25/01/2006 - 8:00
O economista José Sérgio Gabrielli aparenta um certo cansaço. Seu olhar denuncia noites mal dormidas. A agenda revela um extenso cronograma de compromissos no Brasil e no exterior nas próximas semanas. Na tarde em que falou à DINHEIRO, da terça-feira 17, ele participou de sete reuniões ? uma delas em Brasília. Dias antes, Gabrielli anunciara, em Santos, no litoral paulista, um megainvestimento de US$ 18 bilhões na área de gás. Nesta semana, embarca para Davos, na Suíça, na condição de palestrante do Fórum Econômico Mundial. E quando retornar ao Rio de Janeiro, seu ritmo de trabalho voltará a ser de 14 horas diárias. Tudo bem diferente da vida que Gabrielli levava até fevereiro de 2003 ? antes de chegar à Petrobras, ele era professor da Universidade Federal da Bahia e levava uma vida, por assim dizer, pacata. Visto com desconfiança pelo mercado, Gabrielli pouco a pouco conquistou credibilidade não só junto aos investidores, mas também dentro do próprio governo. Em julho do ano passado, ele se tornou presidente da maior empresa do País, avaliada em R$ 200 bilhões na Bolsa de Valores de São Paulo. E foi na sua gestão que a Petrobras atingiu uma marca histórica. Hoje, 53 anos depois da criação da estatal, pode-se dizer, finalmente, que o petróleo é nosso. A produção diária da estatal, de 1,857 milhão de barris, já é suficiente para atender toda a demanda interna, de 1,8 milhão de barris. ?Sim, já existe a auto-suficiência?, admitiu, timidamente, Gabrielli à DINHEIRO (leia sua entrevista ao lado). ?O ideal seria esperar um pouco mais, mas ela existe?. Quando ele assumiu a presidência, a produção nacional era de 1,67 milhão de barris.
Daniel Wainstein
Sérgio Gabrielli: Visto com desconfiança no início, ele fez o valor de mercado chegar a R$ 200 bilhões
Mas por que tanta prudência para anunciar um fato que qualquer presidente da Petrobras gostaria de capitalizar para si? Tecnicamente, Gabrielli apresenta suas razões. A empresa alega que o ideal seria esperar que a média de produção, durante alguns meses, superasse a demanda interna. ?É por isso que vamos aguardar a entrada em operação da plataforma P-50?, diz Gabrielli. Ocorre, porém, que essa plataforma começará a extrair petróleo no fim de março ? curiosamente, na época em que as CPIs instaladas no Congresso estarão concluindo seus trabalhos. Logo em seguida, a Petrobras fará o maior investimento publicitário de sua história. Serão gastos mais de R$ 50 milhões para divulgar a auto-suficiência, numa campanha encomendada ao publicitário Duda Mendonça, o marqueteiro oficial do presidente Lula, também investigado pela CPI. Gabrielli não vê nada demais nisso. ?Se existe algum problema com o Duda, é na pessoa física?, diz ele. ?Não há nada contra suas empresas e eu não posso condená-lo sem provas?. Gabrielli lembra ainda que outras duas agências, a Quê e a F/Nazca, têm contratos com a estatal.
Biô Barreira
Sede no Rio: Na era Gabrielli valor de mercado da estatal subiu 83%
Embora esteja recluso em sua casa de praia em Maraú, no litoral baiano, Duda já começou a criar o mote da campanha publicitária. Até agora, o que se sabe é que ela será feita em tom sentimental. ?A idéia é getulizar o presidente Lula?, diz um profissional próximo ao publicitário. Na prática, Duda tentará mostrar que, enquanto Getúlio Vargas criou a estatal, Lula a levou à auto-suficiência, cumprindo a profecia do ?petróleo é nosso?. E ambos serão mostrados ao público como vítimas de perseguições e de incompreensões das elites. ?A melhor forma de fazer essa campanha é apelar para o lado emocional, tentando resgatar a auto-estima do brasileiro?, avalia o experiente publicitário Alex Periscinoto. Todos esses preparativos para o foguetório da Petrobras já causam certo alvoroço no meio político. ?Para ser transparente com o povo brasileiro, a Petrobras deveria anunciar logo a auto-suficiência?, afirma o deputado Renato Casagrande (PSB-ES). ?Adiar a divulgação desse fato é usar politicamente a empresa?, aponta o próprio Delcídio Amaral (PT-MS), que preside a CPMI dos Correios. Outros batem ainda mais firme. ?O Gabrielli é militante do PT e renovou o contrato com o Duda apenas para tentar calar a boca dele?, dispara o senador José Jorge (PFL-PE).
