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Um gesto discreto mas significativo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou desapercebido pela multidão que acompanhou sua posse em 1º de janeiro. Ao cumprimentar o embaixador da China no Brasil Jiang Yuande, Lula cochichou em seu ouvido: ?Gostaria de visitar seu país ainda este ano?. No dia seguinte, Yuande repassou a notícia para Pequim e agora espera o Itamaraty apresentar uma proposta de data para organizar o evento. Pode parecer estranho que Lula, no momento mais importante de sua vida, tenha se detido para dar um recado a um embaixador de outro país. Mas para um governo que assumiu prometendo colocar o comércio exterior como prioridade, a deferência aos chineses não deveria causar surpresas. Dona de 5% do comércio mundial, com taxas de crescimento superiores a 8% e população de 1,3 trilhão de pessoas, a China tem tudo para se tornar a próxima fronteira para as exportações brasileiras. A marcha rumo ao Oriente está acelerada. Em 2000, o comércio entre os dois países cresceu 60%. Outro salto, de 75%, foi dado em 2001. No ano passado, o índice ficou em 32% – ou seja quase 300% em três anos.

 

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Santanas em Xangai: Em março será a vez do Gol brasileiro

 

É verdade que no período anterior a essa fase os negócios despencaram por força da crise asiática de 1997 e da política de paridade cambial brasileira. Mas, mesmo assim, o volume de comércio atingiu um patamar inédito em 2002 e somou US$ 4 bilhões, com um superávit a favor do Brasil de US$ 1 bilhão. ?Queremos fazer parcerias políticas e tecnológicas estratégicas com os chineses?, explica Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores. O interesse do outro lado também parece grande. ?Estamos extremamente ansiosos para receber Lula e incrementar as parcerias?, afirma o ministro-conselheiro econômico e comercial da China no Brasil, Qi Linfa. Ano passado, 18 mil empresários e executivos chineses estiveram no Brasil em busca de negócios. O número de brasileiros fazendo o caminho inverso foi metade disso.

 

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Nos céus do Oriente: A Embraer vai disputar uma demanda de 230 aviões de 30 a 50 lugares

 

A estatal China Tabacco instalou uma filial na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, pólo de produção de fumo. Para cá despachou um de seus funcionários, Sun Nan. A cada ano, o volume de fumo exportado para a China aumenta. Em 2001, foram 17 mil toneladas. No ano passado, outras 22 mil. ?O produto brasileiro tem excelente qualidade e bom custo?, diz Nan. Linfa acredita que os negócios entre os dois países possam dar pulos. ?Podemos elevar o comércio bilateral a US$ 10 bilhões em cinco anos?, calcula. ?A barreira é que a China não conhece os produtos brasileiros nem o Brasil conhece os potenciais da China.? Qualquer conversa nas ruas e escritórios de Xangai e Pequim, os dois principais pólos empresariais chineses, revela um profundo desconhecimento em relação ao Brasil. De taxistas a empresários, poucos, pouquíssimos, têm informações sobre o País. Há, inclusive, os que não o conhecem. Em um território em que a bebida mais popular é o chá e não o café, a grande referência brasileira é o futebol. Uma visita de Pelé há dois anos ainda é lembrada com alegria pelos chineses. ?O Brasil deveria aproveitar a popularidade do futebol para promover seus produtos, associando a genialidade dentro dos campos ao que é fabricado no mercado brasileiro?, afirma Guan Dong Yuan, diretor para a China da Embraer.

O desconhecimento do Brasil ainda não afeta muito os negócios na China. Há poucos produtos de consumo sendo exportados para lá ? e, nesse caso, a origem pesa muito na decisão de compra por parte do consumidor. A pauta é diversificada (são 957 itens), mas está concentrada em produtos primários. Ano passado, o Brasil exportou para a China US$ 813 milhões em soja, US$ 375 milhões em minério de ferro, US$ 55 milhões em automóveis e peças e US$ 22 milhões em aço. O próximo item é suco de laranja, com apenas US$ 6 milhões. Mas itens de maior valor agregado estão ganhando espaço. Em 2002, o volume de vendas para a China se manteve estável em 35 milhões de toneladas, enquanto o valor total subiu 35%.

