A frase que melhor resume a debàcle de Fernando De La Rúa foi cunhada na mesma noite da sua queda, à luz das fogueiras que iluminavam a Praça de Maio: governou para o mercado, foi derrubado pelo povo. À medida que o tempo passe, explicações mais elaboradas irão surgir para essa nova catástrofe que se abateu sobre a Argentina. Mas a verdade simples e essencial da frase não deve mudar: o ex-presidente traiu seu mandato e foi punido. Eleito com a promessa de proteger a população e o Estado argentino dos excessos liberais do período Carlos Menem, De La Rúa acovardou-se, trocou de lado e passou dois anos na Casa Rosada fazendo o contrário do que prometera. Transformou-se no fiel guardião dos equívocos de Menem e mostrou-se incapaz de romper com as ortodoxias que seu antecessor implementara. Entre elas, soberana, a convertibilidade. Ao final, seu único lema de governo era conquistar a confiança dos mercados financeiros, ainda que isso implicasse em destruir a economia e o tecido social do país. Deu no que deu. Aliás, se o povo não tivesse perdido a paciência e incendiado o circo, talvez o presidente e Domingo Cavallo ainda estivessem discutindo, até hoje, um novo corte nas aposentadorias para ajustar-se à redução de gastos exigida pelo FMI. Eles estavam simplesmente desmanchando o país.

Por triste que tenha sido, por incerto que ainda seja, o erro argentino ilumina o caminho. Agora se vê, por exemplo, do que o Brasil livrou-se ao sacar Gustavo Franco do Banco Central e permitir que o real flutuasse livremente contra o dólar em janeiro de 1999. As políticas de câmbio e juros do professor da PUC estavam destruindo a indústria brasileira e fomentando uma das maiores explosões da dívida pública da história brasileira. Se não houvesse no Brasil um empresariado e uma elite intelectual capazes de opor-se a ele, talvez o Brasil tivesse chegado ao ponto de não-retorno em que a Argentina chegou antes de incendiar-se. Franco era o nosso Cavallo, mas Fernando Henrique recusou-se a ser De La Rúa.

Com o exemplo argentino fica evidente que nenhuma idéia econômica abstrata, nenhum analista de mercado estrangeiro deve contar mais que os interesses reais de um país e dos seus habitantes. A prioridade de qualquer governante deveria ser o bem estar de seus eleitores. Os trabalhistas britânicos de Tony Blair são modernos e liberais, mas respeitam o tradicionalismo das suas elites que não querem sacrificar a libra à moeda comum européia. O Japão, embora segunda potência econômica do mundo, não se envergonha de proteger seus bancos e suas indústrias com dispositivos que fariam corar um defensor do laissez-faire. Mesmo os Estados Unidos, riquíssimos, terminaram 2001 estabelecendo bem claros os limites protecionistas para a sua participação na Zona de Livre Comércio das Américas. A regra básica que emana desses exemplos parece ser que os países ricos defendem com unhas e dentes suas economias, seus empregos e seu modo de vida. Em três palavras, governam para dentro. Apenas os pobres, em português, castelhano ou russo, abrem mão dos interesses e das conquistas nacionais para cortejar idéias abstratas, supostamente superiores, que trarão ordem e disciplina ao caos econômico. O pior é que, depois de implementadas, essas idéias fora de lugar se convertem em pedra, geram ao redor delas uma miríade de interesses e tornam-se, de acordo com a crença comum, irremovíveis. Isso aconteceu com a convertibilidade. Cavallo a transformou em dogma e De La Rúa foi incapaz de derrubá-lo. Sua precoce decapitação política sugere que a única lei possível para os governantes sábios é a administração pragmática das necessidades do país. Ou isso ou a justa fúria das ruas.