21/08/2002 - 7:00
Sem alarde, a General Motors do Brasil vem preparando um de seus projetos mais originais. Não se trata de um novo carro popular, tampouco de um motor superpotente. Em meio às pistas do campo de provas de Cruz Alta, em Indaiatuba (SP), o que se vê são intermináveis fileiras de pés de milho e macadâmia. Isso mesmo. Desde 1995 a montadora tem dedicado 200 hectares do terreno para a agricultura. A produção começou sem grandes pretensões ? era apenas uma forma de ocupar o vasto campo que circunda as
pistas para teste. Mas a idéia vem dando frutos: na última safra, foram colhidas 370 toneladas de milho e 13 de macadâmia. O resultado pode ser visto no balanço financeiro como ?serviços terceirizados? e aponta para US$ 42,5 mil. ?Este não é e nunca vai ser nosso principal negócio. Portanto, o que vier está ótimo?, diz Ricardo Bogar, gerente geral do campo de provas e de ?administração agrícola?.
A receita com a venda das sacas é irrisória dentro de uma companhia que fatura US$ 2,8 bilhões no ano, mas é no mínimo curioso ver os engenheiros da montadora falando com desenvoltura em adubo, tratores e preços de commodities. Não existe na empresa um especialista na área agrícola responsável pela plantação. Bogar, engenheiro civil por formação, acabou se tornando um agrônomo pela situação. Leu sobre o assunto, conversou com outros produtores. Hoje, é capaz de discursar sobre as ações maléficas das formigas e sobre a idade das plantas. Foi dele a idéia da macadâmia, um tipo de noz pouco comum nas prateleiras brasileiras, mas muito valorizada no mercado internacional. ?Requer pouco investimento e pouca mão-de-obra?, resume Fernando Penteado, outro engenheiro do campo de provas da GM que dá seus primeiros passos no setor rural. Juntos, Bogar e Penteado falam até em breakeven (equilíbrio das contas) da atividade agrícola, uma expressão típica do mundo dos negócios. Os planos trazem, inclusive, previsões de produção e receita. Se as contas dos engenheiros estiverem corretas, até 2014 a safra de macadâmia com a marca GM será de 400 toneladas. O faturamento pode chegar a US$ 300 mil.
Ao contrário dos automóveis ? que têm sobrado aos montes nos pátios das montadoras ? não faltam compradores para a macadâmia. O produto tem cliente garantido: a Queen Nuts, que vende o produto para o exterior. O milho da GM também tem compradores cativos, todos concentrados no interior de São Paulo. Daqui a 20 anos, um terceiro produto fará parte dos negócios. A montadora já está plantando as primeiras mudas de mogno, madeira nobre, e tudo indica que a empresa terá licença para o corte e comercialização das árvores. Por enquanto, 15 pessoas cuidam diretamente da lavoura, ?o essencial para não exceder as despesas?. As máquinas para tratamento foram compradas em 1972, quando a GM adquiriu o terreno em Indaiatuba e precisava tratá-lo para construir as pistas. Ou seja, as despesas são praticamente nulas. ?Por enquanto, estamos investindo R$ 100 mil para manter a fazenda, mas a partir de 2007 teremos custo zero. Aí, é só lucro?, diz Penteado. Nada mal para um negócio sem grandes pretensões.