Durante os dez anos em que trabalhou na Argentina, entre 1993 e 2002, como executivo de empresas de energia, o americano Hector Morales passou por quatro presidentes e viu a economia ruir durante o colapso econômico no início da década. Nem por isso sua experiência o fez desacreditar da região. Tornou-se representante econômico dos governos George Bush e Barack Obama, entre 2008 e 2009, na Organização dos Estados Americanos (OEA) e foi um importante interlocutor com os países latinos. Atualmente como consultor internacional de finanças, Morales esteve no Brasil para se reunir com empresas interessadas em investir no Exterior. Em entrevista à DINHEIRO, ele minimizou os problemas econômicos que podem se agravar no segundo governo Dilma e disse que a presidente ainda pode surpreender na economia. 

DINHEIRO – O que o senhor espera do segundo governo de Dilma Rousseff?

Hector Morales – O Brasil enfrenta escolhas importantes e difíceis relativas às suas políticas fiscais e monetárias. Porém, a presidente Dilma disse em seu discurso de posse que todos os brasileiros devem aproveitar a energia construtiva da campanha para pedir um novo momento no Brasil. Para ela, isso implicará em decidir qual será seu legado, enquanto trabalha para reestimular o crescimento econômico e voltar a gerar confiança interna e externa do setor privado. Com base nos resultados das eleições, o mercado vê que uma grande parte dos brasileiros não se contenta com a direção atual do país, e vai estar à procura de iniciativas políticas concretas a nível macroeconômico, bem como nas áreas de infra-estrutura, comércio e da concorrência. Apesar das dificuldades, o tamanho e o potencial do Brasil poderão, se bem aproveitados por Dilma, ser motivo de surpresa para os brasileiros. A presidente Dilma tem uma única chance de surpreender o mercado.


DINHEIRO – Do ponto de vista econômico, a América Latina é uma região segura para se investir?

Morales – Para falar de América Latina hoje é preciso olhar os últimos vinte anos. No contexto histórico, a região ficou marcada por governos militares e ditaduras. Hoje, existe um equilíbrio político na região. Os países latino-americanos, com raras exceções, são democráticos e estáveis. Apesar dos problemas econômicos na Venezuela e na Argentina, é cada vez mais seguro investir na região. Os principais mercados latino-americanos são muito bem regulados e possuem regras e segurança para o investidor estrangeiro. O Brasil é um exemplo disso: é considerado um país seguro do ponto de vista regulatório. 


DINHEIRO – Mas os investidores reclamam tanto da burocracia brasileira…

Morales – Quando eu falo em mercado bem regulado, não quero dizer que ele não seja burocrático e complexo. A burocracia atrapalha o investidor estrangeiro. O principal aspecto a ser melhorado é tornar alguns processos mais fáceis e ágeis. 

DINHEIRO – O mercado brasileiro está mais sofisticado?

Morales – Ele se fortaleceu muito. Nos últimos anos, entendeu o senso de competição e passou a investir em um mercado financeiro mais moderno. Vocês possuem uma bolsa forte, uma indústria de fundos e uma estrutura de bancos muito boa. O Brasil hoje não perde para ninguém em termos de sofisticação. Isso quer dizer que existem ferramentas e oportunidades para os investidores que olham para o País.


DINHEIRO – O senhor costuma recomendar a seus clientes que invistam no Brasil?

Morales – O Brasil possui hoje uma série de oportunidades em investimentos diretos. Se olharmos para 1990, isso não era uma realidade. Hoje o mercado brasileiro é mais aberto e, portanto, mais atrativo. Mesmo tendo passado a Copa do Mundo e após um importante salto em termos de infraestrutura, o Brasil tem muito potencial nessa área. Basta olhar para a imensidão do País e as fronteiras de produção, principalmente a agrícola. Além de ter uma demanda doméstica gigante, o Brasil é capaz de vender para mercados importantes como China e Estados Unidos. Esses argumentos são importantes para convencer o investidor. 


DINHEIRO – O crescimento mais baixo do Brasil não torna o País menos atrativo?

Morales – Somente se estivermos falando de um investidor de curto prazo. Mas, geralmente, os investidores estrangeiros que olham para o Brasil possuem a frieza e a estratégia de olhar no longo prazo. Eles estão acostumados com outros países em desenvolvimento e conhecem os ônus e as oportunidades. Mesmo com a economia patinando hoje, o Brasil continua sendo um bom lugar para investir. Em muitos casos, enquanto a economia cresce menos, podem existir mais oportunidades para o investidor. É a mesma lógica do mercado de ações: comprar na baixa para vender na alta. 


DINHEIRO – Sua visão não é muito otimista?

Morales – Não. Eu também sei destacar os desafios do Brasil. Levei três horas para chegar do aeroporto ao hotel em São Paulo. Imagine o quanto isso é improdutivo. Quantas decisões eu poderia ter tomado nesse tempo. O Brasil tem, sim, desafios enormes, mas muitas vezes quem mais tem a percepção de que a economia vai mal é o próprio investidor brasileiro, que é mais passional. O investidor estrangeiro costuma ser mais estratégico no longo prazo. O Brasil possui um potencial enorme na fronteira agrícola, no setor de commodities, mas tem um desafio para escoar essa produção. Não digo que minha visão é otimista, mas a visão do próprio brasileiro costuma ser pior do que realmente é a situação do País. 


DINHEIRO – O Brasil tem acertado em seus acordos regionais?

Morales – O Brasil possui tamanho e capacidade para fazer importantes acordos econômicos, seja com os países vizinhos, seja com blocos mais distantes. Eu não vejo que o Brasil tenha errado em sua estratégia. Pelo contrário, o Brasil hoje possui relações com importantes fronteiras econômicas. Além do Mercosul, que é estratégico, independentemente dos problemas desse bloco, o Brasil tem relações com a China, está no G20, tem uma presença importante na África, dialoga com o México… Portanto, a estratégia do Brasil é boa. 


DINHEIRO – Em sua opinião, quais áreas devem ser prioritárias no novo governo? 

Morales – Nas últimas décadas, o Brasil teve dois longos governos, o do Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de diferentes em termos políticos, foram complementares na economia. O País trilhou um importante caminho, mas tem de vencer desafios para se tornar ainda mais competitivo. Precisa de investimentos em infraestrutura, educação e produtividade. Eu sou realista, mas otimista.


DINHEIRO – Os Estados Unidos dão a atenção devida ao Brasil?

Morales – Desde que atuei nos governos Bush e Obama existia essa crítica de que os Estados Unidos não davam a devida atenção para a América Latina. Mas eu discordo disso e devemos deixar claro uma coisa. Não são apenas visitas internacionais ou aspectos políticos que determinam a relação de duas regiões. Mas sim o que acontece nos bastidores. E do ponto de vista de negócios eu vejo muitas empresas brasileiras fazendo negócio nos Estados Unidos. A América Latina continuará sendo importante para os Estados Unidos, não só nas relações diplomáticas, mas também nos aspectos que envolvem as empresas.