Os números das pesquisas são claros: 7 em cada 10 americanos apóiam a invasão do Iraque. Mas desde 19 de março, quando a guerra teve início, os números deixaram de dizer toda a verdade sobre o que se passa nos EUA. Apesar do patriotismo da mídia e do tom messiânico do governo, milhões de pessoas não se deixaram convencer e nem calar. Elas têm enfrentado a polícia e a hostilidade de seus concidadãos  por opor-se publicamente à guerra. Fazem isso nas escolas, fazem isso em palestras e fazem isso nas ruas, reunindo multidões como não se via desde as décadas de 60, quando morriam 40 americanos por dia no Vietnã. Esses 30% que protestam são a outra América. Dela fazem parte intelectuais, ativistas, políticos e mesmo funcionários do governo. Eles fazem o trabalho das formigas à espera do momento em que a maré da opinião pública comece a virar. ?Esses 30% de oposição à guerra são apenas a ponta do iceberg?, afirma Tom Hayden, ex-senador democrata pela Califórnia e candidato à prefeitura de Los Angeles. ?Quando ficar claro que nossas tropas são invasoras e não libertadoras, o governo vai se transformar no Titanic.?

Na semana passada, com as tropas americanas às portas de Bagdá, o momento da virada parecia distante. Mesmo assim, Bill Dobs, da organização United for Peace and Justice, responsável pela marcha que reuniu 500 mil pessoas em Nova York em 15 de fevereiro, seguia firme na organização simultânea de dezenas de eventos pela paz, previstos para os próximos dias. Lawrence, no Kansas; San Antonio, no Texas; Oakland, na Califórnia; Filadélfia, na Pensilvânia… A lista é imensa. Dobs conta que a arma de convocação é a internet e o motor da mobilização é o trabalho voluntário. São mais de 2 mil pessoas, integradas a uma rede de pelo menos 200 organizações diferentes abrigadas sob o guarda-chuva da United for Peace. ?Nosso desafio é mostrar às pessoas que devemos ter uma política externa diferente?, diz Dob. ?Não somos apenas contra a guerra atual. Não queremos que haja mais guerras.? Quem tem experiência na vida pública americana, como a ativista Lori Wallach, diretora da ONG Public Citizen, espanta-se com a rapidez com que o movimento pacifista se disseminou. Ela viaja o país todo para debates sobre o comércio mundial e tem visto reuniões de mais de 50 mil pessoas, mesmo em cidades pequenas. Nas grandes, diz ela, os números começam em 200 mil. ?Estamos tendo uma Seattle por semana?, diz ela, aludindo às grandes manifestações contra a OMC ocorridas naquela cidade em 1999. O mais impressionante, diz ela, é que isso tem ocorrido a despeito da profunda ignorância do público em geral sobre o repúdio que a guerra tem provocado no mundo. Os jornais e as TVs não mostram exatamente o que o resto do mundo vê e nem debatem as questões que são colocadas para o resto do planeta. ?Nenhuma das implicações da guerra foi discutida pelo Congresso ou pela imprensa?, diz Lori. ?As pessoas estão alarmadas e não sabem metade da história.?

Entre a elite bem informada, a indignação é moeda corrente. Em março, quando a administração Bush decidiu ir à guerra, três diplomatas renunciaram a seus postos ? John Kiesling, conselheiro político em Atenas; John Brown, adido cultural em Moscou, e Mary Wright, chefe da missão dos EUA em Ulan Bator, na Mongólia. O caso de Kiesling, que tinha 20 anos de serviço diplomático, ganhou notoriedade porque sua carta de demissão foi enviada ao
secretário Colin Powell e tornou-se pública. Na semana passada
ele disse à DINHEIRO que não se arrependeu de sua decisão. ?A política adotada por Bush é tão ruim que foi impossível para mim continuar?, afirma. ?O ataque ao Iraque fará os Estados Unidos ainda mais inseguros. Vamos perder anos de trabalho diplomático.? Dias atrás, a idéia de renúncia bateu na porta do próprio Powell. Um colunista do The New York Times sugeriu que o ex-general honrasse a sua biografia e entregasse o boné para o presidente Bush, cujo gabinete foi intelectualmente seqüestrado pela extrema direita. Powell fingiu-se de surdo.

Muita coragem. Há muita coragem envolvida na decisão de remar contra a maré. O ex-senador Hayden conta que a extrema direita tem sido impiedosa em seus ataques aos dissidentes. Ela comanda alguns programas de rádio populares, os famosos talk-shows, que são usados como palco de massacre dos que se opõem à guerra. Bastou, por exemplo, que o senador democrata Tom Daschle acusasse a diplomacia americana de incompetência para tornar-se vítima de uma campanha de difamação devastadora. Calou-se. Somente o enorme prestígio acumulado pelo democrata Robert Byrd, de 85 anos, representante de West Virginia no Senado desde 1958, impediu que ele sofresse a mesma espécie de assassinato moral. Byrd subiu à tribuna em 18 de março, um dia antes da invasão, para um discurso emocionado. ?Em vez de isolar Saddam Hussein estamos isolando a nós mesmos?, disse ele. ?Depois da guerra teremos de reconstruir mais que o Iraque. Teremos de reconstruir a imagem americana ao redor do mundo.? Casos como o de Byrd são exemplares raríssimos. Os pacifistas americanos queixam-se de que o Congresso deu um cheque em branco ao presidente e absteve-se de discutir as razões para a guerra, e mesmo a sua condução. ?Tenho 12 anos de experiência de lobby no Congresso e nunca vi tamanha omissão?, diz Lori Wallach.

O embate, portanto, é entre o governo e as ruas. Bush aposta em que uma vitória rápida, seguida de marcha triunfal na Brodway, vá silenciar a oposição e abrir ainda mais espaço para a sua agenda política conservadora, dentro e fora do país. Os pacifistas acham que pode ser diferente. Se a guerra no Iraque encruar, a Casa Branca será posta contra a parede. Mas mesmo uma vitória esmagadora em Bagdá, que os pacifistas acreditam ser mais provável, será seguida de uma prolongada, cara e perigosa ocupação militar do Iraque. Essa é a hora em que a conta econômica e política da guerra será posta sobre a mesa do contribuinte americano. Quando o hino nacional parar de soar no alto-falante, as pessoas irão notar que os programas sociais estão sendo reduzidos para financiar as tropas e os cortes de impostos oferecidos aos ricos. ?Mesmo que vença, Bush não vai sair dessa guerra como herói?, aposta Hayden. Na impossibilidade de parar essa guerra, o plano é impedir a reeleição de Bush e reduzir o risco de que ele enverede em outras aventuras militares.