21/04/2004 - 7:00
Fazia tempo que não se via uma fila tão grande de autoridades para receber um empresário. Nada menos que sete ministros, dois chefes de estatais e o próprio presidente da República pararam para ouvir o chinês Wang Jun na última semana. Jun esteve com o presidente Lula, os ministros José Dirceu, Antônio Palocci, Guido Mantega, Luiz Furlan, José Viegas, Celso Amorim e Dilma Roussef, além dos comandantes da Petrobras, José Eduardo Dutra, e do BNDES, Carlos Lessa. Seu tratamento foi de chefe de Estado porque pouca gente no mundo carrega tantos bilhões na carteira. Jun é chairman da China International Trust and Investment Corporation (Citic), agência criada pelo governo chinês para investir em outros países. Hoje a Citic controla alguns dos maiores bancos da China, possui 44 subsidiárias, tem US$ 100 bilhões em ativos e, em 2004, elegeu o Brasil como foco prioritário da sua expansão internacional. ?Nossas economias são complementares?, disse Jun à DINHEIRO. ?Buscamos uma aproximação estratégica e duradoura.? A Citic já aprovou uma verba inicial de US$ 3 bilhões para projetos no Brasil. ?Vamos investir nas áreas de ferrovias, estradas, alimentos, logística e petróleo?, afirmou Jun. Um dos primeiros negócios será uma joint-venture com a Petrobras para extrair petróleo em águas profundas. Jun também estuda projetos de construção de uma saída ferroviária para o Pacífico, que reduziria o custo do escoamento da soja e do minério para a China.
A escolha do Brasil pela Citic tem relação direta com o processo
de industrialização e urbanização da China. Calcula-se que, em 17 anos, 500 milhões de chineses serão deslocados do campo para as cidades. É um fenômeno que muda hábitos alimentares e amplia a demanda por matérias-primas, num país que cresce 10% ao ano.
?A China está se tornando dependente do Brasil?, avalia Renato Amorim, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil/China, que será oficialmente lançado em Pequim, no fim de maio, durante a missão do presidente Lula ao país. Prova disso é o crescimento das exportações brasileiras, que saltaram de US$ 676 milhões, em 1999, para US$ 4,3 bilhões em 2003. ?Só 15% das terras na China são agricultáveis e todas estão sendo exploradas?, afirma Paul Liu, presidente da Câmara Brasil/China de Desenvolvimento Econômico. ?O Brasil tem tudo para ser o maior fornecedor de alimentos do país.? Algumas das últimas missões chinesas que vieram ao Brasil chegaram até a pesquisar terras no Mato Grosso para produzir soja. ?A China virou a principal base industrial do mundo e quer fazer do Brasil sua plataforma de fornecimento de matérias-primas?, diz a consultora Emília Higashi, do Monitor Group.
A Citic chegou ao Brasil pelas mãos do grupo Brasilinvest, do empresário Mário Garnero, que será o sócio local nos empreendimentos em infra-estrutura. ?Vamos viabilizar projetos nos moldes das Parcerias Público-Privadas?, diz Garnero. A sociedade consolida uma semente lançada em 1981, quando o Brasilinvest organizou uma missão à China e foi o primeiro grupo nacional a instalar-se em Pequim. ?Fomos quando pouca gente pensava em China?, diz Sansão Woiler, vice-presidente do grupo. ![]()