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TRANSIÇÃO GRADUAL: Havana recebe novos investimentos, o que ameaça ruir o projeto socialista de Che Guevara

 

CHE GUEVARA CONTINUA reverenciado, tratado como exemplo a ser seguido. Fidel Castro, embora afastado da Presidência há quase três anos, ainda é o principal regente do destino dos cubanos, mas Cuba já não trata o capital internacional e os investimentos privados como inimigos número 1 da revolução. Pelo contrário, na ilha caribenha há um visível esforço na busca de investimentos estrangeiros. ?Temos mais de 220 empresas cubanas compostas por capital estrangeiro e não criaremos nenhuma dificuldade para que venham outros investimentos produtivos?, diz o recém-empossado diretor de promoção e publicidade da Câmara de Comércio de Cuba, orlando Gutierrez.

Os resultados numéricos desses investimentos na ilha de Fidel não são revelados. entretanto, as ruas de havana indicam que uma nova Cuba começa a ser desenhada. os automóveis fabricados nas décadas de 1940 e 1950, que imprimiam à capital a imagem de um país absolutamente fiel aos princípios revolucionários de 1959, agora não reinam absolutos no cenário cubano. dividem espaço com reluzentes coreanos, franceses, alemães, japoneses e outros carrões que circulam nas avenidas dos países mais desenvolvidos. Ainda não formam a maioria, mas eles estão lá. Boa parte dessa moderna frota carrega placas azuis. Traduzindo a burocracia cubana, isso significa que são automóveis pertencentes a pessoas jurídicas.

Com 11 milhões de habitantes, uma renda per capita de US$ 1,9 mil ? inferior à de Sergipe ? e vivendo uma incerta transição política e econômica, Cuba ainda não é um porto seguro, mas empresas de várias partes do planeta começam a olhar a ilha como opção estratégica, apostando no fim do embargo econômico imposto pelos americanos há 48 anos. Um movimento que deverá se tornar mais forte a partir das decisões do presidente Barack obama, anunciadas pela Casa Branca na segunda-feira 13. obama liberou empresas de telefonia móvel, internet e tevê por satélite para que possam servir à ilha, permitiu viagens e remessas de dinheiro dos cubanos da Flórida para o país e flexibilizou alguns pontos do embargo.

US$ 22 bilhões é o PIB de Cuba, um país onde a renda per capita, após 50 anos da revolução castrista, ainda é inferior à de Sergipe

Evidentemente há regras para que empresas estrangeiras se instalem em Cuba. Em geral o Estado cubano entra como sócio. A Brascuba, formada com capital brasileiro da Souza Cruz, é pioneira nessa formatação. A fabricante de cigarros tem como sócios, com 50% cada um, a Souza Cruz do Brasil e a União das empresas de Tabaco de Cuba. ?É evidente que a opção de atuar em Cuba foi estratégica. Muito mais do que o mercado interno cubano, apostamos no fim do bloqueio econômico praticado pelos americanos?, diz Guillermo hepburn Bou, cidadão hondurenho, copresidente brasileiro da Brascuba. ?Quando esse embargo acabar, estaremos na frente dos concorrentes, podendo vender para o mundo todo cigarros fabricados com a melhor matéria-prima do planeta.?

Para viabilizar a Brascuba, a Souza Cruz levou para a ilha maquinário de última geração e treinou funcionários cubanos. o governo de Cuba, por intermédio da Tabacuba, seleciona o fumo e escala o pessoal que trabalha na fábrica, instalada em um prédio de 20 mil metros quadrados, construído em 1868 para beneficiar tabaco. A empresa encerrou 2008 com um faturamento de US$ 10 milhões, 1,5 bilhão de cigarros vendidos no mercado interno e outros 420 milhões exportados, principalmente para Espanha, França, México, Rússia e Japão. Segundo a direção da Brascuba, a crise econômica mundial não servirá de obstáculo para os investimentos previstos.

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Fábrica da brascuba: projeto da Souza Cruz em Cuba é um piloto da abertura ao capitalismo


 

O contrato de constituição da Brascuba é válido até 2020. Cubanos e brasileiros, no entanto, não cogitam a possibilidade de não renoválo. ?Se tudo continuar como está, não vemos nenhuma razão para não manter esse entendimento?, diz o copresidente cubano da Brascuba, Adolfo Díaz Suárez. ?Esse empreendimento nos trouxe uma tecnologia de ponta e absorve parte de nossa produção.? Na Brascuba trabalham 270 pessoas e apenas dois funcionários são brasileiros. Os demais são todos cubanos, dos quais 32% são mulheres e 40% têm curso superior completo. ?Além do melhor fumo do mundo, podemos oferecer à Brascuba uma mão de obra altamente qualificada?, diz Suárez.

Os funcionários são contratados de uma agência estatal cubana, que recebe os pagamentos em pesos convertíveis (equivalente a US$ 0,80), mas paga o salário aos trabalhadores em pesos cubanos normais. Mensalmente, eles recebem em pesos conversíveis um prêmio por produção. Com essa moeda, os cubanos da Brascuba conseguem ter acesso a bens importados, inclusive carros, o que os difere da média dos cubanos. ?A Brascuba é um exemplo pioneiro de que podemos atrair investimentos sem abrir mão de nossos princípios, pois é o Estado cubano que define como será o investimento, é sócio em todas essas ações e ainda é o responsável pela contratação da mão de obra?, explica Omar Fernández Jiménez, diretor jurídico da Câmara de Comércio de Cuba. O processo utilizado na Brascuba é o mesmo adotado em outros setores. A Odebrecht, por exemplo, tem forte presença na ilha de Fidel. Cabe à empreiteira brasileira a missão de abrir e recuperar estradas, principalmente com vista ao turismo e ao escoamento de produção mineral, na rota do níquel, minério explorado por grupos canadenses em parceria com os cubanos.

Além de Odebrecht e Souza Cruz, outras duas empresas brasileiras de porte estão presentes na ilha: Petrobras, fazendo pesquisas em águas profundas, e Embrapa, que tem ajudado os cubanos no cultivo de soja. O lado mais visível do capital estrangeiro em Cuba está com os espanhóis, que têm construído grandes hotéis de padrão cinco-estrelas, compatíveis com o que há de melhor na Europa e nos Estados Unidos. E essa onda de investimentos externos só tende a crescer com a perspectiva de fim do embargo americano.

 

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Omar Jiménez: diretor da Câmara de Comércio relata projetos de 220 multinacionais

 

 

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Guilherme Bou e Adolfo Suaréz: a joint venture de cigarros já ostenta bons resultados