AO CHEGAR AO SHOWROOM DA LANCASTER, empresa têxtil de Jaraguá do Sul, um computador de 52 polegadas possibilita a simulação de estampas de tecidos que o cliente quer comprar. “Ele entra com uma idéia e sai com a coleção pronta, porque sugerimos também o que fazer com cada modelo”, afirma o diretor de marketing da empresa, André Lobe. Há três anos, a empresa, que acaba de completar 25 anos, nem pensava em sugerir algo assim para o mercado de moda. Controlada pela família Lobe, a Lancaster era considerada uma empresa velha, sem viés de crescimento. “Antes, só vendíamos a capacidade de produzir. Nunca sugeríamos nada referente ao design”, diz Lobe. Hoje, a Lancaster quer ser a maior estamparia do País, o que, segundo ele, acontecerá em 2009, com a chegada do novo maquinário. A produção anual de 4,5 milhões de quilos deve crescer 20%. Novos equipamentos e instalações consumirão R$ 2,5 milhões. “Devemos essa nova maneira de pensar ao projeto Santa Catarina Moda Contemporânea (SCMC) “, afirma Lobe.

Criada há quatro anos, a SCMC surgiu da união de jovens empresários do setor de confecção do Estado com o objetivo de agregar valor aos seus produtos. Dessa forma, apostam em moda e design e fogem da concorrência dos asiáticos, quase imbatíveis em commodities. As fabricantes têxteis respondem por apenas 8% das exportações catarinenses, embora formem um dos mais importantes pólos industriais do Estado. Para reverter essa situação, 13 empresas que, juntas, faturam R$ 1 bilhão, uniram-se para trocar informações sobre tendências de moda. Antes, porém, foi necessário quebrar algumas barreiras que, naturalmente, separam concorrentes. “Em um dos encontros ocorridos na Karsten, em que estava presente o presidente da Buettner, percebemos que, em mais de 100 anos de existência de ambas empresas, nenhum dos sucessores havia pisado no território do outro”, comenta Giuliano Donini, presidente da Marisol, cujas receitas somam R$ 420 milhões. “Nós concorremos uns com os outros, mas precisamos pensar em diferenciais para expandir.”

Sob a supervisão do estilista Mário Queiroz – e, até o ano passado, também do especialista em moda e luxo Carlos Ferreirinha -, os empresários reúnem-se em workshops de moda e encontros mensais com a presença de Queiroz, dos empresários e de 13 instituições de ensino, como o Senai. Cada empresário paga mensalidade de até R$ 3 mil, dependendo da receita de sua empresa. O resultado de toda essa discussão culmina em um desfile conceitual, elaborado pelos estudantes dessas escolas. Ao final, muitos dos jovens estudantes são contratados pelas companhias.

Nesses encontros, além da troca de informações, brotam negócios. A Maré Cheia, voltada para o segmento premium, passou a utilizar principalmente matéria-prima das associadas do projeto, como as rendas da Hoepcke, os tecidos da Renaux Vieux e as malhas da Dalila. “Algumas, com preços mais competitivos”, afirma Jaison Bogo, dono da Maré Cheia e presidente da SCMC. A empresa ainda tem faturamento modesto, de R$ 6 milhões por ano, mas já apresenta no portfólio de clientes marcas consagradas como Le Lis Blanc, Side Walk, Dzarm, Zara e Zoomp. Os conceitos da SCMC também foram incorporados pela malharia Dalila há dois anos. Até pouco tempo, suas coleções eram voltadas para os públicos B, C e D. Desde que assumiu a liderança, o herdeiro, André da Silva, começou a mirar um público mais elitizado, com moda de vanguarda. Assim que mudou o foco, as receitas dobraram. E a produção também. Este ano, a Dalila deve faturar R$ 106 milhões, com produção mensal de 450 toneladas. “A troca de informações com os empresários do SCMC tem me ajudado a direcionar o negócio.”

O último encontro foi no casarão da tradicional família Hering. “Santa Catarina tem tradição no segmento têxtil, mas na moda é imprescindível apresentar diferencial e o SCMC tenta difundir a importância disso tanto no meio universitário quanto no empresarial”, comenta o diretor administrativo da Hering, Carlos D’Amaral. “Claro que todos mantemos nossos segredinhos industriais, mas o lema é democratizar a informação.” Nas palavras de D’Amaral, um dos herdeiros do grupo, a Hering – que fechou receita de R$ 442,6 milhões no ano passado – dá mostras de que tanto pequenos como grandes aderiram à idéia no Estado. Mas para as grandes corporações assimilar novas idéias é um processo mais demorado. Com faturamento de R$ 130 milhões e 51 anos de existência, a Dudalina, uma das maiores camisarias do País, arrematou o passe de três estilistas oriundos das instituições de ensino envolvidas com o projeto. “Esses profissionais trouxeram idéias que possibilitaram aumentar ainda mais nossa competitividade”, afirma a presidente, Sônia Hess. Para ela, o projeto possibilita um entendimento melhor do que é o design, os negócios e a gestão de pessoas. “Cada empresa vivia sua própria vida. Hoje, temos uma meta comum: mostrar nosso produto para outros mercados.”

“MANTEMOS NOSSOS SEGREDOS INDUSTRIAIS, MAS O LEMA É DEMOCRATIZAR A INFORMAÇÃO”
CARLOS D’AMARAL, DA HERING