A diplomacia brasileira sempre foi conhecida pelo profissionalismo de seus quadros, pela amplitude de suas concepções e pela discrição de seus métodos. Na semana passada, durante o Fórum Econômico do Mercosul, no Rio de Janeiro, ficou claro que a parte discreta dessa tradição está sumindo. Aproveitando a audiência internacional e a presença de homens de negócio, o governo brasileiro, em suas várias áreas, mergulhou num feroz e vocal comercialismo ? dirigido contra o protecionismo no Hemisfério Norte. ?O Brasil não pode abrir mais um milímetro da sua economia sem que o outro lado permita acesso ao seu mercado agrícola?, exigiu o ministro Pratini de Moraes, da Agricultura, dando o tom do encontro. ?De agora em diante, é toma lá, dá cá.?

Anos atrás, é possível que uma afirmação desse tipo fosse recebida com reservas no front interno, onde não desapareceu o sentimento de que é melhor sofrer calado que arrumar encrenca. Na semana passada isso não aconteceu. O ministro Pedro Malan, responsável pela delicada diplomacia financeira do Brasil, aderiu incondicionalmente às exigências do colega. ?Cada um de nós tem seu estilo pessoal, mas a posição de todo o governo é denunciar a diferença entre o que os países ricos pregam e o que fazem?, disse Malan durante o Fórum do Rio. O setor privado também alinhou-se ao novo radicalismo. ?O ministro Pratini está totalmente correto?, avalia Luiz Fernando Furlan, presidente do conselho da Sadia, uma das maiores exportadoras brasileiras. ?O toma lá, dá cá é necessário.? Ou, nas palavras de Horácio Lafer Piva, presidente da moderada Fiesp: ?O Brasil tem de assumir posições de enfrentamento. Nós abrimos nosso mercado e eles continuam protecionistas. Uma atitude passiva não vai nos ajudar em nada?.

Uma conspiração de cansaços antigos e recentes explica a nova atitude brasileira. O mais recente é com o apetite inesgotável dos americanos para fazer exigências. Nos dias que antecederam o Fórum do Rio, aberto no último dia 7 pelo presidente Fernando Henrique, tanto a secretária de Estado Madeleine Albright quanto Charlene Barshefsky, secretária de Comércio dos Estados Unidos, haviam ameaçado o Brasil com novas investigações comerciais e denúncias por violações de patentes. Na parte mais antiga e estrutural do contencioso, que também diz respeito aos europeus, cristaliza-se a sensação de que, a despeito dos discursos, os mercados do Norte continuarão inacessíveis aos produtos em que o Brasil é mais competitivo. Barreiras tarifárias e não-tarifárias vão sendo erguidas ao sabor das necessidades internas de europeus e americanos. Nas negociações atuais da Organização Mundial do Comércio (OMC) e em torno da criação da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, os diplomatas brasileiros sentem-se pressionados a promover uma nova onda de abertura nos mercados industriais e de serviços. Mas não recebem qualquer garantia de que o mercado agrícola do Norte será aberto. Daí a explosão calculada de Pratini, que afirmou durante o Fórum que os americanos só venderão trigo ao Brasil se abrirem seu mercado à carne brasileira. Foi um vistoso pontapé, mas nos corredores do encontro dizia-se coisa pior. Um diplomata brasileiro que conhece o pensamento do ministro Luiz Felipe Lampreia garantiu à DINHEIRO que o Itamaraty não vai se mexer pela Alca antes que os EUA façam um claro gesto de boa vontade na área agrícola. Por exemplo, derrubando as barreiras sanitárias contra a entrada de carne brasileira.

O Fórum deixou clara outra novidade para a diplomacia comercial brasileira ? a necessidade de atuar em frente unida com o restante do Mercosul. As negociações na Alca e na União Européia estão sendo feitas em bloco, e as chancelarias argentina e brasileira ensaiam uma harmonia que nunca existiu antes. Até agora o dueto tem funcionado. O chanceler Adalberto Giavarini exibiu no encontro do Rio uma disposição infinita de explicitar a concordância na rejeição ao protecionismo comercial. ?A Argentina tem, como o Brasil, uma posição muito firme na questão agrícola?, disse o ministro. Mas ele concorda com a condição enunciada por Pratini de não ceder nada antes que os americanos concedam algo? ?Esse é o ABC da negociação?, disse o ministro à DINHEIRO. ?Nenhum país soberano aceitaria que fosse diferente.? Se o acerto é claro entre os governos, entre agentes privados a situação é menos certa. Furlan, da Sadia, diz que ainda é preciso ?ensaiar melhor? as posições comuns na hora de negociar. O descompasso fica evidente quando se conversa com Enrique Mantilla, presidente da câmara de exportadores argentinos. ?Minha posição é de que precisamos construir espaços de comércio?, diz ele, conciliador. Mantilla não manifesta o menor entusiasmo pelo confronto com os americanos. Até porque, lembra, o mercado dos EUA, apesar das restrições, é muito mais acessível do que o europeu. Ele parece não acreditar que os países do Mercosul possam exigir demais para criação da zona de livre comércio do hemisfério. ?Se todos os países do Continente entrarem na Alca nós ficaremos de fora??, pergunta.

A pergunta não é descabida. Como todo confronto com os Estados Unidos, o atual terá de se haver uma hora ou outra com o vigor do adversário e o tamanho da dependência econômica em relação ao seu mercado. Diplomatas brasileiros como José Alfredo Graça Lima lembram que ?toda negociação é viril, mas que os dois lados sabem que precisam ceder algo?. O problema nesse raciocínio correto é que existe a impressão generalizada de que o Brasil já cedeu demais ? e obteve pouco ou quase nada em troca. ?O sujeito que entrar nas negociações da Alca sem fazer exigências prévias tem de ser preso?, exalta-se Jório Dauster, diplomata de carreira e atual presidente da Companhia Vale do Rio Doce. Um dado positivo do novo cenário é que parece ter desaparecido o medo ancestral aos ?homens de olhos azuis?. Tanto os diplomatas quanto Pratini e os empresários repetem que a posição brasileira é perfeitamente sustentável. Piva, da Fiesp, admite que o confronto pode trazer constrangimento diplomático, mas não prejuízo comercial. ?Temos de acabar com a mentalidade de país periférico?, diz o industrial. ?Ninguém mantém uma espada sobre a cabeça do Brasil.?