05/12/2007 - 8:00
Sam-Ki Jeon está atrasado. Engarrafado pelo louco trânsito de Seul, especialmente caótico nesse final de novembro por conta das primeiras nevadas de inverno, o diretor do centro de design e pesquisas da Kia, em Namyang, não conseguiu chegar a tempo no quartel-general da empresa para a abertura de um evento de recepção a jornalistas estrangeiros. O assento vago de Mr. Ki fica na ponta da mesa reservada para os executivos da companhia ? o que facilita a sua discreta entrada no recinto. Curiosamente, o lugar central é ocupado pelo único dos senhores de gravata que não apresenta olhos puxados. A cena é emblemática do esforço da Kia em ser reconhecida como uma marca global. A outra aposta nessa direção é a abertura de fábricas no exterior. China e Eslováquia já têm suas próprias indústrias, e uma nova linha de produção e montagem será inaugurada nos Estados Unidos até 2009. Está praticamente certo que a próxima será no Brasil.
Peter Schreyer, o homem no centro da mesa, traz em seu currículo lançamentos de alguns ícones sobre rodas como o New Beetle e o Audi TT. Ele assumiu a posição de chefe de design da Kia em setembro de 2006. O alemão, ex-Audi e Volkswagen, chegou com a missão de renovar progressivamente a frota de veículos, e consolidar a transformação da marca coreana. Popularizada como uma montadora de carros pequenos e baratos, a Kia concentra esforços para tornar-se premium. ?Todos os aspectos de um carro são importantes, mas só o design toca o coração do consumidor?, repete, como um mantra, Schreyer. Em outra frente, para enterrar de uma vez o estigma da Besta e fazer a Kia ser reconhecida como uma grife jovem e dinâmica, os coreanos investem em marketing esportivo. A marca patrocina a versão asiática dos X-Games (a olimpíada dos esportes radicais) e fechou parceria com a Fifa até a Copa do Mundo de 2014.
Um bom teste para as pretensões internacionais da Kia é o lançamento de um novo SUV nos EUA. Batizado de Borrego para o mercado americano (se chamará Mohave na Coréia), o veículo será mostrado ao público no Salão de Detroit, em janeiro de 2008. Especialmente concebido para satisfazer os consumidores americanos, o Borrego será o primeiro automóvel da companhia equipado com motor V-8 (haverá também uma versão V-6). A experiência coreana na terra de Tio Sam, onde hoje detém cerca de 1,8% de participação de mercado, terá o suporte de uma fábrica na Geórgia, com capacidade de produção de 300 mil carros anuais e investimento de US$ 1,2 bilhão, dois centros de pesquisas e design (em Los Angeles e Detroit) e um campo de testes no deserto de Mojave, na Califórnia.
No ultramoderno centro de pesquisas e design de Namyang, os carros enfrentam testes de segurança, eficiência e nível de ruído
Quando a linha de montagem americana estiver funcionando a todo vapor, em 2009, a capacidade total de produção da Kia no exterior irá superar a marca de um milhão de veículos. Há pouco mais de um ano, este número mal passava dos cem mil, com apenas uma fábrica na China. A proporção entre vendas domésticas e externas é mais um indicador da globalização da marca. Em 2002, os índices se equivaliam.
Hoje, as vendas fora da Coréia do Sul representam 80% do total.
Apesar da recente reformulação no conceito e na frota da empresa, no Brasil a Kia ainda é associada a seus dois grandes sucessos, o utilitário Besta e o SUV compacto Sportage. A trajetória histórica deve ganhar novos rumos em breve, com a fabricação de veículos no País. O vice-presidente do grupo de estratégia global, Seung-Tack Kim, adotou cautela ao falar do projeto. ?Queremos estabelecer a marca na América do Sul, e o Brasil é o mercado mais interessante da região. Provavelmente no ano que vem tomaremos uma decisão sobre produzirmos carros no Brasil?, afirmou. DINHEIRO apurou que o negócio entre a Kia Motors do Brasil e o Grupo Hyunday (dono da companhia coreana desde 1998) está praticamente fechado, com a possibilidade de aquisição das instalações de uma montadora no Sudeste. Outro caminho é a construção de uma fábrica nova, a ter sua produção dividida com a Hyundai Motors. Um entrave para esses planos podem ser antigas pendências judiciais do grupo Hyundai com o governo brasileiro, relativas a benefícios fiscais concedidos no final da década de 90 à Asia Motors (que foi comprada pelo grupo Hyundai junto com a Kia Motors) para a construção de uma fábrica na Bahia ? que nunca foi além de sua pedra fundamental.