Instalado no 23º da andar do imponente edifício da Avenida Chile, no Rio de Janeiro, Gabrielli prefere não polemizar. E já prepara novos movimentos em busca de uma outra auto-suficiência ? desta vez, na área de gás natural. Os investimentos em Santos visam reduzir a dependência brasileira do gás importado da Bolívia. ?A intenção é começar a produzir em Santos já em 2008?, afirma Gabrielli. E isso é só uma parte do plano estratégico da Petrobras, que prevê outros US$ 56,4 bilhões em investimentos até 2010. Só no primeiro semestre de 2005, a empresa faturou R$ 62,5 bilhões. O lucro acumulado nos nove primeiros meses somou R$ 15,6 bilhões. E é por isso que o valor das ações no Brasil e no exterior só sobem, apesar da política de controle de preços imposta pelo governo. ?Para qualquer investidor, a Petrobras ainda é uma empresa muito rentável?, afirma o analista Tiago Queiróz, do banco BES Securities. Além disso, a empresa tornou-se a mais lucrativa da América Latina, superando as cifras do império de telefonia do mexicano Carlos Slim, dono, no Brasil, da Claro e da Embratel.
Na era Gabrielli, a Petrobras também tem avançado em outras áreas. Na área de navegação, a Transpetro, subsidiária da estatal, está prestes a comprar 26 navios para reduzir o gasto com fretes internacionais. Na distribuição, a BR, outra subsidiária, retomou o espaço que havia perdido para empresas novatas, que muitas vezes não recolhiam impostos. E até no biodiesel estão programados investimentos relevantes. ?Nós não somos uma empresa só de petróleo?, diz Gabrielli. ?Seremos cada vez mais fortes em energia e combustíveis, sejam eles fósseis ou renováveis?. Depois da auto-suficiência, qual será o próximo passo desse pacato professor baiano? A palavra chave é internacionalização. ?Vamos ser a grande referência empresarial da América Latina?.
?Isso é histórico?
O comércio eletrônico será estratégico nas produções da Globo
Em entrevista à DINHEIRO, Gabrielli falou da auto-suficiência e da campanha de Duda Mendonça.
Já somos auto-suficientes?
?Sim. Mas a média do ano de 2005 foi de 1,68 milhão. O ideal será quando a média for superior a 1,8 milhão de barris. Isso vai acontecer com a P-50.?
Quando será?
?Ainda no primeiro trimestre.?
Vocês vão festejar?
?Claro que sim.?
A campanha será do Duda?
?Não renovamos o contrato só com o Duda, mas com todas as agências. Tínhamos uma campanha para lançar e um processo de contratação é longo. Diante de um fato histórico, foi melhor renovar contratos.?
As denúncias contra o Duda não incomodam?
?Não. Não tem porque incomodar. O que eu tenho contra a agência? Nada.?
A Petrobras também esteve envolvida em outras polêmicas, como o caso da GDK.
?O que tem a GDK??
A GDK, por intermédio do Silvio Pereira, teria fechado contratos com a Petrobras, e deu a ele uma Land Rover de presente.
?A Petrobras trabalha com a GDK desde 1994. O maior contrato foi feito em 2002. Então, objetivamente, existem denúncias de que o sr. Silvio Pereira recebeu um carro da GDK. Isso é um problema. Agora, a Petrobras deu carro para o sr. Silvio Pereira? O Silvio foi beneficiado pela Petrobras??
Mas a GDK não foi?
?Fizemos uma avaliação de todos os processos de compra, em função das denúncias em torno da GDK. Foram identificados problemas de procedimentos e já tomamos providências.?
A evolução do petróleo no Brasil
A viagem de Lula concretizou acordos e parcerias em diferentes setores
1948
No governo Gaspar Dutra, o governo federal envia ao Congresso Nacional o Estatuto do Petróleo, que abre caminho para o ingresso do capital privado, nacional ou estrangeiro, no setor.
1951
No segundo governo de Getúlio Vargas, graças à campanha ?O petróleo é nosso?, a Câmara arquiva o estatuto.
1953
Getúlio Vargas assina a Lei 2004, aprovada pelo Congresso, que estabelece o monopólio estatal do petróleo e cria a Petrobras, no dia 3 de outubro.
1972
É criada a subsidiária Petrobras Internacional, a Braspetro, que passa a prospectar pretróleo em outros países e descobre um campo gigantesco no Iraque, o de Majnoon.
1974
É descoberto o pólo de Campos, no Rio de Janeiro, que abre uma nova fase na exploração de petróleo no Brasil. Um ano depois, o setor é aberto à iniciativa privada, em contratos de risco.
1997
É promulgada a lei 9.478, que flexibiliza o monopólio estatal do petróleo, fazendo com que a Petrobras atue em cenário de competição. É criada a Agência Nacional do Petróleo.
2001
Explode e afunda a plataforma P-36, a maior plataforma semi-submersível do mundo, em operação na bacia de Campos, causando a morte de 11 trabalhadores.
2006
Com a entrada em operação da plataforma P-48, a Petrobras passa produzir 1,85 milhão de barris/dia, fazendo com que o Brasil se torne auto- suficiente na produção.