O estado das finanças e da economia brasileira foi resumido na quarta-feira 19 pela divulgação de três grandes números. O primeiro saiu às 11h50, dando conta de que a dívida do governo em 2005 havia crescido 11% devido à sistemática elevação da taxa de juros. Poucas horas depois, às 14h30, soube-se que a arrecadação federal de impostos em 2004 crescera 10,47% para fazer frente ao serviço da dívida pública. Finalmente, o circulo fechou-se às 18h55, quando o Comitê de Política Monetária anunciou que, devido à necessidade de cumprir a meta de inflação para este ano, fixada em 5,1%, a taxa básica de juros estava sendo elevada em meio ponto e passava a ser de 18,25%. Foi o quinto aumento consecutivo desde setembro. Com ele, cristalizou-se a impressão de que o País está preso numa armadilha. ?Entramos em um círculo vicioso?, diz o economista Antônio Correia de Lacerda, da PUC paulista. ?Estamos coletando impostos para pagar dívidas que sobem com a elevação dos juros. Isso não leva a lugar nenhum.?

Há outros aspectos alarmantes nessa situação. O principal deles, negado com veemência pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, é o risco de a economia brasileira perder o fôlego e voltar a encolher sob o peso da maior taxa de juro real do mundo, que na semana passada atingiu 11,87%. O crescimento de 5,3% do PIB em 2004 foi conseqüência de uma taxa de juros cadente durante a maior parte do ano. Com os juros subindo, a lógica econômica sugere que os investimentos e o consumo andem para trás. ?Essa escalada de juros vai frear o consumo e parar o mercado interno, que deveria ser o motor da economia em 2005?, prevê Paulo Godoy, presidente da associação dos investidores de infra-estrutura, a Abdib.

A queixa do industrial paulista ilumina um outro aspecto da questão: o câmbio. Ele chegou a subir 15% nos últimos meses em decorrência do enfraquecimento global da moeda americana e da política de juros brasileira, que está atraindo para o País dólares ansiosos por lucros rápidos. Os especialistas têm alertado o Banco Central para o fato de que a valorização do dólar vai derrubar as exportações, mas Meirelles tem insistido em dizer que o mandato do BC é para combater a inflação, não para regular o câmbio. Mas se as exportações tropeçarem haverá um impacto fortíssimo na ocupação industrial, na geração de emprego e nas contas externas do País. Afinal, graças ao superávit comercial de US$ 33 bilhões, o Brasil, pela primeira vez em décadas, tem no caixa mais dólares do que gasta.

A novidade nessa situação é que os seis integrantes do Copom têm sido mais ortodoxos do que o próprio mercado. Com dois telefonemas é possível achar um economista de banco disposto a questionar a rigidez da política monetária. ?A alta dos juros já poderia ter parado?, diz Alexandre Póvoa, do Banco Modal. Um aspecto que tem catalisado as discussões é o fato de que boa parte da inflação brasileira tem vindo de preços administrados, que são imunes à taxa de juros. Mas essas ponderações não parecem tocar Meirelles ou o ministro Antônio Palocci, da Fazenda ? os homens fortes da economia no governo Lula. No dia seguinte à reunião do Copom, Palocci defendeu Meirelles e chamou de ?improcedentes? as críticas que ecoam do setor produtivo. Para quem o ataca, o ministro costuma responder que os números mostram que a política econômica está correta. Como diria o sujeito que caiu do 10º andar e ainda não bateu no chão: até aqui vai tudo bem.