleção em junho, antes dos americanos e europeus. A tecelagem topou. Viu em Slama uma espécie de laboratório para testar a eficiência de suas máquinas e seus técnicos. ?No começo tinha que pagar a vista os tecidos. Com o tempo eles foram me concedendo prazos de 90 dias para pagar?, conta o empresário. LIÇÃO DOIS: encontre diferenciais. Se o que você quer não está por perto, vá buscar em algum lugar.
Ano de 1994
A data marcou uma mudança nas relações com fornecedores brasileiros. As tecelagens daqui falavam a mesma língua de Slama e já não se importavam em adaptar máquinas para suas exigências. A Rosa Chá reinava no País e suas peças começavam a ganhar o mundo. Ser um fornecedor da marca, portanto, era como ter um certificado de qualidade. Até 1994, 80% da matéria-prima que Slama utilizava vinha de fora. A partir daí, o empresário passou a dividir o fornecimento de insumos entre estrangeiros e brasileiros.
LIÇÃO TRÊS: Treine fornecedores locais. Além de contribuir com a modernização de seu setor, você pode baratear seus custos de produção.
Junho de 1995 ? Slama recebe o telefonema de uma representante da Gallerie Lafayete, de Paris, interessada na coleção da Rosa Chá. ?Vi algumas de suas peças em lojas daqui e acho que podemos fechar um acordo?, disse a moça. Acordo fechado e comemorações no escritório da Rosa Chá. A marca acabara de entrar em uma das vitrines mais famosas da Europa. Poucos dias depois da primeira remessa para Paris, Slama foi ver de perto sua conquista. E se decepcionou. Manequins com roupas indígenas desfilavam os biquínis Rosa Chá na vitrine. ?Não era minha proposta. A partir daí, descobri que o europeu anda tem uma imagem muito estigmatizada do Brasil. Briguei com a Europa?, afirma Slama.
LIÇÃO QUATRO: Respeito é bom e todo mundo gosta. Faça com que seu produto seja valorizado lá fora.
Maio de 1997 ? Era a vez da América. Slama desembarcou em Nova York em janeiro de 1997 para conhecer o mercado. Anotou o endereço e o contato das lojas que mais o interessavam e, de volta ao Brasil, começou a mandar cartas para estas casas. Três meses depois, retornou a Nova York já com o roteiro definido: apresentaria sua coleção para as lojas Barnes, Language e para pequenos estabelecimentos no Soho. Quase todas compraram as peças Rosa Chá.
LIÇÃO CINCO: Pesquisa de mercado nunca é demais. Com os dados corretos sobre quem procurar, você encurta o caminho para o sucesso.
Agosto de 1998 ? Com o sucesso de vendas em Nova York, Slama partiu para uma nova etapa, a escolha de um show-room na cidade. Não demorou para fechar acordo com uma casa, na 37th Street, que já trabalhava com outras marcas de moda. ?Ficamos, assim, com o nosso espaço de exposição no coração dos Estados Unidos?, diz Slama. Do coração, ele partiu para todo o território norte-americano. Em um ano, já contava 40 pontos de venda na terra da Victoria Secret (incluindo ela própria). LIÇÃO SEIS: Exposição é a chave. Mostre-se, faça barulho no mercado.
Ano de 1999 ? Várias viagens a Nova York para se encontrar com o pessoal da Seventh on Six, empresa organizadora da Semana da Moda na cidade. ?Foi tudo bem até eu ver os custos da exposição. Quase cai para trás?, conta Slama, sem revelar a quantia. ?Passei o ano de 1999 inteirinho em busca de patrocínio que viabilizasse nosso ingresso na Semana de Moda?. A lista de parceiros para a empreitada novaiorquina ia de fornecedores a fabricantes de jóias e calçados. A Rosa Chá conseguiu o dinheiro. E as modelos de Slama desfilaram com os sapatos do patrocinador, as jóias de outro parceiro, os tecidos de um terceiro… enfim, a marca estreou nas passarelas da Semana da Moda em setembro de 2000.
LIÇÃO SETE: Se não tem o capital, tenha bons contatos.
Setembro de 2001 ? Slama volta os Estados Unidos, sempre Nova York, para participar novamente da Semana da Moda. Seria seu segundo ano no evento. Seria, porque Slama desembarcou na cidade no dia 9 de setembro e dois dias depois, o World Trade Center era alvejado pelos ataques terroristas. ?A Semana da Moda aconteceria no dia 13 e obviamente foi cancelada. Fiquei mais de um mês nos EUA até conseguir voltar para o Brasil?, conta o empresário. ?Depois disso, a economia no mundo inteiro, e nos Estados Unidos em particular, sofreu um duro golpe. Era hora de tentar voltar a Europa?.
LIÇÃO OITO: O mercado retraiu? Não desiste. Busque um novo espaço.
Abril de 2006 ? Após um ano e meio de negociações, Slama fecha um acordo com a Marisol. ?Precisava de escala. A demanda interna e externa estava muito forte?, conta o empresário. Slama ficou com 25% da Rosa Chá e a Marisol com 75%. Mas é o estilista quem continua à frente do negócio. O próximo passo: aumentar as franquias pelo mundo. Hoje, existem duas, em Miami e Lisboa. Mas há solicitações da Itália, Espanha e dos Países Árabes. A meta de Slama é somar 32 franquias em três anos. LIÇÃO NOVE: Expandir é preciso. Se a marca está tão prestigiada no exterior, por que não partir para pontos de venda exclusivos?
Setembro de 2006 ? Viagem a Nova York. Nova Semana de Moda. Novos negócios. Novas vendas. Lá vai Amir Slama para o avião. De novo.
LIÇÃO 10: Não pare. Bastam alguns meses sem exposição e sua marca perde a força. ![]()