14/12/2001 - 8:00
Foram necessários pouco mais de três meses para as bombas americanas e os soldados da Aliança do Norte derrotarem o regime taleban e desmontarem as bases terroristas do Al Qaeda no Afeganistão. A rápida vitória militar trouxe alívio para quem temia uma guerra demorada, mas deixou dois problemas ainda sem solução: como superar a devastação e a miséria no Afeganistão e como continuar o combate aos grupos terroristas, que nem mesmo os americanos acreditam estar fora de operação depois do conflito.
O último pedaço do Afeganistão que ainda era controlado pelos terroristas da Al Qaeda, as montanhas Tora Bora, caiu no domingo 16 de dezembro. Depois de bombardeios intensos pelos aviões americanos, cerca de 200 militantes da Al Qaeda foram mortos, 25 foram presos e centenas fugiram pelas montanhas em direção à fronteira com o Paquistão. ?Este é o último dia da Al Qaeda no Afeganistão?, comemorou no domingo o comandante afegão Haji Zaman.
Dias antes, em 7 de dezembro, os militantes do Taleban haviam deposto as armas em seu último foco de resistência, a cidade de Kandahar, no sul do Afeganistão. Foi um final surpreendente para uma ditadura que parecia firme no poder. Os fanáticos religiosos que aterrorizaram o país por cinco anos caíram 87 dias depois dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Já os militantes terroristas da Al Qaeda resistiram um pouco mais: 96 dias.
Depois de terem derrotado russos e grupos rivais afegãos nos anos 80 e 90, os talebans tinham fama de combatentes resistentes, mas foram rapidamente dobrados pela tecnologia militar americana. Assim como já haviam feito na Guerra do Golfo, em 1991, e na antiga Iugoslávia, em 1999, os americanos optaram pela estratégia de bombardeios maciços, quase ininterruptos, evitando ao máximo o confronto direto entre tropas.
Os bombardeios começaram em outubro. Durante semanas, os aviões B-52 despejaram bombas sobre alvos do Taleban, mas não se tinha notícia de abalo em sua base de poder. Os militares americanos viraram alvo de críticas por sua estratégia. No entanto, os mísseis e as bombas estavam destruindo as linhas de defesa e a moral dos militantes do Taleban.
Quando caiu a primeira cidade importante controlada pelo Taleban, Mazar-e-Sharif, no Norte do país, sua base de poder rapidamente desmoronou. A frágil coalizão dos inimigos do Taleban, a Aliança do Norte, que estava confinada a 10% do território afegão, ganhou moral e invadiu cidades que eram dominadas pelos fanáticos religiosos. Pouco mais de um mês depois da queda de Mazar-e-Sharif, o governo do Taleban havia virado história.
Os militantes do Taleban e da Al Qaeda foram derrotados pelas bombas americanas e pelos mujahedins da Aliança do Norte ? guerreiros tribais, que muitas vezes combatiam montados a cavalo e armados com velhos rifles russos Kalashnikov. Unir os mujahedins num governo de coalizão nacional é o novo desafio que os Estados Unidos e outros países ricos que apoiaram os bombardeios têm pela frente, depois da derrota do Taleban e da destruição das bases do Al Qaeda.
Não é mera retórica política, os países ricos precisam pacificar e reconstruir o Afeganistão, tarefa que deixaram de lado no passado. Na década de 80, os Estados Unidos financiaram os mujahedins, incluindo os talebans, na guerrilha contra o Exército Vermelho, da antiga União Soviética, que havia invadido o país. Os guerrilheiros afegãos foram beneficiados pelo dinheiro e pelas armas americanas enquanto foram úteis na Guerra Fria.
Abandonado à própria sorte depois que os russos deixaram o país, o Afeganistão foi devastado por guerras tribais e acabou dominado pelos fanáticos religiosos. Os países ricos não deram muita atenção à miséria nem às denúncias do terror imposto à população pela ditadura religiosa do Taleban. O Afeganistão só voltou a despertar a atenção internacional quando o terrorista saudita Osama Bin Laden começou a usar o país como base de suas operações internacionais. Agora, os países ricos não querem repetir o erro. ?Desta vez, não podemos falhar?, diz o primeiro-ministro britânico Tony Blair.