 

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Fábrica da Embraco: Produção duplicada dentro de dois anos

 

Não é por outra razão que o acordo entre a Embraer e a Avic 2 é considerado como um divisor de águas na relação comercial entre os dois países. ?É o primeiro grande investimento brasileiro com conteúdo tecnológico no território chinês?, diz Yuan. Yuan nasceu em Pequim e morou no Brasil. É mosca branca entre os executivos ? chinês que fala português e conhece o universo empresarial brasileiro. Essas características foram fundamentais para o fechamento do negócio. As conversas se estenderam por um ano e Yuan as conduziu. ?A estrutura do governo chinês é complexa e pouco transparente. É difícil descobrir quem são as pessoas-chave em cada ministério?, conta ele. Yuan investiu no relacionamento pessoal. Promoveu 20 viagens de técnicos e autoridades chinesas ao Brasil. O presidente da Embraer Maurício Botelho viajou para lá outras tantas ? algumas vezes passava 72 horas dentro de aviões para ficar apenas 24 horas. O escritório da Embraer, em um moderníssimo complexo empresarial de Pequim, é cuidadosamente decorado com motivos brasileiros e chineses na mesma proporção. Onde há uma bandeirinha do Brasil, há outra da China, por exemplo. Quinze pessoas trabalham ali e todas são chinesas, algumas contratadas junto a órgãos públicos.

 

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Pelé na China: Falta divulgação de produtos brasileiros

 

O esforço deu resultado. No final de 2003, a primeira aeronave Embraer/Avic será montada em Harbin, a 1,2 mil quilômetros de Pequim. Nos próximos 20 anos, haverá uma demanda de 230 aviões de 30 a 50 lugares no país. A Embraer terá uma posição privilegiada, pois será a única companhia do setor com produção local. ?É uma vantagem competitiva importante?, diz Renato Amorim, da Embaixada Brasileira em Pequim. ?O mercado consumidor é disperso e a logística, complexa.? Isso ajuda a explicar por que há poucos produtos de consumo brasileiros no País. O automóvel Gol será exceção. Desde dezembro, o carro brasileiro está sendo exportado e montado em Xangai. A partir de março, eles ganharão as ruas chinesas. Vão pegar carona no sucesso do Santana, o carro mais vendido no país, e na liderança de mercado da Volks. Numa ?estimativa conservadora?, diz Krueger, 31 mil veículos deverão ser comercializados em 2003. Para os próximos anos, a previsão sobe para 50 mil. O Gol foi escolhido numa espécie de concorrência interna entre as filiais do grupo alemão. ?A Volks da China precisava de um carro de entrada e o Gol é o que mais atende às características do mercado local?, diz o alemão Bertold Krueger, vice-presidente de exportações da Volkswagen no Brasil. ?Se não tivéssemos uma subsidiária lá não seria possível exportar.?

Foi esse raciocínio que levou a Embraco a fincar a bandeira brasileira no mercado chinês. Em 1997, comprou metade do capital da Snowflake, fabricante de eletrodomésticos. Com o tempo concentrou a produção em compressores para geladeiras e freezers. A antiga fábrica,
localizada num bairro pobre de Pequim, ainda mantém as instalações dos tempos em que era uma estatal. Os alojamentos para operários, item obrigatório nas antigas estatais, servem hoje de depósito. Agora, a Embraco está finalizando o projeto para a construção de uma nova unidade industrial. Com ela, a capacidade de produção vai saltar dos atuais 1,7 milhão para mais de 3 milhões. ?Há enorme espaço para o aumento nas vendas de eletrodomésticos?, diz Liu Cheng, gerente geral da Embraco na China. ?Vamos acompanhar esse crescimento.?

Colaborou Hugo Studart