Está chegando ao fim a participação da família Azevedo Antunes na história da mineração brasileira. O patriarca Augusto Trajano de Azevedo Antunes, fundador do grupo Caemi e defensor dos negócios familiares, que hoje teria 93 anos, não sobreviveu para ver o destino que seus netos dariam à empresa. Em breve os irmãos Mário e Guilherme Frering se despedem do controle da Caemi, considerada pelos analistas a última grande oportunidade de investimento no setor. Depois de muito se especular sobre as chances da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), foi a australiana BHP que levou a melhor. A mineradora teria oferecido US$ 332 milhões, apenas US$ 2 milhões a mais do valor que a Vale estava disposta a pagar. A cifra corresponde aos 60% do capital da holding, composta por participações em cinco outras companhias. Roger Agnelli, presidente do Conselho de Administração da Vale, até que tentou levar a melhor. No começo da semana passada, durante uma apresentação a representantes de bancos, no Rio, disse num tom nacionalista: “A Vale tem por obrigação disputar a Caemi até onde puder, dentro do razoável”, disse Agnelli. O discurso foi inútil. A maior mineradora do mundo, dona de 24% do mercado internacional e dona de um patrimônio quatro vezes maior do que a Caemi, agora terá reavaliar sua estratégia de crescimento e pensar, por exemplo, na mineradora Ferteco, que também estaria sendo negociada.

Agora que a BHP, que já participa do capital da mineradora Samarco em conjunto com a CVRD, foi confirmada, a dúvida é saber se acontecerá uma associação com a Vale. Paulo Bahia Guimarães, presidente da subsidiária brasileira da BHP, passou a semana toda em reuniões e não quis comentar a vitória. Mas se os irmãos Frering bateram o martelo na melhor oferta, quem decidirá sobre o futuro da Caemi serão os executivos da trading Mitsui, com sede em Tóquio. Os japoneses são donos de 40% do capital votante da holding e, segundo o contrato, têm direito de preferência na venda do controle. Em 1998, quando compraram essa participação, a Caemi passava por uma situação difícil e a entrada dos sócios ajudou na profissionalização e na recuperação dos resultados financeiros. Assim que receberem a proposta feita aos irmãos Frering, terão 60 dias para anunciar se cobrirão o valor ou se vão compartilhar a administração dos negócios com o novo controlador. Muitos analistas acreditam que a Mitsui não irá exercer a opção de compra dos 60% dos irmãos Frering. Afinal, para a multinacional, especializada na compra e venda de comodities, a prioridade é garantir o fornecimento de minérios, e não ter o controle dos negócios. “Ela é uma trading, não uma mineradora”, diz Débora Dias, analista do ABN Amro Asset Manegement. Mas a especialista aponta outro caminho para o futuro da Vale e BHP. Segundo ela, é possível uma união entre as duas mineradoras. “Assim a Vale evitaria trombar com a lei anti-truste por causa da concentração de algumas atividades, como a de pelotização”, afirma.

Para a Vale, perder o controle da Caemi para a BHP significará sinal de fumaça. A mineradora dos Frering é responsável por 8% do mercado transoceânico de minério de ferro. Agora que a BHP, que detém 13,3% desse fornecimento, levou a melhor, poderá ter nas mãos 21,3% da produção, muito próximo dos 24% da Vale do Rio Doce. Aí, será mais fácil aumentar sua participação em mercados estratégicos, como o europeu, onde a Vale dá as cartas e tem as portas abertas nos principais bancos. A analista Luciana Massaad, da Itaú Corretora de Valores, chama a atenção para os desembolsos que a BHP terá de fazer caso a Mitsui concorde com a oferta. “A sinergia entre Caemi e Vale é maior, agora os australianos terão de fazer outros investimentos”, afirma. Ela lembra que o vencedor terá de desembolsar pelo menos R$ 200 milhões no biênio 2001/2002 para a substituição de duas minas que deixarão de produzir entre 2002 e 2004. “Se fosse a Vale, seria mais simples e ela nem precisaria investir. Num primeiro momento, bastaria desviar o minério extraído de Carajás para Minas Gerais, onde estão as duas jazidas”, diz Luciana Massaad. Além disso, as linhas férreas da Vale e da Caemi, usadas para o transporte da produção, têm trechos muito próximos, podendo ser usadas conjuntamente. Com a vitória da BHP, seria preciso “contratar” muitos dos serviços da CVRD, o que pode encarecer a produção.

Paralelamente à disputa pelo controle da Caemi, está uma briga entre herdeiros de tirar o sono. Dois advogados do Rio de Janeiro estão pedindo a revisão da divisão dos bens de Augusto Trajano de Azevedo Antunes. Seus clientes são os irmãos Alexandre e Suzana, primos de Mário e Guilherme Frering. Augusto Antunes teve dois filhos: Beatriz (mãe de Guilherme, Mário e Fábio) e César (pai de Alexandre, Suzana e Stella). César, que seria o herdeiro escolhido pelo pai, morreu no começo da década de 70, bem antes de o processo de sucessão na empresa ser concluído. Antunes, segundo o advogado José de Pontes Vieira Jr., teria feito a divisão de bens em vida de mais de 50% de seus bens. Nessa partilha, suspeita Vieira, a família de Beatriz teria sido privilegiada. “Agora eles têm de provar que a distribuição patrimonial foi adequada”, afirma Vieira. O advogado Ivan Nunes Ferreira, que defende Alexandre, tem a mesma suspeita e sugere que o valor da negociação do controle da Caemi seja depositado em juízo até que se esclareça se houve algum erro na divisão da herança de Augusto Antunes. O pedido, até a sexta-feira, ainda estava sob avaliação da juíza Denise Levy, da 4ª Vara do Rio de Janeiro. Para o advogado de Mário e Guilherme Frering, Sérgio Bermudes, é estranho que quase dez anos depois de a partilha de bens ter sido feita e dos herdeiros terem assinado um termo no qual concordavam com o que receberam, alguém decida reclamar. “Eles não souberam administrar a fortuna colossal que receberam e agora querem criar dificuldades”, afirma Bermudes.