13/09/2006 - 7:00
O presidente da Adidas do Brasil, Marcelo Ferreira, vibrava como um menino na terça-feira 5 com a partida da Seleção Brasileira contra o País de Gales. Nada a ver com a performance do time, que foi bem sem graça apesar da vitória por 2 a 0. ?Dos 11 jogadores que estão em campo, sete calçam Adidas?, comemorava. É uma revolução na equipe canarinho, cujo histórico fornecedor de uniformes, a rival Nike, sempre fez os pés da maioria dos titulares. Essa revolução, porém, é apenas parte de um jogo maior que a Adidas parece estar louca para jogar. Ferreira dispensa as meias palavras e decreta:
?Seremos a maior empresa de material esportivo do País em 2008, é isso.? ?Isso? significa desbancar a Nike, que, segundo estimativas do setor, dá as cartas folgadamente com 27% de market share. A Adidas vem em segundo com 19%.
A tática de Ferreira para pôr o time no ataque prevê quatro pilares de crescimento: injeção de dinheiro nas fabricantes parceiras (a fim de que elas possam reduzir preços e dar conta do aumento do mix de produtos), marketing, reforço da equipe administrativa (executivos vindos da AmBev e da TAM já foram contratados) e melhoria no atendimento aos varejistas. Desses, o marketing ? eterna e eficaz arma da Nike ? terá uma participação especial. ?Em 2007, investiremos o mesmo que em anos de Copa do Mundo?, diz Ferreira, sem revelar números.
A verba será usada, principalmente, no foco que a marca quer dar no segmento de tênis de corrida. A categoria, dominada hoje pela japonesa Mizuno, é considerada estratégica por todo o mercado devido ao número crescente de praticantes e ao bolso privilegiado dessa turma que não hesita em gastar mais de R$ 400 para ter a última tecnologia nos pés. ?Além da corrida, continuaremos fortes no futebol, patrocinando mais jogadores de Seleção (o plano é ter dez patrocinados na Copa de 2010) e mais dois grandes clubes do País?, diz Ferreira. Hoje a Adidas veste Palmeiras e Fluminense. Correndo por fora nesse plano de vôo está a abertura de sete lojas Adidas Originals. Originals é o nome que a empresa dá a sua linha retrô, um fenômeno mundial que aproximou as fabricantes esportivas da moda e rende muito dinheiro a elas. A primeira loja será inaugurada no Rio, em outubro.
Feito isso, faltará apenas, como diria Garrincha, combinar com a Nike a sua própria derrota. A gigante americana obviamente tem planos para manter a liderança. ?Crescemos 35% ao ano e agora acertamos a mão no segmento fashion?, diz Pedro Madeira, presidente da Nike do Brasil. De fato, depois de um mergulho tímido e atrasado na onda retrô, a empresa parece ter se dado conta de que, ao contrário de Adidas e Puma, ela não tem produtos de uso casual para resgatar no passado. Sua história foi construída sobre o conceito de performance. A saída foi inventar versões modernosas de tênis históricos criados para prática esportiva. ?As vendas de nossa linha fashion cresceram 500% no último ano fiscal?, diz Madeira. Ele anuncia mais quatro lojas exclusivas Nike Store para este ano e fortes investimentos em corners dentro dos varejistas. Os valores são segredo de Estado.
Ferreira, da Adidas, sabe que o páreo vai ser duro. Mas, estranhamente, ele aparenta uma confiança incomum para uma guerra desse tamanho. Então ele saca um caderninho cor-de-laranja da gaveta e lê em voz alta números anotados desde que ele assumiu o comando da filial, em 2002: ?O faturamento cresceu cinco vezes, os lucros, sete vezes, a produção local saltou de 600 mil para cinco milhões de pares por ano, nos tornamos a 15ª subsidiária do grupo (éramos a 40ª), representamos 42% das vendas da marca na América Latina e nossa participação de mercado subiu de 13% para 19%?. E aí… gooool de Vágner Love contra o País de Gales. Foi de cabeça, mas nos pés o atacante levava chuteiras Adidas. ?É. Chegou a nossa hora?, sorriu Ferreira. ![]()