02/02/2001 - 8:00
Com a missão de esquadrinhar cada detalhe do maior negócio bélico a ser fechado no País este ano, o executivo celta François Delamare saúda cada gesto de protecionismo comercial desfechado em outras partes do mundo contra o Brasil. Tudo ele soma. De declarações deselegantes de embaixadores a pedidos de retaliações na Organização Mundial do Comércio. ?De fato, as condições diplomáticas estão a nosso favor?, diz ele, gerente-geral da Dassault Aviation, a centenária fabricante francesa dos jatos executivos Falcon e dos caças Mirage. É que, quanto mais fechado estiver o mundo para o Brasil, mais perto ele e sua empresa estarão de um contrato de US$ 600 milhões com a Força Aérea Brasileira para a venda de 24 aviões de combate. Afinal, aqui, a francesa Dassault defende a bandeira verde-amarela desde outubro de 1999, quando comprou 5,9% das ações da Embraer. ?Queremos dinamizar a presença da Embraer no mercado de aviões de defesa?, conta Delamare.
Nos próximos oito anos, a FAB pretende gastar US$ 8 bilhões no reaparelhamento de sua frota aérea. Embraer e sua minoritária Dassault querem para si nada menos do que o pacote inteiro. Parte dele já está garantido. Na compra de 76 aviões ALX, o Supertucano, a um custo de US$ 420 milhões, a Embraer será a vendedora. No caso da renovação da frota brasileira de Mirage, que já vai completando 30 anos de uso, a concorrência pode envolver suecos, com o avião Grippen, russos (Mig-29) e americanos (F-16). As regras e datas do processo de compra podem ser divulgados dentro de dois meses, mas desde já a Dassault, embutida na Embraer, leva vantagem. Afinal, não há reclamações na Força Aérea Brasileira contra os Mirage e tudo indica que o caminho mais natural, além da pressão nacionalista, será uma solução de continuidade. ?Nossa integração com a FAB é a melhor possível?, afirma Delamare.
A Dassault está pronta para oferecer à Embraer o caça Mirage F-5BR, capaz de voar numa velocidade duas vezes à do som, equipado com radar com 100 quilômetros de raio de ação e mísseis precisos o suficiente para acertar um alvo a distâncias superiores a 30 quilômetros. Cerca de 30 pilotos da FAB já pilotaram os F-5, à convite da Dassault, na França e no Brasil. ?Todos se adaptaram perfeitamente?, afiança o vendedor Delamare. Ele não vê a hora de o governo, que no ano passado resolveu adiar a compra, dar o sinal verde para a licitação. Afinal, cada F-5 vai custar cerca de US$ 30 milhões.